Amado cronista, romancista e contista brasileiro, Luis Fernando Verissimo sempre foi uma figura discreta. Discreta até demais - sua obra fala por ele. O diretor Angelo Defanti, que já adaptou dois contos e um romance (O Clube dos Anjos) dele para o cinema, no entanto, realiza um filme em que a discrição do biografado impregna a forma, resultando assim num documentário revelador naquilo que não mostra.
Verissimo acompanha duas semanas em 2016, quando o escritor estava prestes a completar 80 anos. A câmera de Defanti tem uma acesso privilegiado à casa da família, acompanha momentos de intimidade, como refeições e conversas. E, nesse sentido, torna-se um grande prazer observar o cotidiano do marido tímido e da esposa Lucia, extrovertida.
É também uma grande vantagem fugir da fórmula da biografia, cheia de dados factuais que facilmente se encontrariam na Wikipedia. Defanti aproveita a oportunidade, compondo um documentário intimista e impressionista, que observa sem se intrometer, por isso nos dá uma oportunidade única.
As entrevistas que aparecem no filme são aquelas que o escritor concede para veículos de imprensa enquanto o documentário estava sendo feito. Mas os momentos familiares são muito mais reveladores, como as interações com a pequena neta, com sua mulher ou até mesmo com fãs apaixonados.
As 100 horas de filmagens resultam um filme de 90 minutos muito bem construídos, na montagem de Eduardo Aquino, que transita entre a figura pública e o marido, pai, avô. Conhecido pelo seu humor sagaz e certeiro, a discrição de Verissimo fora das páginas pode impressionar, mas, ao mesmo tempo, percebe-se seu olhar curioso, apaixonado e perspicaz diante do ser humano e suas contradições. Se ele é um homem de não falar muito, o filme mostra que ele observa bastante, e é disso que nasce o substrato para sua obra sem igual.
