Por sua criatividade visual, que usa imagens de arquivo bem raras e inova ao aparentemente desviar-se de seu tema central para expor aspectos da identidade sertaneja e, por tabela, brasileira, O Homem... ultrapassa muito essa própria classificação, como documentário musical, tornando-se cinema sem adjetivos, sem limitações de gênero ou categoria. No debate do filme, Lírio destacou que é essa mesma sua postura hoje: “Adoro fazer documentário como ficção e ficção como documentário. Antes eu era careta e achava que havia barreiras entre as duas coisas”.
As imagens de arquivo, belíssimas e restauradas, foram, aliás, um complicador na logística, inclusive financeira do filme. Seu orçamento, aprovado há oito anos, permitia a captação de R$ 3 milhões, mas só chegou aos R$ 2 milhões, segundo Denise Dummont, filha de Teixeira e produtora do documentário. Para o uso dessas imagens, ela admite que recorreu até a recursos próprios: “Acabo de vender meu apartamento no Rio”.
Outra fonte de despesas, os direitos autorais de diversas músicas, foram em parte resolvidos com arranjos pessoais. Detentora dos direitos das composições de Teixeira, Denise abriu mão de seus ganhos, mesma atitude de Rosinha Gonzaga, filha de Luiz Gonzaga, intérprete e parceiro do compositor em tantas composições, como a clássica Asa Branca. Nem sempre isso se repetiu. Como conta Denise, Gal Costa abriu mão de uma interpretação sua – belíssima – no filme, mas a editora detentora dos direitos da música exigiu pagamento, no caso, R$ 5.000,00. Não foi o único caso.
Dinastias da MPB
De muitas maneiras, O Homem... é um mergulho no Brasil e na obra de seus artistas, incorporando ainda uma história intimista e doída, da relação difícil entre Teixeira e sua única filha, a atriz Denise Dummont.
Denise tem coragem de se expor em primeira pessoa, sozinha e junto com sua mãe (hoje falecida), a atriz Margot Bittencourt, não recuando em revelar um lado menos edificante do pai, um tanto machista, conservador e emocionalmente distante. O melhor é que a honestidade na exposição deste aspecto, que inegavelmente remete o filme a um patamar superior, é conduzida com delicadeza, sem nenhuma pieguice ou exagero. Uma verdadeira aula de transparência e dignidade, em tempos de reality shows e autoexposição de toda ordem.
A riqueza de visões e enfoques é tão rica que se estende uma ponte de Euclides da Cunha a Humberto Teixeira, passando por Monteiro Lobato, para refletir mesmo sobre a multiplicidade da identidade brasileira, sobre as “dinastias musicais” do baião e do samba – como as define de modo muito feliz o compositor Gilberto Gil. O Homem... é, por isso tudo, não só o resgate de um grande artista não suficientemente conhecido e creditado, como um olhar dinâmico e vivo sobre o Brasil do passado ao presente.
Competente como é, o filme de Lírio – que havia sido exibido hors concours nos festivais do Rio, em 2008, e Recife, em 2009, chega como um bálsamo neste festival. Muito acima dos demais concorrentes até agora exibidos, num ano em que a seleção de latinos mostrou-se fraca, ele parece ter condições de carregar os principais prêmios.
Espera-se ainda, nesta última noite competitiva, segunda (3), a passagem do documentário O Pequeno Burguês – Filosofia de Vida, perfil do sambista Martinho da Vila assinado por Edu Mansur, e a ficção À Deriva, de Heitor Dhalia, que já estreou em outros estados, mas não no Ceará.
