02/07/2026
Drama Filme de época

Grand Tour

Edward é um funcionário público inglês na Birmânia de 1918. Quando recebe a notícia de que Molly, sua noiva há 7 anos, de cujo rosto sequer se lembra, está para chegar e cobrá-lo do compromisso, ele decide impulsivamente fugir. Inconformada, Molly parte através dele num atribulado trajeto, que percorre diversos países asiáticos do então imenso Império Britânico. Na Mubi (a partir de 18/4).

post-ex_7

Voltando novamente à fotografia em preto e branco de Tabu (2012), o cineasta português Miguel Gomes elabora uma história de época, ambientada na Ásia em 1918. Apesar da localização temporal, ele não demora a tomar todo tipo de liberdades, inclusive em relação aos objetos de outras épocas vistos em cena, visando, como sempre, expor o artifício da própria arte, o cinema. Pela obra, ele venceu o prêmio de direção no Festival de Cannes 2024. 

Novamente, o colonialismo está no centro da narrativa mas, desta vez, os personagens são ingleses - embora falem português, o que reforça a admissão do artifício como recurso válido para toda arte - afinal, em Hollywood todo mundo não fala inglês, independentemente da localização geográfica e temporal? 

Dois personagens dominam a história. Na primeira parte, Edward (Gonçalo Waddington), funcionário público na Birmânia (hoje Mianmar), que foge intempestivamente quando tem notícia de que sua noiva há 7 anos, de cuja fisionomia sequer se lembra, está chegando. 

Ela é Molly (Crista Alfaiate), e, ao contrário do que se poderia esperar, não desiste de encontrar o noivo fugitivo, num périplo que passa por várias localidades pertencentes ao então imenso Império Britânico, como Bangcoc, Saigon, Manila, o Japão, Xangai e Wangyu, na China. Na segunda parte do filme, acompanha-se o percurso de Molly por esses lugares, que o filme revela em sua variedade humana e cultural, inclusive com narração nas línguas locais, tornando os dois ingleses coadjuvantes de um cenário muito mais diversificado e rico do que eles. 

O filme é eficaz, inclusive formalmente, ao expor essa dicotomia entre colonizados e colonizadores, em que os segundos jamais compreendem a natureza dos primeiros - sequer o tentam, aliás -, sobrepondo-se a eles através de mecanismos de poder e manipulação, só tendo em vista os próprios desejos e obsessões. Por tudo isso, Grand Tour mostra-se uma obra de inúmeras sugestões e leituras, enriquecedora para quem se dispuser à sua proposta de uma grande viagem na imaginação.

post