03/07/2026
Drama

O Reformatório Nickel

Na Flórida dos anos 1960, ainda sob a vigência das leis racistas do Jim Crow, dois adolescentes negros, Elwood e Turner, tornam-se amigos. Apesar de muito diferentes, eles aprendem a trocar informações e solidariedade num ambiente extremamente cruel e abusivo, onde a vida de garotos como ele não vale nada aos olhos dos administradores. No Prime Video.

post-ex_7

Uma câmera colada ao corpo de seus protagonistas é a perpectiva perfeita para apresentar a estreita instabilidade do mundo de Elwood (Ethan Herisse) e Turner (Brandon Wilson), os dois adolescentes negros que conduzem a história de O Reformatório Nickel. O filme revela o talento do diretor Ramell Ross também para a ficção, depois de sua marcante estreia em documentário com Hale County, This Morning, This Evening (2018). 

Não à toa, Ross vem acumulando prêmios com este novo filme, que já lhe garantiu o troféu do Sindicato dos Diretores da América (DGA) como melhor diretor estreante em ficção, do Sindicato dos Roteiristas de América (WGA) pelo melhor roteiro adaptado (juntamente com Joslyn Barnes), além de melhor fotografia para Jomo Fray no Independent Spirit Awards, e duas indicações ao Oscar: melhor filme e melhor roteiro adaptado.

Adaptando o poderoso livro homônimo de Colson Whitehead, vencedor de um prêmio Pulitzer em 2020 (o segundo do escritor), Ramell mergulha na vida destes dois garotos, internos num temível reformatório na Flórida, em meados dos anos 1960. O lugar é uma literal continuação da escravidão por outros meios, submetendo seus internos a uma intensiva campanha de desumanização. Embora haja também internos brancos, estes vivem separados em outros dormitórios. Contra os garotos negros, não há limites para os abusos e a crueldade, em tempos em que as leis de segregação do Jim Crow ainda estavam vigentes, apesar das lutas pelos direitos civis de Martin Luther King e outros do lado de fora.

O encontro entre Elwood e Turner neste lugar é fruto de um acidente, uma verdadeira tragédia para Elwood. Garoto de 17 anos criado pela avó Hattie (Aunjanue Ellis-Taylor), Elwood sobreviveu ao abandono dos pais e é muito estudioso. Com a ajuda de um professor, preparava-se para cursar uma faculdade. Mas ter aceito uma carona num carro que não sabia ter sido roubado desvia-o desta rota civilizatória. Ainda que totalmente inocente, ele acaba dividindo com Turner, um sobrevivente de problemas familiares e sociais bem diferentes dos dele, o cotidiano nesta verdadeira sucursal do inferno.

A direção precisa de Ross permite que o espectador compartilhe da intimidade entre estes dois amigos, Elwood, o ético, Turner, o cético, que unem suas diferenças em proveito recíproco - e esta será a única lição que lhes valerá algo neste lugar, projetado para destruir sonhos, esperanças e saúde física e mental mediante um exercício cotidiano da exploração e da maldade, frequentemente mergulhando no sadismo. Mais assustador ainda é que não seja raro que os maus-tratos dos funcionários custem a vida de alguns internos e seus corpos acabem sepultados num cemitério secreto escondido num bosque. 

Ao colocar o foco na relação entre estes meninos, apresentando alguns dos que com eles compartilham deste cotidiano de desumanização permanente, o diretor consegue inserir a dose certa de humanidade para que a história não se torne excessivamente violenta ou mesmo insuportável. Porque se torna impossível não cultivar alguma forma de empatia por estes garotos ainda tão cedo sendo privados de uma educação minimamente decente e de esperanças de superação, já que são constantemente inculcados de toda forma de complexo de inferioridade e sentimento de impotência. O Reformatório Nickel é um arsenal de destruição colocado a serviço do racismo institucionalizado.

O pior de tudo é que não se trata, a rigor, apenas de uma obra de ficção. Whitehead apenas deu nomes e rostos a vítimas de uma tragédia realmente ocorrida na Arthur G. Dozier School for Boys, uma instituição que existiu por 111 anos, na cidade de Marianna, na Flórida, e onde foram encontradas sepulturas secretas, revelando um histórico de abusos, tortura e morte. 

Os pontos fortes do filme estão numa escolha precisa de seus intérpretes principais, aos quais se soma um elenco de coadjuvantes juvenis que transmite todo o sentimento coletivo que se procura; além da fotografia singular, nesta câmera que alterna os pontos de vista dos personagens principais de maneira a assinalar as perspectivas do que se vive; e também na forma como materializa as expectativas do próprio público quando projeta o futuro dos protagonistas, sem mostrar o rosto de um adulto (Daveed Diggs) que pesquisa na internet as notícias sobre a descoberta de sepulturas sem identificação num reformatório. Assim como o autor do livro, o diretor sabe usar seus recursos para manter os espectadores conectados com as emoções dos personagens. E o resultado é nunca menos do que dilacerante. 

post