04/07/2026
Drama

Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída

Filha de pais divorciados, Christiane vive com a mãe, depois que sua irmã menor decidiu morar com o pai. Passando os dias por sua conta, acaba ligando-se a um grupo de adolescentes que frequentam uma discoteca e usam todo tipo de droga. Assim como os outros, ela acaba experimentando heroína e sendo arrastada a um inferno de dependência e degradação.

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O rosto angelical da adolescente Natja Brunckhorst, protagonista do drama de Uli Edel, é o mapa por onde se lê esta dilacerante jornada de degradação humana, que acomete a menina depois que ela mergulha no vício por drogas. Baseado num livro de reportagens do início dos anos 1980, o roteiro de Herman Weigel não se afasta desta pegada realista, tornando o filme doloroso de assistir. Um verdadeiro filme de terror.
 
O fato de que todo o elenco não tinha experiência anterior de atuação mantém o tom naturalista nesta jornada de Christiane (Natja Brunckhorst) e seus amigos. Ela tem apenas 13 anos quando acompanha a amiga Kessi (Daniela Jaeger) a uma discoteca na Berlim de 1981, frequentada por garotos e garotas menores de idade. Ali dentro, eles encontram bebidas alcoólicas e drogas de todo tipo. Experimentá-las é uma espécie de rito de passagem para o pertencimento à turma e Christiane adere voluntariamente e com curiosidade.
 
Mesmo que o filme não seja pródigo em detalhes sobre a vida de Christiane, é notório que ela é filha de uma família ausente. Os pais são divorciados. O pai, que vive com a filha menor, nunca aparece. A mãe (Christiane Lechle) passa o dia fora, trabalhando, e pouca atenção presta aos horários e mesmo à aparência da filha, que se deteriora a olhos vistos. O rosto angelical ganha olheiras e uma palidez impressionante à medida em que ela mergulha no vício da heroína - mesmo que amigos, como Axel (Jen Kuphal) e o namorado dela, Detlev (Thomas Haustein), já viciados, tentem impedi-la. Ela não dá ouvidos. Como muitos jovens, acha que pode controlar seu contato com a droga, até que esta a domina e, como Detlev e outros, ela recorra à prostituição para sustentar o vício.
 
Em sua longa exposição das situações a que estes garotos e garotas se submetem, o filme não poupa ninguém de cenas chocantes, optando por retratar, sem disfarces, a verdadeira epidemia de horror que então tomava conta de uma geração nesta Berlim do início dos anos 1980. Uma epidemia que provoca mortes precoces, que com frequência acabam nas manchetes dos jornais - e isso num momento em que a Aids ainda não tinha chegado, mas não demoraria a vir. 
 
David Bowie é uma presença peculiar no filme, tanto na trilha sonora da vida destes jovens quanto literalmente, num show a que Christiane vai. Ele é uma espécie de príncipe dos sonhos de uma geração perdida, vilificada, sem saída neste círculo de horrores. Apesar de tão difícil de assistir, o filme fez muito sucesso na época de seu lançamento na Europa e teve muito impacto por conta da contundência de sua denúncia. Não se sabe se hoje terá um efeito parecido. No mundo atual, há mais drogas sintéticas circulando e talvez o quadro não seja idêntico. Mas a degradação causada pelo vício certamente é.
 
Fora das telas, o próprio filme teve efeito na vida da personagem real, Christiane Felscherinow, hoje com 60 anos. Ela deixou o vício mas voltou, várias vezes, e o próprio dinheiro ganho com o filme foi gasto com heroína. Tornando-se escritora, ela hoje lida com vários problemas de saúde, como cirrose e hepatite B, esta contraída nos anos 1980. A atriz Natja Brunckhorst continuou a carreira artística, mas não Thomas Haustein, que interpretava seu namorado. Ele nunca mais fez outro filme e hoje é assistente social e atua no apoio a dependentes químicos.
 
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