04/06/2026

Um debate sobre o aborto e um perfil de Angela Merkel

COMPETIÇÃO BRASILEIRA


Incompatível com a vida
Dirigido por Eliza Capai, este é um filme de um força incomum. É também um documentário ao mesmo tempo, doloroso e libertador, trazendo, a partir de experiências pessoais, uma discussão que deve ser de âmbito nacional e está mais do que na hora de ser encarada de frente.

O que começa como um simpático, embora aflitivo, documentário sobre a gravidez, no caso, da própria diretora no começo da pandemia, logo se transforma num retrato pessoal e altamente político sobre o direito ao aborto. Pouco tempo depois de se descobrir grávida, Eliza recebe o diagnóstico da condição de seu filho ainda não nascido: uma má formação cerebral impede que a criança sobreviva ou, nas palavras do médico durante um ultrassom, “é incompatível com a vida”.

A dolorosa jornada de Eliza e seu companheiro na época, o fotógrafo português João Pina, torna-se o centro do filme, mas o documentário vai além: traz histórias de outras mulheres que enfrentaram problemas parecidos e precisavam passar por um aborto legalizado.


A primeira coisa que se percebe, praticamente de todas as histórias, é que realizar o procedimento não é nada simples. É preciso uma autorização judicial, e isso depende de trâmites burocráticos que, por diversos motivos (até má vontade) podem demorar, excedendo o período legal seguro para o aborto. Nesse caso, é preciso continuar com a gestação de uma criança que não sobreviverá.

Eliza, que viveu o drama na pele, é sensível o bastante para abrir espaço para suas entrevistadas e entrevistados compartilharem suas histórias sem pressa, no seu próprio ritmo de percepção e da forma como conseguem lidar. Enquanto isso, o filme discute com profundidade e competência como funciona o aborto no Brasil.

As histórias são as mais variadas e alguns fatos, impressionantes. Por exemplo, não é qualquer hospital que está preparado para o procedimento, ou ainda a instituição ou a equipe médica podem simplesmente recusar-se a fazer, ainda que com autorização judicial. Histórias como essas apenas expõem a importância da discussão da legalização do aborto em todos os casos no Brasil, e também eliminando a burocracia que torna ainda mais moroso o processo nos casos em que é admitido por lei.

Entrecortadas com as entrevistas, estão cenas da gravidez da diretora e de sua jornada, trazendo à tona questionamentos pessoais e até filosóficos sobre a vida e a maternidade. Num país assumidamente machista como o Brasil, Incompatível com a vida é um documentário corajoso e necessário. A bravura de Eliza em seguir em frente com o projeto, mesmo com sua gravidez complicada, é de uma generosidade imensa. O resultado é um filme pujante e, ao mesmo tempo, delicado em sua compreensão da complexidade das escolhas que a vida, às vezes, nos impõe.
(Alysson Oliveira)

Sessões
Cine Marquise (SP) - 15/04/2023 às 20h30
NET Botafogo (RJ) - 18/04/2023 às 20h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 19/04/2023 às 18h00
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 19/04/2023 às 19h00

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL


O Caso Padilla
Em março de 1971, o poeta cubano Heberto Padilla foi preso pelo governo de Fidel Castro, devido às suas veementes críticas ao regime. Sua prisão provoca protestos dentro e fora do país, mobilizando escritores como Julio Cortázar, Mário Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Jean-Paul Sartre e Gabriel García Márquez em manifestos mundo afora pela soltura do colega.

Libertado, Padilla protagoniza um famoso episódio no Sindicato dos Escritores Cubanos, onde realizou uma longa e alentada autocrítica – cujas imagens vêm a público pela primeira vez neste documentário, dirigido pelo cubano radicado em Madri Pavel Giroud.

As imagens falam por si para retratar o espírito daqueles dias. Um Padilla visivelmente emocionado empenha-se numa fala que, na versão integral, passou das duas horas, auto-acusando-se de “contrarrevolucionário”, assim como aos seus escritos, renegando livros como o premiado Fuera de Jogo e agradecendo seus “companheiros das forças de segurança” por tê-lo “ajudado” nesta mudança de postura. E também expõe sua própria mulher, Belkis Cuza Malé, e outros colegas presentes ao sindicato na mesma toada auto-acusadora. Alguns deles, inclusive, fazem suas próprias declarações ao seu lado, caso de César López, Norberto Fuentes, Pablo Armando e Manuel Díaz Fernández. Norberto, no entanto, volta ao microfone no final do evento, fazendo reparos à autocrítica geral: “Não tenho atitudes contrarrevolucionárias. E não fui bem-tratado”.

Analisando o contexto histórico, o filme coloca em foco a questão da liberdade de expressão, naquele momento contaminada por estas autocríticas de cunho estalinista – que também ocorriam na URSS, assim como prisões de escritores. É este, finalmente, seu objeto, lembrando que o tema continua candente dentro de Cuba – ainda que não lhe escape como Padilla, que finalmente foi viver no exílio nos EUA, foi usado como troféu pelas autoridades norte-americanas, como o presidente Ronald Reagan. O próprio Padilla, no entanto, mostrava-se mais cético e cansado de disputas ideológicas. Numa entrevista na França, em 1983, ele dizia ressentir-se tanto da esquerda como da direita.
(Neusa Barbosa)

Sessões:
Cinemateca Brasileira – sala Grande Otelo (SP) – 15/4/2023 às 16h30
NET Botafogo (RJ) – 18/4/2023 às 14h
NET Rio – sala 3 (RJ) – 21/4/2023 às 15h30
IMS Paulista (SP) – 22/4/2023 às 17h

O ESTADO DAS COISAS


Merkel
Dirigido por Eva Weber, o documentário explora a vida e a personalidade de Angela Merkel, uma das líderes políticas mais duradouras e bem-sucedidas do mundo. Chanceler (equivalente ao cargo de primeira-ministra) por 16 anos da Alemanha, Merkel teve uma trajetória excepcional, afirmando-se dentro de um partido, o CDU, e uma cena política majoritariamente masculinos.

Criada na Alemanha Oriental, em Templin, uma pequena cidade onde seu pai era pastor, Angela formou-se em Física e trabalhou num instituto científico até ser escolhida ministra da Mulher e da Juventude no governo de Helmut Kohl – que, iniciando a reunificação da Alemanha, em 1990, precisava de mulheres e de representantes da Alemanha Oriental em seu gabinete. Angela foi uma das duas mulheres escolhidas por ele e a única que sobreviveu, demonstrando uma incrível capacidade de aprendizado e resistência para assimilar os segredos da política, em que ela era uma novata em quem poucos apostavam. Superou todas as expectativas, sucedendo um político experiente como Kohl, quando ele foi envolvido num escândalo de doações secretas ao partido.

Recorrendo a inúmeras entrevistas da chanceler a emissoras de televisão em diversas épocas – o filme não conta com uma entrevista específica de sua personagem -, a diretora extrai declarações que definem aspectos marcantes da personalidade de Merkel, como sua franqueza e uma simpatia que encobria uma vontade de ferro. Também são destaques sua amizade por Barack Obama e seus choques com Donald Trump – que a hostilizava grosseira e abertamente. Mesmo sem dizer sempre o que lhe vinha à mente, a fisionomia de Merkel era capaz de traduzir o que ela pensava de tipos assim – ao qual se poderia acrescentar o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que pisou no seu pé numa cúpula do G20, em 2021, e mereceu dela uma dessas caretas e uma observação irônica (“só podia ser você) - mas o incidente não consta deste documentário.

O filme é eficiente em mostrar o talento político de Merkel para conduzir a Alemanha nesses 16 anos, lidando com uma grande popularidade em boa parte de seu mandato e enfrentando, com a mesma abertura, um tremendo desgaste quando decidiu manter abertas as fronteiras do país durante a crise dos refugiados, em 2015. Não se entra, no entanto, na maneira implacável com que Merkel lidou, nesse mesmo ano, com a crise da dívida da Grécia, que chegou a ser ameaçada de exclusão da zona do euro, um episódio sobre o qual, recentemente, ela reconheceu que aquele país pagou um alto preço. (Neusa Barbosa)

Sessões:
CCSP – sala Lima Barreto (SP) – 15/4/2023 às 19h
NET Rio – sala 3 (RJ) – 19/4/2023 às 20h30

The Natural History of Destruction
Exibido em Sessão Especial, fora de competição, no Festival de Cannes 2022, o documentário do premiado cineasta ucraniano Sergei Loznitsa não se se refere diretamente à guerra que abala seu país há mais de um ano, mas certamente comenta nas entrelinhas o contexto geral do espírito bélico em todos os tempos.

Sem narração ou entrevistas, valendo-se apenas de materiais de arquivo, como fez várias vezes em sua carreira, Loznitsa retrata os intensos bombardeios da II Guerra Mundial, expondo os efeitos devastadores das bombas alemãs lançadas de aviões sobre a França e Inglaterra e também a destruição produzida pelos aviões dos Aliados sobre cidades alemãs - como Lubeck, Rostock e Colônia, que foram praticamente varridas do mapa.

A ideia, certamente, não é tomar partido por nenhum dos lados e sim mostrar o processo de aniquilamento por trás de toda e qualquer guerra - inclusive com foco em suas terríveis consequências, retratando-se os cadáveres alinhados ao longo das estradas, a retirada dos refugiados e o sofrimento infligido à população civil.

Embora Loznitsa já estivesse fazendo este documentário quando a guerra na Ucrânia começou, trata-se evidentemente de uma tomada de posição sobre o pesadelo que está acontecendo lá, aqui e agora. Por isso, seu filme ressoa tão forte e urgente.
(Neusa Barbosa)

Sessões:

NET Rio – sala 3 (RJ) – 15/4/2023 às 20h30
CCSP – Lima Barreto (SP) – 18/4/2023 às 19h
Cinemateca Brasileira – sala Grande Otelo (SP) – 22/4/2023 às 14h

CLÁSSICOS


Sessões:

Sesc 24 de Maio (SP) - 15/4/2023 às 16h30
Cine Marquise (SP) - 17/4/2023 às 16h
NET Rio - sala 3 (RJ) - 22/4/2023 às 15h30