Na redação de "A Crônica Francesa", suplemento de um jornal do Kansas, o editor e os repórteres são excêntricos mas sabem cavar boas histórias. Como a de um pintor louco que tem na guarda da prisão sua musa, um líder estudantil que se envolve com uma veterana repórter e um inspetor de polícia que tem seu chef de cozinha particular.
- Por Neusa Barbosa
- 08/07/2020
- Tempo de leitura 3 minutos
Em seu décimo filme, o diretor Wes Anderson mais uma vez investe no melhor de seu estilo, entregando um mundo belamente artificial. Não se pode culpar Anderson por querer fazer um outro mundo diferente deste. Mas seu artificialismo contido guarda conexões suficientes com o mundo real para ser reconhecido e ter ressonância emocional, vibrando notas de nostalgia, ternura, uma vaga melancolia e um sutil senso de humor.
A revista no centro da história de A Crônica Francesa não existe, mas poderia ter existido. Afinal, são notórias suas semelhanças com a The New Yorker. Mas, da maneira como constrói sua história, Anderson assume a liberdade de colher suas referências, embaralhando-as, recriando-as, passando-lhes pintura e perfume ao seu bel-prazer. Estamos no território da fantasia e da ficção e assim permanecemos. Qualquer semelhança com a realidade, porém, não será mera coincidência.
A cidade que serviu como locação ao filme existe - é Angoulême, no sudoeste da França. Muitas das cenas exteriores foram filmadas lá, em suas ruas estreitas de pedra, suas fachadas clássicas, capazes de abrigar uma história que se situa por volta de 1975 mas viaja a décadas anteriores nos segmentos que a conduzem.
Na ficção, a cidadezinha-sede da revista The French Dispatch, que nasceu como suplemento de um jornal do Kansas, chama-se Ennui-sur-Blasé, um nome em si mesmo revelador do humor sutil de Anderson. Jornalistas escrevem as histórias publicadas na revista, num filme ao qual não faltam sons antigos, como de máquinas de escrever.
As histórias em parte se intercalam. Numa delas, a jornalista J.K.L. Berensen (Tilda Swinton), narra o enredo que une um pintor assassino e internado num hospício (Benicio del Toro) cujas obras, inspiradas numa guarda que é sua musa (Léa Seydoux), são disputadas por uma família de marchands (Adrien Brody, Bob Balaban e Harry Winkler). Em outra, a repórter veterana Lucinda Krementz (Frances McDormand) acompanha uma rebelião estudantil à la 1968, envolvendo-se com um de seus líderes, o estudante Zeffirelli (Timothée Chalamet). Outra ainda retrata a aventura de um crítico gastronômico, Roebuck Wright (Jeffrey Wright), ao comparecer a um jantar convocado pelo inspetor de polícia (Mathieu Amalric), que tem seu próprio chef. Unindo toda essa trupe, está o editor da revista, Arthur Howitzer Jr. (Bill Murray), uma peculiar mistura de tolerância, exigência, cinismo e um toque de impiedade. Afinal, não se pode chorar em sua sala.
Há tantos detalhes e referências pontuando estas histórias que não há como captar todas - e nem é preciso ou prejudica a fruição do filme. Muito melhor é desfrutar de como Anderson se permite luxos, como passar da cor ao preto-e-branco, do inglês ao francês, da live action à animação, sem nenhuma preocupação em fornecer explicações ou mapas para decifrar suas intenções. Mesmo as épocas de seus figurinos e cenários são um tanto fluidas, numa mescla que imita a maneira como as lembranças se fundem em nossa memória, sem exatidão nem fronteiras.
O espírito da obra de Anderson é a sua peculiar mistura de nostalgia e ironia. A idealização que ele faz é mais visual do que, digamos, espiritual. O diretor cultua esses seus almanaques cinematográficos mas não os canoniza. Se aqui ele pode estar celebrando um velho jornalismo heroico, de revistas intelectuais hoje desaparecidas ou em vias de extinção, isso tem um ar retrô, como se existisse além do tempo e assim pudesse caber no álbum de retratos que cada um quiser compor. Um universo altamente literário, intelectualizado, mas sem nunca dispensar um toque de afeto por esses personagens todos, vagamente bizarros mas todos humanos.
