A primeira coisa que salta aos olhos, ou, melhor, aos ouvidos em Pérola é um forte sotaque do interior de São Paulo. Nos anos de 1990, a peça original de Mauro Rasi e a personagem-título ficaram famosas com a interpretação marcante de Vera Holtz – foi um enorme sucesso na época. Ela é dona de um sotaque interiorano marcante, delicioso e, acima de tudo, natural. A discrepância é aqui o sotaque forçadamente carregado, que dói aos ouvidos e contrasta com toda o naturalismo empregado no filme, dirigido por Murilo Benício e protagonizado por Drica Moraes.
Rasi, falecido em 2003, inspirou-se em sua própria mãe para criar a personagem, que se torna uma figura quase mítica na Bauru dos anos de 1960, quando ela se muda para uma casa onde pretende construir uma piscina. O mote da piscina, aliás, é algo que marca o filme, cujo roteiro é assinado por Jô Abdu, Adriana Falcão e Marcelo Saback. É uma narrativa que mais se aproxima da crônica do que do drama em si, assim, acompanhamos episódios da vida da família.
Léo Fernandes interpreta Mauro, o alter ego do dramaturgo, um jovem sensível que sonha em ser poeta e passa alguns constrangimentos com a mãe expansiva. Ele também é homossexual, mas sua sexualidade precisa ficar camuflada na conservadora Bauru de meados do século. Só quando se muda para o Rio de Janeiro, e passa a viver com outro homem, Mauro pode viver sua sexualidade plenamente.
Mas essa é uma questão que nunca é endereçada pelo filme, muito menos tratada com os pais. A segunda parte é até compreensível – parte das experiência do próprio Rasi – mas a maneira como o longa lida com isso é como estivesse envergonhado. Ao não colocar esse tema em cena, o filme anula seu conflito mais potente. Por mais, que Drica esteja luminosa no papel – apesar do sotaque irritante – sua personagem é apenas uma mulher excêntrica e, às vezes, sem noção. Não há muita densidade no texto, ou no trato das figuras humanas, que parecem destituídas de mais nuances.
O pai (Rodolfo Vaz) é generoso com a mãe e os filhos, a irmã de Mauro, Elisa (Valentina Bandeira), também não compreende muito o irmão, e sonha em casar com um pastor evangélico (Jefferson Schroeder, um dos melhores em cena aqui). Há também a tia adúltera viúva e paraplégica, Norma (Cláudia Missura). É um catálogo de personagens que servem mais como tipos humanos para efeito de humor.
Benício, um dos atores de maior destaque de sua geração, estreou como diretor com O Beijo no asfalto, de 2017, uma ousada e bem-sucedida experiência entre teatro e cinema, que funcionou especialmente pela compreensão dele das particularidades de cada um dos veículos. Aqui, ele supera o ranço de um teatro filmado, mas não supera a superficialidade, uma característica já do original, e faz de sua Pérola, um figura simpática, mas, também, um tanto irritante.
