Um ano atrás, Ridley Scott, um diretor que, nas últimas décadas, tem lançado religiosamente quase um filme por ano (em 2021, foram dois), disse que o cinema contemporâneo “está se afundando em mediocridade”. Não contente em apenas declarar isso, foi lá e fez um longa extremamente medíocre para provar sua ideia. Ponto sem retorno é o que há de pior no subgênero do cinema apocalíptico, do sentimentalismo barato (com crianças e cachorro) à violência que o cineasta gosta de filmar com toques de esteticismo.
É como A Estrada, mas com um cachorro no lugar do filho. Partindo do romance Na companhia das estrelas, de Peter Heller, o roteiro, assinado por Mark L. Smith, apresenta um mundo destruído por um vírus – o livro original é de 2012, ou seja, bem antes da covid-19 – e os sobreviventes se armam uns contra os outros e contra gangues de humanos e humanas que parecem ter perdido a razão.
Hig (Jacob Elordi) é um mecânico que mora com seu amigo, Bangley (Josh Brolin), numa espécie de galpão. Ele tem um cachorro, Jasper, e um avião – como ele consegue combustível é um mistério. Ele voa do esconderijo à cidade onde rouba medicamentos de um hospital destruído – por que ele pega um pouco de cada vez e não tudo de uma vez, é outro mistério –, trocando-os por comida com uma comunidade de menonitas. Num desses encontros, o líder (Benedict Wong) comenta que as crianças estão morrendo por falta de vacinas. Nessas viagens, o protagonista também visita sua antiga casa, onde relembra o passado com sua mulher (Sai Bennett).
Os olhares perdidos de Elordi no horizonte, dentro ou fora do aviãozinho, devem transmitir sua desilusão com a vida, e a vontade de sair em busca de um lugar de onde acredita ter ouvido um sinal. Enfim, coisas inesperadas acontecem, e ele resolve que é hora de partir, para desgosto de Bangley, que não quer ficar sozinho. Depois de problemas com o avião, Hig encontra uma pequena família, composta pelo pai, Pops (Guy Pearce), e uma filha adulta, Cima (Margaret Qualley), que enxerga no aviador mais do que um possível amigo, mas ela também tem traumas do passado.
Depois de filmes apocalípticos recentes, como Extermínio: A Evolução e Extermínio: O Templo dos Ossos, fica difícil aceitar Ponto sem retorno pelo preço medíocre com o qual se vende. Sem qualquer preocupação estilística, e apenas contando com uma história pró-armamentos, Scott não demostra qualquer vigor de um veterano – o que combina bem com a irregularidade de seu cinema.
As personagens não experienciam muita transformações, mesmo diante da crise de afetos no mundo destruído, e atravessam a narrativa sem evoluir, mesmo, supostamente, passando por grandes momentos emocionais. Elordi e Qualley se esforçam, mas o filme joga contra eles. Menos sorte ainda têm Brolin e Pearce.
O que Scott aprecia, no fundo, é de filmar a violência com gosto. Para ele, é a única saída possível – e talvez até seja, em tais condições, mas a maneira como ele coloca não é a da crítica à desumanização diante da tragédia, é a da total descrença na possibilidade de evolução do ser humano – o que é bem triste vindo de um diretor que fez Blade Runner - O Caçador de Androides e Alien, o 8.º Passageiro.
