Vencedor de um Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes 2024 - que não fez justiça à densidade e contundência do filme -, A Semente do Fruto Sagrado marca a maturidade do diretor iraniano Mohammad Rasoulof com uma retrato doloroso e pungente de seu país, do qual ele teve que se exilar, fugindo, em maio do ano passado, depois de condenado a uma sentença de 8 anos de prisão, confisco de propriedade e chicotadas. Ele encontrou abrigo na Alemanha, país que produziu o filme e é seu representante na disputa do Oscar em língua estrangeira 2025.
A força deste drama sufocante, que não dá trégua ao espectador, está na contundência com que disseca a situação do Irã atual, abalado pelo crescimento vertiginoso da repressão às liberdades - o que é mostrado em inúmeros trechos documentais, como as filmagens de celulares dos protestos no Irã contra o uso obrigatório do hijab, o que levou à morte da jovem Mahsa Amini, sob custódia policial em 2022.
Ao centro da trama, está uma família. O pai, Amin (Missagh Zareh), acaba de ser promovido a juiz-investigador, o que leva a vislumbrar um futuro nos tribunais revolucionários, coroando seus 20 anos de dedicação ao trabalho. Sua mulher, Najmeh (Soheila Golestani), se anima com a possibilidade de subir na vida, conquistando um apartamento maior, assim como as duas filhas adolescentes, Rezvan e Sana (Setareh Malek e Mahsa Rostami). Mas o sonho de ascensão social vira rapidamente um pesadelo à medida que fica claro que a promoção de Amin implica num acelerado processo de cooptação. Ele é pressionado a indiciar e condenar diariamente - inclusive à morte - centenas de ativistas que naquele momento estão nas ruas, protestando contra o governo, e com os quais sua filha mais velha tem afinidade. Além disso, ele e sua família correm riscos de retaliação por conta do execrável trabalho que ele executa, levando mulher e filhas a viverem literalmente confinadas, especialmente depois que escolas e faculdades são fechadas devido aos protestos juvenis. O impasse, na família e no país, está declarado.
Tanto como acontecia em Não Há Mal Algum, que deu a este diretor o Urso de Ouro em Berlim em 2020, esse pântano ético vai sugando Amin e tornando-o um carrasco dentro do círculo familiar, permitindo que o filme se torne também uma densa reflexão sobre o patriarcado. As mulheres da casa, assim como as vistas na rua, resistem com os meios que têm nas mãos, multiplicando os artifícios para escapar a uma violência que, dentro de uma teocracia, falseia suas justificativas em nome de Deus . E a sequência final, filmada num ambiente ermo, nas ruínas do que parece uma antiga cidade, lembram um faroeste. Uma referência que não deixa de ter sentido, assim como a de filme de terror a que remete a derradeira imagem.
Trata-se de um filme tenso, que não procura aliviar nenhum aspecto,por exemplo, ao denunciar os efeitos da violência policial, traduzida numa cena angustiante, em que Najmeh retira chumbo fino do rosto de uma jovem amiga de sua filha, Sadaf (Niousha Akhshi), brutalmente agredida por policiais apenas porque participava de uma manifestação. A polícia iraniana usa espingardas de caça de chumbo fino contra os manifestantes, o que produz ferimentos profundos. Ao forçar seus espectadores a compartilhar desta excruciante cena, o diretor coloca-nos em contato com a violência do regime autoritário, que procura calar inclusive as vozes dos artistas. Sem sucesso, já que o filme de Rasoulof, que teve uma premiére mundial emocionante em Cannes 2024 - Rasoulof, que fugira de seu país há dias, compareceu ao tapete vermelho, carregando as fotos de seus dois atores protagonistas (Missagh Zareh e Soheila Golestani), proibidos de sair do Irã, - e continua a ser indicado em premiações ao redor do mundo.
Além do troféu em Cannes, Rasoulof foi premiado como melhor diretor pela Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles. O filme foi escolhido como melhor Filme Internacional no National Board of Review e concorreu ao Globo de Ouro (como melhor Filme de Língua Não-Inglesa), European Film Awards (como melhor Filme, melhor Diretor e melhor Roteiro), Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles (como melhor Filme Estrangeiro) , Círculo de Críticos de Cinema de Nova York (como melhor Filme Internacional) e entrou na pré-lista do Oscar de filme em língua estrangeira, entre vários outros. É um forte concorrente em várias destas premiações ao drama brasileiro Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, com quem compartilha a vocação de colocar em foco a discussão do autoritarismo, um tema mais do que relevante no mundo de hoje.
