Inspirada numa peça teatral encenada pelo Bando de Teatro do Olodum nos anos 90,Ó Pai, Ó é uma tentativa de criar um produto regional, baiano, rompendo a estética cariocarizante imposta pelas novelas e minisséries globais, quase sem exceção. Procura-se retratar a subcultura do Pelourinho de Salvador, a partir não só da geografia, mas de seus moradores. E aí, sobram clichês para delinear personagens que, em tese, têm nuances mais ricas: a crente dona Joana (Luciana Souza), a dona de bar homossexual Neuzão (Tânia Tôko), a imigrante desiludida Psilene (Dira Paes), o motorista de táxi Reginaldo (Érico Brás), dividido entre a mulher grávida (Valdinéia Soriano) e o amante, o travesti Yolanda (Lyu Arisson). E dá-lhe axé music para embalar tudo. Quem não gostar, que fique longe. A primeira parte do filme, sobretudo, é ensurdecedora – uma característica da diretora Monique Gardenberg, aliás, já manifestada em seu filme anterior, Benjamim.
O regionalismo no cinema nunca foi nem é um problema, ainda mais num país com as diversidades saborosas do Brasil. O Cinema Novo, em especial, colocou em primeiro plano justamente essas diferenças regionais de forma tão profunda e contundente, quase sempre poética também. O que se critica aqui é o superficialismo desse enfoque de Ó Paí, Ó, quando ele beira a caricatura, por mais que se conceda às comédias licença para uma certa leveza.
Começando como comédia musical, que se ambienta numa véspera de Carnaval, conta-se a história de Roque (Lázaro), aspirante a cantor inserido na paisagem histórica do Pelourinho, povoada de personagens que, como ele, têm de dar duro para viver, sem carteira assinada. Travestis, camelôs, traficantes povoam esse mundo colorido e sensorial – traços de que a fotografia do filme se encarrega a contento.
Nem só de dança, namoro e música se vive neste pedaço do mundo. A fronteira com o crime é tênue, até mesmo para os meninos Cosme (Vinicius Nascimento) e Damião (Felipe Fernandes), filhos da evangélica dona Joana. Eles passam o dia na rua, fingindo ir ao culto mas na verdade deleitando-se com trambiques e até pequenos furtos na feira.
Fiel à dualidade do ambiente, o enredo acaba enveredando para a tragédia social. Até aí, nada demais. É até saudável que cineastas procurem dar conta das ambigüidades da vida em suas histórias. O problema é que, quanto mais variados os temas e seus tons, mais será necessária a mão do realizador, para dar ritmo e coerência ao produto final. A diretora Monique Gardenberg, que já assinalou no currículo dois filmes bastante irregulares - Jenipapo e o citado Benjamim -, não se mostra à altura do desafio.
O bálsamo a iluminar tudo é certamente a presença de Lázaro Ramos, confirmando o que nem necessita mais de comprovação, sua competência quase mágica, inclusive para cantar e dançar. Lázaro é desses atores capazes de conferir verdade a qualquer personagem, ainda mais tão à vontade em sua terra e com seu sotaque. O mesmo não se pode dizer do habitualmente talentoso Wagner Moura, que entrega uma atuação quase caricatural – ainda que seu diálogo sobre racismo com Lázaro esteja entre os pontos altos do filme.
A insistente canção-título, que dá nome ao filme, é de Caetano Veloso e Davi Moraes, interpretada pelo próprio Caetano e Jauperi. A trilha também incorpora Margareth Menezes, Tatau, Mariene de Castro, Banda Calypso e muito mais. Um pouco demais, para falar a verdade.
Do jeito que chega às telas, Ó Pai, Ó acaba servindo mais do que tudo para preparar o caminho da minissérie cuja chegada está prometida para novembro na TV. E não muito mais do que isso.
