Laís Bodanzky é uma cineasta conhecida por seus retratos da intimidade que conseguem captar o contexto de instituições e da sociedade mais ampla. Foi assim desde seu longa de estreia, o premiadíssimo Bicho de Sete Cabeças (2000) e continuou por retratos inspirados da adolescência (As melhores coisas do mundo) e da idade madura (Chega de Saudade). É o mesmo esforço que ela leva adiante neste seu A Viagem de Pedro, talvez seu filme mais arriscado. A diretora e roteirista se aventura num período histórico passado e também num episódio sobre o qual pouco se sabe ao certo: a viagem de D. Pedro I de volta a Portugal, em 1831, deixando para trás seu filho Pedro II, com apenas 5 anos, aos cuidados de um regente, para reivindicar seu direito ao trono de Portugal, ocupado por seu irmão Miguel.
No roteiro se imagina o que pode ter acontecido a bordo daquele navio britânico que levou o imperador (Cauã Reymond) e sua segunda mulher, Amélia (Victória Guerra). Retrata um Pedro voluntarioso, arrogante, machão, mas também atormentado por uma crise de impotência sexual e política. Naquele pequeno pedaço do império britânico que é o navio, ele é um hóspede de luxo mas não é rei nem governa. Dentro do quarto, até sua mulher cobra timidamente a vacilação de seu desejo. Os tripulantes podem até servi-lo, mas não são seus escravos. Escravos ele trouxe mas, desterritorializados, longe da casa grande e da senzala, eles passam a ter voz de sujeitos.
A claustrofobia se traduz nos pequenos espaços a que o grande ego de Pedro deve limitar-se. Os corredores estreitos do navio parecem sufocá-lo diante das lembranças e delírios de um passado em que, apesar de herdeiro de família real, pouco se sentiu amado, além das constantes disputas com o irmão que ele agora desafia, para colocar no trono português sua própria filha mais velha, Maria da Glória.
Por tudo isso, A Viagem de Pedro não é um filme fácil de simpatizar, já que se trata, em boa parte do tempo, da vertigem deste ambicioso e voluntarioso personagem que mudou a história do Brasil e que carrega tantas contradições. A voz de sua consciência atormentada, por fim, é a de sua primeira mulher morta, Leopoldina (Luise Heyer) - cuja fala em off, em alemão, reforça a estranheza desta viagem entre tempos, entre mundos, entre Pedros, cuja verdade, talvez, jamais conheceremos.
É fato, também, que, talvez para não estender-se muito, o filme se torna um tanto episódico, pulando de um segmento a outro sem fixar uma situação ou um sentimento. O que, de algum modo, também tem sua lógica ao traduzir a inquietação do protagonista em transição.
De todo modo, a chegada do filme às salas na véspera do bicentenário da Independência - que não ocorreu de propósito - não deixa de ser oportuna. É mesmo uma boa ocasião, como tantas, para o Brasil olhar-se no espelho, através de uma das figuras que o tornaram, de algum modo, o que é.
