Realizando seu primeiro longa em quase 10 anos, período em que dirigiu séries de TV como Riverdale e Gigolô Americano, Gregg Araki voltou ao cinema em grande estilo, chutando a porta já no lançamento mundial do filme, em Sundance, deste provocativo I Want Your Sex, que desde o título não esconde sua intenção.
A partir de um roteiro assinado por ele e Karley Sciortino, Araki constrói uma narrativa sobre uma dinâmica de poder um bocado doentia que se estabelece entre uma mulher madura, Erika Tracy (Olivia Wilde), e um jovem ingênuo, Elliott (o sempre ótimo Cooper Hoffman). Ela, uma artista plástica performática de sucesso, dona de uma galeria, em que o rapaz vai trabalhar como assistente. Em pouquíssimo tempo, é requisitado por ela para jogos sexuais que vão crescendo em intensidade e o transformam, cada vez mais, num escravo desta mulher perturbadora em todos os sentidos.
Araki é sofisticado o bastante para não transformar a história, sem dúvida ousada, num mero filminho pornô. Ele entrega ter intenções maiores já a partir da primeira cena, que remete a Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, quando se vê um corpo boiando na piscina de uma mansão. Não escapa à percepção do experiente diretor e roteirista, conhecido por filmes como Mistérios da Carne (2004) e Kaboom (2010), o quanto amor e morte se aproximam, Eros e Tânatos em ação.
Portanto, a história incorpora um toque noir, ao ser contada em retrospecto, em que o frágil Elliott se vê obrigado a reconstituir seu envolvimento com a manipuladora Erika, que o controlou a ponto de levá-lo a aceitar rituais fetichistas que conduziram a humilhação, abuso e degradação, sem que ele conseguisse escapar ao seu fascínio por esta musa perversa. Araki, aliás, provoca os espectadores ao testar seus limites ao que veem ao mesmo tempo que Erika desmonta os controles de Elliott - um integrante da chamada geração Z, que teria sido superprotegida pelos pais ao ponto de tornar-se reprimida sexualmente, refratária a deixar sua zona de conforto para correr qualquer risco. Não este intrépido Elliott, que está disposto a pagar qualquer preço por uma nova e estranha liberdade.
Além da talentosa dupla central, que sustenta com segurança seus papeis, destacam-se ainda Chase Sui Wonders, como Apple, a companheira de apartamento de Elliott que contribui para alguns momentos divertidos da história, assim como Mason Gooding, interpretando Zap, o colega gay de Elliott na galeria e bem mais esperto do que o amigo. A cantora Charli XCX entra na história como a namorada chata de Eliott, Minerva.
