15/06/2026

XVI Cine Ceará: Diretor argentino prega união entre cinema latino-americano

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A noite de terça do XVI Cine Ceará certamente foi a melhor do festival, contando com o longa chileno Play, de Alicia Scherson, e o argentino El Custodio, de Rodrigo Moreno. Além disso, o dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (O Auto da Compadecida) foi homenageado.

El Custódio é um longa que representa bem a fase atual do cinema argentino. Seu diretor faz parte de um grupo que começou a fazer curtas nos anos 90. Além dele, também estão no movimento nomes representativos como Lucrecia Martel (O Pântano) e Pablo Trapero (Família Rodante). É bem provável que esse longa faça de Moreno outro nome importante do novo cinema argentino. Ele, aliás, foi premiado no último festival de Berlim. Os direitos para distribuição do filme no Brasil já foram vendidos.

Com poucas palavras e um excepcional trabalho de direção, o longa mostra o dia-a-dia do trabalho de um guarda-costas, Rubén (Julio Chavéz), que cuida de um ministro e sua família. Presente no festival, o diretor contou que teve a idéia quando namorava uma moça cujo pai foi nomeado ministro. No dia seguinte, sua casa estava cheia de seguranças, que alteravam a rotina da família. “Eu queria, porém, contar sob o ponto de vista dessas pessoas que estão em segundo plano”, explica.

Tecnicamente, o longa impressiona, com planos precisos e trabalhados e uma câmera parada. No entanto, o cineasta afirma que isso não foi muito pensado. Ao contrário, segundo ele, o processo de dirigir El Custódio foi bem intuitivo. Para compor as imagens, ele contou com a colaboração da diretora de fotografia Bárbara Álvarez e do diretor de arte Gonzalo Delgado – ambos do uruguaio Whisky, o que explica facilmente o parentesco visual entre os dois filmes.

Com custo em torno de 750 mil dólares, El Custódio está em cartaz na Argentina e tem feito sucesso – principalmente por causa do ator principal, Julio Chávez, que é muito famoso no país. “Existe uma espécie de gênero de filme chamado Julio Chávez. Ele é muito famoso e segue sempre a mesma linha”, explicou.

Moreno, porém, destacou que o cinema de seu país enfrenta os mesmos problemas do Brasil. “Não há salas suficientes, estão muito tomadas por blockbusters. A Argentina produz cerca de 65 filmes por ano, mas apenas quatro fazem sucesso com o público e são bons”.

Para tentar acabar com essa hegemonia, Moreno prega mais solidariedade entre os cineastas. “O cinema latino-americano não existe como mercado ou movimento. Só ouvimos essa expressão nos festivais. Cada país consome a sua produção local e a norte-americana”, explica.

Um dos maiores entusiastas do cinema argentino e de El Custódio é o cineasta brasileiro Walter Salles (Central do Brasil), a quem Moreno agradece nos créditos finais. “Ele me ajudou muito dando dicas na montagem, fazendo sessões do filme, apontado problemas”, confessou.

Play é uma fábula de conotações sociais que se passa na cidade de Santiago, repleta de personagens solitários que estão em busca da própria identidade e de achar uma companhia. Cristina (Viviana Herrera) é uma jovem empregada que encontra uma pasta executiva jogada num latão de lixo. Ela pertence a Tristán (Andres Ulloa), que acabou de brigar com a namorada, foi expulso de casa, e agora vaga pela cidade antes de buscar a ajuda da mãe. Cristina encontra documentos e pistas que a levam até o rapaz e começa a seguir a sua vida e da ex-mulher, Irene (Aline Kupperhein).

Aos poucos, a diretora Alicia vai compondo um painel emocional de seus personagens que tem a música como instrumento de contorno. Contando um quebra-cabeças, ela mostra um olhar aguçado para detalhes e para uma estrutura de classes complexa e sutil.

Segundo o ator Ulloa, que está em Fortaleza, Play ficou dois meses em cartaz no Chile e fez certo sucesso com o público. No entanto, ele frisa que o cinema de seu país caminha em passos curtos. “O mercado para o ator nessa área é difícil. Há muito mais espaço no teatro”, explica.

O longa já estreou comercialmnete em outros países como Inglaterra e Grécia, além de ter participado de diversos festivais.”O público tem ótimas reações. Aqui em Fortaleza, o longa se comunicou bem com a platéia, as pessoas entenderam bem o humor negro – o que nem sempre acontece na Europa”.

A noite encerrou com a exibição do curta paulista Confia em Mim, de Patrícia Ermel e Kiko Costato; do carioca Pilhas, Baterias e Modernidade, de Robson Lopes; da animação brasiliense Deu no Jornal, de Yanko Del Pino; e do capixaba A Música da Minha Vida, dirigido por alunos do projeto Irmã.Doc.

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