04/07/2026
Suspense Drama

Não se preocupe, querida

Alice e seu marido Jack vivem numa espécie de condomínio utópico, nos anos de 1950. Tudo parece perfeito, até que ela começa a perceber coisas estranhas e desconfia que a verdade é mais sombria do que parece.

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Não se preocupe, querida foi o filme mais comentado do Festival de Veneza, no começo de setembro, e não pelas suas (parcas) qualidades, mas por todos os (supostos) escândalos envolvendo seus bastidores e a sessão de gala no evento italiano. Nada disso, no entanto, importa (ou deveria importar) quando se trata da obra em si – exceto pelo fato de as fofocas que a envolvem serem muito mais interessantes do que o resultado final.
 
Um pastiche de Esposas em Conflito, de 1975, com filmes mais recentes – que não podem ser mencionados, senão tiram o mínimo da surpresa que há aqui – , o longa dirigido por Olivia Wilde se perde em sua fantasia nostálgica de uma utopia dos anos de 1950 com um colorido vibrante – o esmerado desenho de produção de Katie Byron é o que há de melhor aqui.
 
O roteiro, assinado pelo trio Katie Silberman, Carey Van Dyke e Shane Van Dyke tem boas ideias – muitas “inspiradas”, na falta de palavra melhor, em grandes filmes – mas que nunca se conectam numa narrativa orgânica, trazendo cenas que sucedem umas às outras sem realmente haver uma coesão no desenrolar do drama da dona de casa Alice (Florence Pugh), que acaba de se mudar com seu marido Jack Chambers (Harry Styles), para uma espécie de condomínio utópico chamado Projeto Vitória.
 
Todas as manhãs, como todos os homens do local, ele sai para trabalhar numa empresa misteriosa que fica perto da fronteira do Projeto, com sabe-se lá o que, num deserto. Às mulheres, cabe ficar cuidando da casa, dos filhos, fazendo compras e aulas de balé. Não é por acaso que a trama se situa nos anos de 1950, antecedendo à década de grandes transformações culturais, sociais e políticas, que chacoalharam o mundo – entre elas, a revolução sexual e o fortalecimento do movimento feminista.
 
A nostalgia retrô de Não se preocupe, querida talvez seja mais reacionária do que Wilde parece imaginar. Naquele lugar onde se passa a trama o mundo é perfeito, as pessoas aparentemente felizes e as mulheres sem grandes preocupações. Contrapor isso com um presente distópico seria uma forma de exaltar o passado? Calma que o filme ainda vai chegar lá.
 
As falhas começam a surgir, como em O Show de Truman, quando um holofote despenca do céu. Ovos vazios, aviões que vêm de lugar nenhum e vão para um lugar qualquer. O deus desse mundo é Frank (Chris Pine), que desenvolveu o Projeto e é tradado como uma divindade pelos moradores e moradoras, sempre demonstrando muita gratidão.
 
O cenário e a natureza da trama são perfeitos para uma sátira à perfeição nostálgica de um mundo que nunca existiu como tal, mas Wilde, que também atua no filme, leva tudo bem a sério como se estivesse desenvolvendo um profundo manifesto sobre o patriarcado envernizado em cores sólidas – tal qual os eletrodomésticos dos anos de 1950. Quando chega a grande revelação, no clímax, esta parece não fazer muito sentido, sendo apressada e mal resolvida.
 
Styles, como ator, é ótimo influencer, e seus figurinos em Veneza apontam para isso. Já Pugh, grande atriz, como mostrou em Midsommar e Lady Macbeth, não encontra um material com o qual trabalhar, nem uma direção para a guiar. Não parece por acaso que ela optou por não participar dos eventos de divulgação do filme, comparecendo apenas ao tapete vermelho na Itália, e só.
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