04/06/2026

Cinema de autor marca presença em Gramado

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O cinema de autor marcou o segundo dia da competição oficial no 37º. Festival de Gramado, iniciado no domingo (9), com a exibição do primeiro concorrente latino, La Próxima Estación, documentário do veterano diretor argentino Fernando Solanas (Memórias del Saqueo) sobre o desmonte ferroviário em seu país, e o brasileiro Canção de Baal, ficção livre e inspirada da atriz Helena Ignez, revisitando as figuras do dramaturgo Bertold Brecht, do físico Albert Einstein investindo numa irreverência criativa que remete à antropofagia modernista e a Glauber Rocha.

Tango trágico
Solanas, que atualmente é deputado federal, investe pesado contra o sucateamento das ferrovias argentinas – que, em seus tempos áureos, chegaram a cobrir 50 mil quilômetros daquele país.

Mais uma vez, o diretor mostra-se veeemente e pessoal, num estilo que tem seus excessos mas que, de todo modo, traz à luz com pesquisa bem minuciosa um processo de desmonte que evidencia, da mesma forma, o tango trágico da história argentina dos últimos 70 anos. Uma história cortada por vários golpes militares, governos a serviço não da própria nação, mas de interesses excusos – incluindo o atual, de Cristina Kirchner -, o que determina um processo de pauperização de um país que foi muito próspero, com níveis de renda e educação semelhantes aos europeus, no começo do século XX.

No debate desta manhã de terça (11), o jornalista Marcus Mello, da revista Teorema, arrrisca uma comparação entre Solanas e Michael Moore, gentilmente descartada pelo diretor de produção do filme, Daniel Samyn (Solanas não pôde vir). “Pino tenta sempre escapar da linguagem televisiva, busca uma câmera que tenha escritura e se movimente mais. Ele busca o novo”, salienta Samyn, chamando Solanas por seu apelido, “Pino”.

Ele conta que houve, no início do projeto, a ideia de filmar-se a destruição das ferrovias em todo o continente latino-americano, incluindo-se o Brasil – o que faria sentido, já que duas empresas brasileiras, a ALL e a Camargo Corrêa, são citadas no documentário como agentes no desmonte das ferrovias argentinas que se seguiu à sua privatização. Mas as limitações de tempo e de orçamento frustraram essa intenção e o filme limitou-se à Argentina, ouvindo diversos trabalhadores, dirigentes sindicais, pasageiros e autoridades - que não conseguem explicar muitas coisas, como a venda ilegal de vagões e material ferroviário, misteriosamente desviados de leilões.

Saudades de Oswald e de Glauber
Já exibido no Festival do Rio em 2008, Canção de Baal traz logo na introdução a preciosa imagem do depoimento de Bertold Brecht à Comissão de Atividades Antiamericanas, liderada pelo senador Joseph McCarthy, em que ele tem de defender-se, simplesmente, de ser um poeta. Uma sequência que a diretora conseguiu graças ao cineasta Joel Pizzini, seu genro, e que deu a justa medida da identidade deste filme libertário – no melhor estilo tanto da antropofagia de Oswald de Andrade quanto das melhores obras de Glauber Rocha, ex-marido de Helena, com quem ela se iniciou no cinema, aos 17 anos, na filmagem do curta dele, O Pátio.

No debate do filme, a diretora lembrou que ela e Glauber foram formados sob a influência de Brecht. “Foi ele quem nos levou a brincar com arte e a desrespeitar cânones”.

A introdução do físico Albert Einstein no enredo do filme, que parte de uma livre releitura de Baal, de Brecht, foi uma idéia da diretora. Como ela mesmo admite, acha Baal, o personagem vivido por Carlos Careqa no filme, “insuportável”.

Helena conta que não se identifica com o personagem, um cantor e compositor criativo mas bêbado e machista. “Ele é muito desagradável, é o excesso, é o machismo. Por isso coloquei Einstein, porque precisava de um contraponto de entendimento e sensibilidade”. A atriz e diretora lembra que “o machismo ainda é um orgulho para muita gente. Eu quis mostrar isso no filme com graça, como uma chanchada”.

Filmado nas imediações de Serrinha (RJ), A Canção de Baal beneficia-se intensamente da liberdade e da consistência da experiência artística de Helena, a inesquecível protagonista de A Mulher de Todos.

No elenco, está sua filha, Djin Sganzerla, que, como lembrou um participante no debate, continua a dinastia artística formada por Helena, que foi por 35 anos mulher de Rogério Sganzerla (depois de ter sido casada com Glauber). Todas estas presenças, como a liberdade e irreverência do Cinema Novo e da chanchada, estão presentes no filme de Helena – cujo protagonista maldito, Baal, poeta desagradável e criativo, simboliza talvez da maneira mais cristalina o cinema brasileiro neste momento em que ele é malvisto por tanta gente, por insistir em manter essa sua dualidade em seu duplo poder, de encantar e de horrorizar, que é o cerne de toda arte digna desse nome.

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