04/10/2026
Comédia Drama

Digger

Digger Rockwell é o homem mais poderoso do mundo, mas um acidente em uma de suas plataformas de petróleo coloca o mundo em risco. Ele, porém, insiste que é a pessoa certa para resolver tudo e salvar a humanidade. Nos cinemas.

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Se Sangue Negro, uma das várias obras-primas de Paul Thomas Anderson, é uma espécie de figuração modernista da acumulação primitiva de capital, Digger, novo filme de Alejandro G. Iñárritu (ele agora assina assim), seria seu primo sobre o capitalismo tardio no qual a cultura se torna a lógica organizadora. Seria o primo, não fosse a altivez do diretor que, em seus últimos filmes, aparenta se achar brilhante demais para o público o compreender, e, por isso, precisa de longos monólogos explicando o óbvio. E esse é o caso desse pastel de vento presunçosamente brechtiano.

Tendo-se na mais alta conta, Iñárritu mira em Dr. Fantástico em sua sátira política sobre sátiras políticas, mas sem o fino humor de Kubrick, realizando um filme que patina em si mesmo, em busca de foco e com reviravoltas mirabolantes que servem mais como distração do que como camadas de profundidade e complexidade que ele pensa trazer à sua discussão do presente. Há também, numa parede, ao lado de um banheiro, um pôster de Noite de Estreia (uma piscadela absurdamente óbvia), que deve ter feito John Cassavetes revirar-se no túmulo diante dess obra que vai contra tudo o que ele pensava sobre cinema. 

Tom Cruise (debaixo de uma maquiagem pesada) é Digger, um milionário da indústria petrolífera cujos investimentos na Groenlândia estão prestes a causar um desastre social, político e ambiental de proporções globais, a começar por desabrigar boa parte da Europa. Mas ele é um visionário, um empreendedor capaz de imaginar cenários e resolver problemas com a ajuda de sua equipe – a quem ele humilha constantemente –, liderada pelo cientista Ganesh (Riz Ahmed, possivelmente o único ator bem em cena). Entra em cena também o presidente dos EUA, interpretado por um empenhado John Goodman. O mandatário é um paspalho idiota, assim como os outros políticos e militares que o cercam. A saída que encontram é manipular a verdade pelo uso da linguagem.

Iñárritu quer muito que seu filme seja um comentário sobre o estado das coisas, a ponto de insistir nisso, tornando tudo um tanto irritante, com atuações caricatas – que não cabem nem na proposta do filme –, diálogos horríveis e personagens sem muito sentido. Quem mais sofre com isso é Sandra Hüller, meia-irmã caçula de Digger. Sua participação é tão pífia, quase vergonhosa, que é de se pensar se no roteiro pelo qual a atriz assinou o contrato a personagem não seria maior e melhor. 

Quando vem uma reviravolta – no começo ainda –, Digger aparenta ser ainda mais cáustico, mas se torna mais e mais implausível, mesmo que se recorra a algumas licenças poéticas. É pedir demais, pois o investimento da plateia nunca é recompensado direito. O que se vê na tela é um filme pretensioso, cheio de si, tal qual seu protagonista. Tal qual em Não Olhe para Cima, Iñárritu quer nos colocar numa situação delicada. Seu maior argumento é o de que seu longa lida com o assunto mais urgente do presente e, por isso, não deveria ser criticado. Ao mesmo tempo, na posição em que se encontra, às pessoas que não gostam do filme, ele irá dizer que não entenderam (mesmo com um longuíssimo monólogo explicando tudo, até a reviravolta, com mais detalhes do que o necessário). Mas, como todo mundo sabe, não é assim que as coisas funcionam. 

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