03/06/2026
Drama

Iracema - Uma Transa Amazônica

Brasil, 1970. A ditadura militar centra sua propaganda nas grandes obras, como a Transamazônica, que rasga a floresta e desloca populações. No meio disso, a adolescente indígena Iracema viaja com sua família a Belém, para participar do Círio de Nazaré. Perdendo-se dos seus, embarca numa aventura e se envolve com o caminhoneiro Tião Brasil Grande. Na Netflix.

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Realizado há mais de 50 anos, Iracema - Uma Transa Amazônica, parceria de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, é um desses filmes destinados a deixar uma marca indelével nas retinas de quem o vê. Nascido como um projeto para a TV alemã, misto de documentário e ficção, o longa tornou-se, ao longo dos anos, um verdadeiro testemunho da falsidade do projeto do Brasil Grande da ditadura militar, revelando as entranhas de um processo de destruição selvagem da natureza e das populações originárias no bojo da implantação de um acelerado capitalismo selvagem.

Com uma história tão atribulada quanto a de seus personagens, a adolescente indígena Iracema (Edna de Cássia) e o motorista de caminhão Tião Brasil Grande (Paulo César Pereio), o filme foi proibido por quatro anos durante o regime militar, para finalmente estrear no País, no Festival de Brasília de 1980. Dali saiu consagrado com quatro dos prêmios mais importantes daquela edição: melhor filme, montagem, atriz (Edna de Cássia) e atriz coadjuvante (Conceição Senna).

Filmado em 16 mm, com som direto e sem roteiro ou diálogos definidos (as falas são improvisadas a partir das situações dadas pelos diretores), Iracema…. é um road movie doloroso no coração do Brasil, a Amazônia. Ambientado em 1970, quando se construía a Transamazônica, o filme viaja nessas andanças de garota Iracema, uma indígena de 15 anos que vai com a família de sua aldeia para Belém para acompanhar o Círio de Nazaré. Nas ruas apinhadas pela multidão, ela se perde dos seus para enveredar numa grande aventura, a princípio ao lado do caminhoneiro Tião. Gaúcho, esperto, bem-falante, ele é o símbolo destes forasteiros que partem pelas estradas em busca de oportunidades, dinheiro e também mulheres, tirando todas as vantagens possíveis e deixando qualquer escrúpulo de lado. 

Com apenas dois atores profissionais no elenco - o próprio Pereio e Conceição Senna -, o filme captura muitos rostos comuns daquelas estradas, trabalhadores, aventureiros, donas de casa, prostitutas, crianças, compondo na tela uma rica galeria da variedade humana que habitava a região. Capta, também, esse ambiente dos cabarés e bares de beira de estrada, onde se misturam os desvalidos da sorte e seus exploradores. 

Ao voltar sua câmera para a realidade que vê, Bodanzky (o fotógrafo do filme) capta imagens estarrecedoras de queimadas de vastas extensões da floresta, bem como de caminhões embarcando vastas quantidades de madeira - quem sabe quantas seriam madeiras de lei contrabandeadas -, flagrando o problema ambiental da devastação, ainda hoje pendente. Ao lado disso, criam-se situações ficcionais representando os problemas decorrentes da apropriação selvagem do território, como a grilagem de terras e a ação dos “gatos”, como são chamados os traficantes de pessoas para o trabalho análogo à escravidão. 

A própria tragédia de Iracema, abandonada, vilipendiada e perdida, é uma evidente metáfora de um País explorado, de um projeto de desenvolvimento excludente e destruidor. Por isso, suas imagens, agora restauradas, assim como o som, oferecem a oportunidade de repercutir, mais uma vez, lembrando a incompletude da tarefa de proteger a Amazônia e prosseguir na tarefa de construir um País realmente grande e inclusivo.

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