Mojica, 77 anos, recebeu a maior parte destes prêmios pessoalmente, no palco do imenso e recém-inaugurado teatro de Paulínia, de 1.350 lugares. Mas só ao ir buscar o último e principal, justamente, o de melhor filme, é que envergou o figurino de seu sinistro personagem, capa e cartola pretas. Como fizera na exibição de seu filme, na última quarta (8), tranqüilizou: “Hoje não é dia de praga”. Finalizando os agradecimentos, desejou que todos os presentes chegassem sãos e salvos em casa. Foi ovacionado.
Estreante na direção com o drama Feliz Natal, o ator Selton Mello saiu feliz com seu troféu de melhor diretor. “Estou vivendo um novo nascimento”, declarou, com a voz quase sumida, de tão embargada. O filme venceu ainda dois outros prêmios, um Especial do Júri para o ator infantil Fabrício Reis e um prêmio de atriz coadjuvante dividido entre Graziella Moretto e Darlene Glória. Esta última, uma premiação que causou estranheza, já que Darlene Glória é a protagonista feminina de Feliz Natal.
O júri, porém, preferiu como melhor atuação feminina a de Cláudia Abreu, no drama musical Os Desafinados, de Walter Lima Jr., vencedor de outro Prêmio Especial do Júri O filme arrebatou também o troféu de melhor ator coadjuvante para Ângelo Paes Leme, ator de TV estreando em cinema, como um dos músicos que sonham com carreira internacional no início da Bossa Nova, em Nova York.
Pequenas Histórias, de Helvécio Ratton, ficou com os prêmios de melhor roteiro e melhor ator para Paulo José. Onde Andará Dulce Veiga, de Guilherme de Almeida Prado, venceu apenas um único troféu, melhor figurino para Fábio Namatame.
Esclarecendo Wilson Simonal
O documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, da trinca de diretores Cláudio Manoel (um dos Cassetas), Calvito Leal e Michael Langer, por sua vez, uniu público e júri, vencendo como melhor filme nesta categoria tanto pela votação dos jurados quanto na popular. Lançado no É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em março, o filme já vencera ali uma menção honrosa.
Dois outros documentários dividiram o Prêmio Especial do Júri, Iluminados, de Cristina Leal, e Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais, de Carlos Alberto Prates Corrêa. Ainda inédito no circuito comercial, o filme de Prates Corrêa foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2007.
Pela votação popular, o melhor filme de ficção foi Alucinados, de Roberto Santucci, que relata o dramático encontro entre uma psiquiatra (Monica Martelli) e dois jovens marginais (Cláudio Gabriel e Silvio Guindane). Entre os curtas regionais, o público preferiu A Vaca, de Marcelo Reginaldo de Menezes – que venceu também outros três troféus, inclusive de melhor curta regional, pelo júri. Entre os curtas nacionais, o público elegeu Dossiê Rê Bordosa, de César Cabral. Com um enredo em torno do desaparecimento da personagem do cartunista Angeli, Dossiê... também foi considerado o melhor curta nacional pelo júri e pela crítica.
Marco de novidades
Paulínia, cidade de 70.000 habitantes do interior paulista, encerrou, assim, com saldo bem positivo seu primeiro festival, marcado por algumas bem-vindas novidades, como a premiação, com R$ 15.000,00 reais cada um, para três roteiros inéditos. São eles: Colegas, de Marcelo Galvão, Corpo Presente, de Marcelo Toledo, Daniel Chaia e Paulo Gregori, e Idéia Fixa, de Rui Veridiano.
A novidade maior, porém, que é o estabelecimento de um pólo produtor de cinema na cidade paulista, que foi celebrada e não só – todos os júris deste primeiro festival, além da crítica especializada que o cobriu, redigiram manifestos pela continuidade do pólo, que nasceu com ambição e verbas generosas. Ninguém pode ser contra isso. Observadas apenas a transparência e lisura de todos os procedimentos, o cinema brasileiro só tem a ganhar com isto.
A grande festa do cinema de Paulínia, com seu imenso tapete vermelho diante do teatro, teve lá seus momentos provincianos, até pela preocupação de trazer atores globais para garantir o interesse do público e de uma certa mídia. O momento mais constrangedor, porém, não foi culpa dos organizadores. Deveu-se ao visível despreparo dos apresentadores da noite de encerramento, no sábado (12), os atores Cláudia Raia e Miguel Falabella, para enunciar corretamente os nomes dos premiados.
Mais preocupada em arrumar a toda hora o justo e decotado smoking feminino que envergou na noite de gala, a atriz não se mostrou preparada para a leitura dos nomes, como seria de praxe. Confiando apenas no teleprompter, cometeu gafes imperdoáveis, como chamar o presidente do júri de longas, Leon Cakoff, de “Leon K”, a jurada e cineasta paulista Tata Amaral de “o Tata Amaral”, além de não acertar nenhuma das tentativas de pronunciar corretamente o nome de outro jurado, o cineasta Roberto Gervitz. Quando teve uma oportunidade ao microfone, visivelmente impaciente, Gervitz aproveitou para tentar ensinar-lhes a pronúncia correta de seu sobrenome. Em vão, porque logo depois Cláudia e Falabella erraram de novo.
Demonstrando total desatenção ao seu papel, os dois apresentadores quase retiraram antes da hora do palco a jornalista Maria do Rosário Caetano, que subira para anunciar os premiados da crítica. O incidente aconteceu porque, enquanto Rosário lia um manifesto pela continuidade do pólo de Paulínia, os dois atores conversavam animadamente no fundo, sem ouvir que ela dissera que anunciaria as premiações logo depois. Foi preciso a intervenção do ator José de Abreu, presidente do júri de curtas, para permitir que Rosário terminasse de cumprir sua missão.
