27/07/2026

Ruy Guerra defende Heitor Dhalia em Gramado

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Com a apresentação do uruguaio Gigante, de Adrián Biniez, e do muito esperado brasileiro Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo, encerrou-se a competição em Gramado, na sexta (14). E o cinema de qualidade voltou ao primeiro plano com a entrega do Kikito de Cristal, de carreira, ao diretor Ruy Guerra – este sim merecedor de homenagens a qualquer tempo.

Defesa de Dhalia
Na coletiva que deu à tarde, antes da homenagem, Ruy Guerra defendeu o colega Heitor Dhalia, que vem recebendo críticas ferozes, até de plágio, em relação ao seu filme recente, À Deriva. “Tenho medo de que funcione um processo de castração, quando o cineasta começa a fazer seu filme de um outro modo, para não deixar de fazer. Ou que se comece a não dar espaço a esses jovens. Ninguém te dá mais tarde aquele filme que você não fez no passado”, declarou. Aí, viu-se que o diretor de Os Fuzis, A Queda, Estorvo, falava também dele mesmo e de sua dificuldade atual de realizar novos trabalhos.

Na premiação, à noite, o loquaz diretor moçambicano-brasileiro foi mais poético, tomando emprestado do amigo Gabriel García Márquez, de quem filmou quatro histórias, a resposta que este deu a uma pessoa insistente que lhe perguntava porque exercia sua profissão: “Para que me amem, porque é um doloroso ofício”. E emendou: “Neste dia eu me sinto amado”, completou o diretor que, à tarde, fizera críticas a outras edições do festival onde se sentira maltratado. Agora, isto é passado.

Ímpeto uruguaio
Vindo de premiações em Berlim, Gigante é um digno exemplar desse cinema despojado, de economia narrativa, que investe numa dramaturgia sutil. Poucos diálogos e imagens cuidadosamente decupadas dão conta de uma história de amor truncada, envolvendo um segurança de supermercado (o excelente Horacio Camandule). Há muitos outros tons e subtextos, neste filme que exige um engajamento do público para revelar-se mas nunca é cifrado. É a riqueza da simplicidade de um cinema que produz muito poucos filmes por ano, como o uruguaio, mas é capaz de pequenas jóias como esta (e, no passado, o primoroso Whisky).

Epopeia na tela
Iniciado há quatro anos, Corpos Celestes é um projeto que custou a ser concluído, por dificuldades de conciliar um baixo orçamento ao nível de qualidade exigido pelos diretores para incluir, por exemplo, efeitos visuais compatíveis com sua ideia. Nesse meio tempo, Marcos Jorge realizou Estômago, que se tornou um filme famoso, mas nada tem a ver, a rigor, com esta história, que conjuga intimismo, melodrama, fantasia e outros fatores.

A história tem como protagonista um astrônomo (Dalton Vigh) e seu distanciamento afetivo – só rompido pela figura anárquica de uma divertida garota de programa (Carolina Holanda). Essa oposição entre o controle da ciência e o rigor da mecânica celeste e a imponderabilidade dos sentimentos e dos acasos que determinam a própria vida está na alma do enredo – que caminha com as próprias pernas e, apesar de algumas incertezas aqui e ali, se sustenta num filme íntegro e original. Corpos Celestes não é nada comum na cinematografia brasileira recente. Aqui se procura algum caminho.

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