03/07/2026
Drama

Paterno

Sérgio (Marco Ricca) é um arquiteto que está comprando casas por um valor baixo num bairro periférico de Recife para fazer um projeto ambicioso. Seu projeto, no entanto, bate de frente com Claudio (Thomás Aquino), que sabe do valor da casa dos avós. No TeleCine a partir de 17/02.

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O espaço social e econômico da cidade, no caso Recife, tem um papel fundamental em Paterno, segundo longa do brasiliense Marcelo Lordello, que vive e trabalha na capital pernambucana há mais de 20 anos. O fato de o protagonista ser um arquiteto coloca esse espaço numa posição central. 

Sérgio (Marco Ricca) é um arquiteto de meia-idade que tem um projeto, digamos, faraônico. Sua fortuna permite que compre diversas casas de um bairro popular para realizar essa obra, que é mais um sonho pessoal do que parte do escritório construído por seu pai (Germano Haiut), e comandado com pulso firme por seu irmão (Nelson Baskerville).

E o filme nos coloca logo de cara uma questão: quem é esse Sérgio? Descobrimos que é um sujeito rico, bem casado, pai de um adolescente, Thomás (Guga Patriota), prestes a prestar vestibular para arquitetura – uma escolha que não parece sua, mas mais uma pressão pelo nome da família. Sérgio tenta ser um pai amoroso, mas não tem capacidade de escutar o que seu filho tem a dizer. 

Quando o conhecemos, ele se dirige a uma casa que pretende comprar por um preço baixo no bairro onde pretende erguer seu complexo megalomaníaco. É o neto dos donos, Claudio (Thomás Aquino), que bate de frente com o arquiteto e pede um preço mais alto. Esse personagem, como todos do filme, se revelam mais dúbios do que se mostram a princípio. 

Filmes como o italiano As Mãos Sobre A Cidade, de Francesco Rosi, lançado em 1963, dialogam claramente com Paterno, na medida em que ambos investigam o choque de classes a partir da arquitetura. São filmes sobre quando a burguesia vai à periferia em busca de lucros e cujas ações resultam apenas em exploração, evidenciando o forte abismo social que existe nos dois países.

Lordello, que assina o roteiro com Fabio Meira, já mostrava em seu longa de estreia na ficção, Eles Voltam, um olhar certeiro para o universo burguês ruindo a partir da descoberta do outro, em especial, o outro de outra classe social. O mundo de Sérgio só pode começar a fazer sentido com a descoberta de Cláudio. 

Não deixa de ser curioso que num filme tão marcado por personagens masculinos – como até aponta o título –, a principal cena pertença a uma mulher preta, feita pela grande Rejane Faria (Marte Um), roubando a cena num momento crucial da narrativa. Sinal da percepção de Lordello de que as mudanças estruturais necessárias para o país não virão dos homens burgueses brancos. 

O diretor é excelente também na construção dos diálogos, que evidenciam seu talento para narrar ao invés de descrever, o que traz ainda mais densidade ao filme, que lança uma indagação sobre o Brasil do vale-tudo. Vale tudo mesmo?, pergunta. Não existem respostas simples, assim, Paterno dá conta de complexidade social que vivemos no país.

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