O espaço social e econômico da cidade, no caso Recife, tem um papel fundamental em Paterno, segundo longa do brasiliense Marcelo Lordello, que vive e trabalha na capital pernambucana há mais de 20 anos. O fato de o protagonista ser um arquiteto coloca esse espaço numa posição central.
Sérgio (Marco Ricca) é um arquiteto de meia-idade que tem um projeto, digamos, faraônico. Sua fortuna permite que compre diversas casas de um bairro popular para realizar essa obra, que é mais um sonho pessoal do que parte do escritório construído por seu pai (Germano Haiut), e comandado com pulso firme por seu irmão (Nelson Baskerville).
E o filme nos coloca logo de cara uma questão: quem é esse Sérgio? Descobrimos que é um sujeito rico, bem casado, pai de um adolescente, Thomás (Guga Patriota), prestes a prestar vestibular para arquitetura – uma escolha que não parece sua, mas mais uma pressão pelo nome da família. Sérgio tenta ser um pai amoroso, mas não tem capacidade de escutar o que seu filho tem a dizer.
Quando o conhecemos, ele se dirige a uma casa que pretende comprar por um preço baixo no bairro onde pretende erguer seu complexo megalomaníaco. É o neto dos donos, Claudio (Thomás Aquino), que bate de frente com o arquiteto e pede um preço mais alto. Esse personagem, como todos do filme, se revelam mais dúbios do que se mostram a princípio.
Filmes como o italiano As Mãos Sobre A Cidade, de Francesco Rosi, lançado em 1963, dialogam claramente com Paterno, na medida em que ambos investigam o choque de classes a partir da arquitetura. São filmes sobre quando a burguesia vai à periferia em busca de lucros e cujas ações resultam apenas em exploração, evidenciando o forte abismo social que existe nos dois países.
Lordello, que assina o roteiro com Fabio Meira, já mostrava em seu longa de estreia na ficção, Eles Voltam, um olhar certeiro para o universo burguês ruindo a partir da descoberta do outro, em especial, o outro de outra classe social. O mundo de Sérgio só pode começar a fazer sentido com a descoberta de Cláudio.
Não deixa de ser curioso que num filme tão marcado por personagens masculinos – como até aponta o título –, a principal cena pertença a uma mulher preta, feita pela grande Rejane Faria (Marte Um), roubando a cena num momento crucial da narrativa. Sinal da percepção de Lordello de que as mudanças estruturais necessárias para o país não virão dos homens burgueses brancos.
O diretor é excelente também na construção dos diálogos, que evidenciam seu talento para narrar ao invés de descrever, o que traz ainda mais densidade ao filme, que lança uma indagação sobre o Brasil do vale-tudo. Vale tudo mesmo?, pergunta. Não existem respostas simples, assim, Paterno dá conta de complexidade social que vivemos no país.
