Deuses da Peste é um filme tão em si e para si, que precisa, nos créditos finais, trazer uma lista das referências que foram usadas ao longo de suas pouco mais de 2 horas. Afinal, para o longa, quem não está, para se usar um termo shakespeariano (um autor que está entre as referências aqui), entre os happy few, talvez não tenha a capacidade de perceber por conta própria as referências – se é que faz diferença saber isso.
Mistura de teatro e cinema, Deuses da Peste é uma experimentação que busca dialogar com o passado recente que desaguou no presente ainda distópico em que vivemos. Um letreiro em seu início avisa que o longa foi rodado entre o 1º e 2º turno das eleições presidenciais de 2022. Novamente, o público pode muito bem, sozinho, se dar conta a qual momento histórico a obra se refere, mas, mais uma vez, explicita-se o desnecessário. Só falta vir com uma bula.
Dirigido e montado por Gabriela Luíza e Tiago Mata Machado (que assina o roteiro sozinho), o longa vai beber da fonte de diretores como Alfred Hitchcock, Ana Carolina, Rainer Werner Fassbinder (ops, esse não é citado), com cujo filme o longa brasileiro compartilha o título, e escritores como Jean Genet, Silvia Federice, Thomas Bernhard, Walter Benjamin e Achille Mbembe. Enfim, um vasto panorama cultural diversificado que atesta seu repertório.
A melhor maneira de se aproximar do filme é não buscar compreensão, mas vê-lo como uma tentativa de obra politica, ou mais que isso, panfletária, que espera dialogar com o espírito dos anos de 1960, mas pautado por uma desilusão à brasileira.
A crítica à extrema-direita, sempre bem-vinda, é muito óbvia e didática. Um sujeito com camisa da seleção brasileira esbraveja “contra isso tudo que tá aí”, e segue o baile. De imagens estroboscópicas a experimentos com luzes, Deuses da Peste mostra seu vasto acervo como numa vitrine de um shopping de alta cultura – muito em sintonia com o esfacelamento típico da pós-modernidade.
