13/06/2026

Paulínia exibe novo filme de Roberto Moreira e documentário sobre Mamonas Assassinas

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O final de semana do II Festival Paulínia de Cinema registrou a passagem de filmes de diferentes voltagens, que apontaram dilemas e acertos do atual cinema brasileiro. Entre os documentários, foi ponto alto na empatia com o público Mamonas, o Doc, de Cláudio Kahns, que recupera a trajetória fulminante do grupo Mamonas Assassinas. Das ficções, o mais bem-realizado até aqui foi Quanto Dura o Amor, de Roberto Moreira. Mas ainda não se viu neste festival uma grande novidade ou revelação.

Quanto Dura o Amor? reitera a pegada urbana de Moreira (Contra Todos) mas migra para uma classe média ligeiramente mais abonada ao retratar moradores de um imenso prédio na esquina da avenida Paulista com a Consolação. Ali moram a advogada Suzana (Maria Clara Spinelli), que se apaixona por um colega que não sabe de sua condição de transsexual, Gil (Gustavo Machado); a aspirante a atriz Marina (Sílvia Lourenço, na foto), seduzida por uma cantora (Danni Carlos); um poeta frustrado(Fábio Herford) apaixonado por uma garota de programa (Leilah Moreno).

Os desencontros amorosos são embalados por uma câmera que namora paisagens desta parte de São Paulo, cheia de prédios, luzes e sons. Há pontos de contato com O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli, e a mesma inquietação de captar uma solidão residual nestes seres que contracenam no tecido desta cidade enorme e de vertiginosa energia.

Embora bem-feito, Quanto Dura o Amor? padece do mesmo mal que contamina À Deriva, o filme de Heitor Dhalia que abriu este festival. Estes dois bons realizadores desta geração inegavelmente procuram uma linguagem e dramaturgia cinematográfica eficientes – mas em nenhum dos dois casos se chegou lá. Seus filmes são dois momentos de uma transição no cinema brasileiro, que se espera possa em breve amadurecer uma dramaturgia cinematográfica que alcance aquela verdade humana pulsante e profunda que se revela na tela quando, de algum modo, sua excelência é atingida.

Mamonas forever
Resultado da pesquisa que procura embasar um projeto de filme de ficção – ainda em curso - sobre os roqueiros de Guarulhos (SP), Mamonas, o Doc usa bem um rico material de arquivo que reconstitui sua incrível ascensão - que durou um disco, muitos shows e aparições na TV em menos de um ano, terminando com a queda do avião que matou todos os seus integrantes, em março de 1996.

Filmes caseiros e de má qualidade técnica, aliados a depoimentos atuais de familiares dos músicos e de seu descobridor, Rick Bonadio, e empresário, Samy Elia, dão conta do retrato dos roqueiros, que começaram com músicas de tom sério, na banda Utopia, até se deslocarem para o humor escrachado e politicamente incorreto de seu novo grupo, rebatizado Mamonas Assassinas, que virou a sua marca e marcou uma explosão poucas vezes tão vertiginosa no cenário musical brasileiro.

O documentário não se furta a evidenciar também o caráter catártico deste sucesso, que marcava a ascensão social de cinco rapazes de classe média baixa de uma cidade periférica. Num show no estádio Paschoal Thomeu, o Thomeuzão, em Guarulhos, vê-se particularmente como a banda encarnava uma espécie de revanche dos anônimos e oprimidos, numa fala candente do vocalista Dinho - que convocava toda a plateia a não abdicar de seus sonhos, como os Mamonas, a princípio esnobados, haviam feito. Um chamado quase político ao inconformismo, ainda que individual.

Novelão sinobrasileiro
O pior de tudo sintetizou-se no melodramão Destino, de Moacyr Góes, em que a atriz-produtora Lucélia Santos e o produtor Diler Trindade perpetraram uma das piores produções do cinema nacional de todos os tempos – em termos de roteiro, atuações e uso escandaloso de merchandising. Neste último item, aliás, viu-se na tela uma inacreditável sequência comercial dentro do filme, enfileirando marcas e produtos de forma explícita e massiva, de um tremendo mau gosto. O público presente à sessão, na noite de sábado (11), em vários momentos riu, mesmo em momentos supostamente dramáticos.

Todos os defeitos, inclusive a trama rocambolesca - em que Lucélia interpreta uma jornalista envolvida com um sinobrasileiro, um filho monge budista e um fantasma - foram assinalados no debate do filme, no domingo (12) e até assumidos por Lucélia. Sintomaticamente, o diretor não veio a Paulínia, alegadamente por problemas familiares.

Lembrando-se que a produção levou cerca de 13 anos para ser concluída, segundo a atriz-produtora, e teve orçamento de cerca de R$ 12 milhões, estes defeitos tornaram-se não só difíceis de entender como francamente imperdoáveis.

Felizmente, o público fora do festival de Paulínia dificilmente verá esta versão de Destino que, segundo os produtores, teria sido a terceira – o filme teve, aliás, vários montadores, o que não contribui para melhor ritmo ou clareza. O plano dos produtores é lançar o filme na China e, no Brasil, vendê-lo em forma de minissérie, provavelmente para a TV.

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