21/07/2026

Longa cubano no Cine Ceará mostra um país marginal

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Uma Cuba moderna, frenética, marcada por divisões e decadência, ao lado de uma estranha e resistente beleza. Esta foi a moldura que surgiu de Os Deuses Quebrados (Los Dioses Rotos), filme de Ernesto Daranas, atração principal da segunda noite competitiva do Cine Ceará.

Daranas é de uma nova geração de cineastas cubanos, sucedendo veteranos como Tomás Gutierrez Alea (falecido) e Juan Carlos Tabío – que assinaram juntos filmes como Guantanamera (95) e Morango e Chocolate (94). Assim, o novo diretor sintoniza em novas tecnologias – o filme foi rodado em digital – e acelera na montagem e efeitos visuais que remetem ao videoclipe mas já estão mais do que disseminados no cinema moderno.

Coloca-se o dedo na ferida ao eleger como foco da história a prostituição em Cuba – um tema polêmico desde antes da revolução socialista de 1959. O enredo parte da pesquisa de uma professora universitária, Laura (Silvia Aguila), que investiga a mitologia em torno de um cafetão, misto de bandido e heroi popular, Alberto Yarini y Ponce de Leon. Personagem real, Yarini é até hoje uma lenda nos arredores do bairro de San Isidro, onde foi assassinado por rivais a tiros, no começo do século XX.

Aí nessas ruas estreitas e casas quase caindo da Habana Vieja, hoje, como ontem, persiste a exploração das mulheres, o crime, a degradação humana que sobrevive aos regimes políticos – como constata a professora, envolvida por cafetões modernos, como Rosendo (Hector Noas), o sedutor Alberto (Carlos Ever Fonseca) e entrando na mira da impulsiva Sandra (Annia Bu Maure), amante dos dois.

São todos personagens extremos, de um mundo idem, e com quem o espectador brasileiro terá provavelmente dificuldade de identificar-se. Muitas vezes, ao longo do filme, eles realmente parecem mais protótipos do que seres humanos de verdade. O diretor preocupou-se em lotar seu pacote de temas e deixou escapar algo na consistência dramatúrgica.

Diálogo com Havana
Esse clima barroco e exacerbado não impediu o povo cubano de identificar-se com o filme, bem ao contrário. Segundo informou uma dirigente do ICAIC (o instituto estatal do cinema cubano), Susana Molina, Os Deuses Quebrados foi visto por cerca de 280.000 pessoas nas salas – feito respeitável numa ilha de população inferior a 10 milhões de habitantes e onde, aliás, o ingresso de cinema é bastante barato (corresponde a uma média de 60 centavos de peso cubano). Antes disso, o filme havia vencido o Prêmio de Público no Festival de Havana. Os críticos do país igualmente acolheram a obra, considerada o melhor filme cubano de 2008.

A explicação para essa unanimidade talvez esteja no comentário feito pelo próprio diretor, que está em Fortaleza: “Interessava-me superar uma visão sociológica ou filosófica do meu tema, pois isso me parece que prejudica chegar à essência humana que era meu foco. Também quis discutir o quanto as coisas realmente mudaram em Cuba”.

O diálogo entre os personagens e a cidade de Havana é, para o diretor, outro ponto-chave. “Havana tem zonas de uma incrível deterioração arquitetônica, o que se reflete nas pessoas. O que é triste é que a cidade continua sendo bela, não sei se como Pompéia ou Herculano”, afirmou, comparando a capital cubana às cidades italianas destruídas há séculos por erupções do vulcão Vesúvio e da qual só restaram ruínas.

Curtas sombrios
A noite foi de curtas de clima sombrio, ambos inspirados em obras do poeta alemão Goethe. Exibido no último Cine PE, o concorrente Silêncio e Sombras, de Murilo Hauser (PR) é uma animação em P&B bastante bem-realizada. Com atmosfera onírica, que remete ao estilo de Tim Burton, tem como personagem central um menino que é levado por um cavaleiro sem rosto ao longo de uma floresta coberta de neve.

O outro curta, o cearense Passos no Silêncio, de Guto Parente – que foi exibido em Tiradentes -, cria igualmente uma atmosfera inquietante. Também em P&B, segue uma jovem que leciona alemão e mergulha numa crise pessoal e emocional. Não é um filme de fácil decifração e isto não só por mostrar cenas faladas em alemão, sem legendas.

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