Um olhar sobre os indígenas do Brasil, a Ucrânia e a explosão de Little Richard
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 16/04/2023
- Tempo de leitura 5 minutos
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
O Contato
Diretor de filmes como Soy Cuba, O mamute siberiano, sobre o clássico de Mikhail Kalatozov, o cineasta Vicente Ferraz volta sua câmera a um assunto sempre urgente no Brasil: a questão indígena. Em O Contato, a ação se situa no Alto Rio Negro, no Amazonas, um território indígena brasileiro, no município de São Gabriel da Cachoeira, habitado por comunidades de 23 etnias originárias e contando com 19 línguas diferentes. O filme acompanha o cotidiano de três famílias dali.
De forma até meditativa, o documentário retrata a vida numa região de diversidade cultural e beleza natural – ambas ameaçadas pela dita civilização. O que vêm à tona são histórias de contato com os brancos e tentativas de aculturamento, cujos resultados, como bem sabemos, sempre são desastrosos.
O documentário se integra às vidas dessas pessoas, travessias de barco, a comunhão com a natureza, a sobrevivência em meio à negligencia governamental e os riscos dos exploradores. Cerimônias são filmadas com curiosidade e respeito, iluminando uma cultura local que, não poucas vezes, é marcada pelo sincretismo. São impressionantes, particularmente, as cenas envolvendo ritos e cantos católicos, por exemplo.
Ao colocar esses membros dos povos originários falando em primeira pessoa, com liberdade para lembrar e comentar suas histórias, Ferraz nos dá a rara chance de um relato direto. Ao mesmo tempo, vemos também o presente em transformação, com casamentos entre pessoas de povos distintos.
O Contato é um filme que se constrói numa cadência própria, um ritmo de quem atravessa o rio num barco, sem a pressa pautada pelo capital. Ao mesmo tempo, é um retrato melancólico de um Brasil vulnerável e que deveria ser mais ouvido. O documentário, em sua grande sagacidade, ouve o que eles têm dizer e, quem sabe, consigamos extrair algum aprendizado disso tudo.
O filme é dedicado ao indianista Bruno Pereira, que colaborou na realização do documentário e foi assassinado junto com o jornalista britânico Don Philips, em junho do ano passado, durante uma viagem pelo Vale do Javari, no extremo-oeste do Amazonas. Essa triste nota, antes dos créditos finais, ressalta a importância do seu trabalho, assim como a questão indígena, um assunto que precisa ser encarado de frente, debatido e resolvido urgentemente no Brasil.
(Alysson Oliveira)
(Alysson Oliveira)
Sessões:
Cine Marquise (SP) - 16/04/2023 às 20h30
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 17/04/2023 às 19h00
NET Botafogo (RJ) - 17/04/2023 às 20h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 18/04/2023 às 18h00
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Little Richard – Eu Sou Tudo
O documentário de Lisa Cortés abraça uma tarefa e tanto: dar conta o melhor possível de captar o furacão caleidoscópico chamado Little Richard (1932-2020). Cantor, compositor, pioneiro negro do rock’n’roll e da cultura queer em plenos e repressivos anos 1950, no sul segregado dos EUA, Richard Penniman não só foi energicamente inovador como sistematicamente reduzido nos registros – a história da música norte-americana e mundial ainda não lhe deu devidamente todos os créditos merecidos.
Em parte este relativo descaso apoiou-se no pretexto das contradições do próprio Richard – que, em algumas fases da vida, mergulhou em todos os excessos, incluindo o uso de drogas, em outras, recorreu à religião, inclusive estudando teologia numa universidade altamente conservadora e afastando-se momentaneamente da carreira pop, em que ele brilhava com seus shows performáticos e figurinos incríveis, passando a gravar apenas gospels.
A diretora faz um uso bastante eficaz de seus materiais de arquivo, que mostram shows e entrevistas de Richard – cujas performances nessas ocasiões mostravam o entertainer instintivo e provocador que era. E também alinha uma série de entrevistas, com músicos que o acompanharam, produtores musicais e estudiosos que contribuem enormemente para um entendimento mais amplo daquele cometa de talento e originalidade que o artista foi, ressaltando o papel desempenhado pelo racismo em várias situações de sua vida – inclusive numa valorização pública bem maior de artistas brancos, como Elvis Presley e Pat Boone. Suas apresentações, por sua vez, não deixarão nenhum espectador indiferente. Dá vontade de sair dançando. (Neusa Barbosa)
Sessões:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 16/04/2023 às 16h30
IMS Paulista (SP) – 20/4/2023 às 17h
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 21/04/2023 às 13h
NET Botafogo (RJ) - 22/04/2023 às 17h
O ESTADO DAS COISAS
Liberdade em Chamas
Ampliando um documentário anterior, Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom, indicado ao Oscar em 2015, o diretor Evgeny Afineevsky coloca em primeiro plano a imensa tragédia humana provocada pela guerra da Ucrânia. Seu foco está na resistência de pessoas comuns, que recusam deixar suas casas, ainda que arruinadas por bombardeiros, ou vivendo amontoadas nos abrigos possíveis, enfrentando todas as dificuldades imagináveis para encontrar água e alimentos, além de manter-se aquecidos em invernos rigorosos.
É impossível não se comover com as atitudes destas inúmeras pessoas, algumas dando depoimentos individuais dilacerantes, sobrevivendo em condições perto do impossível, do inaceitável. O filme, entretanto, não explora todos os aspectos geopolíticos envolvidos nesta guerra super-complicada pelos interesses de superpotências. Sua linha é pontificar o que o diretor classifica como “um dia de felicidade” na praça Maidan, em Kiev – referindo-se aos protestos em 2013 e 2014 para a saída do então presidente pró-russo Viktor Yanukovych - culminou nesta situação beligerante que dura quase uma década. O que não deixa de ser verdade, mas há inúmeros outros fatores para compreender o contexto de um dos países mais complexos e instáveis do mundo neste momento. (Neusa Barbosa)
Sessões:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 16/04/2023 às 14h
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 21/04/2023 às 20h30
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