04/06/2026

Filme sobre Lula tem sessão superlotada em Brasília

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Brasília- Foi longa, tumultuada no início, mas terminou entre lágrimas e aplausos a primeira sessão pública do filme Lula – O Filho do Brasil, de Fábio Barreto, que abriu nesta noite de terça o 42º. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

O presidente Lula, cuja presença chegou a ser anunciada nos últimos dias, não veio. Em seu lugar, esteve a primeira-dama, Marisa Letícia da Silva, alguns ministros, como o de Esportes, Orlando Silva, o governador de Brasília, José Roberto Arruda, o vice, Paulo Octavio, e o secretário da Cultura , Silvestre Gorgulho, que faziam as honras de mestres de cerimônia. Com aparato de segurança discreto, a primeira-dama evitava, porém, os jornalistas que tentavam entrevistá-la, que eram gentil mas firmemente afastados por uma assessora.

Com tantas autoridades presentes, a sessão ganhou ainda uma nota política adicional, quando um pequeno grupo de estudantes invadiu o palco, ostentando uma faixa onde se lia: “Lula, liberte Cesare”, referindo-se ao ex-brigadista italiano Cesare Battisti, cuja extradição está sendo julgada pelo Supremo Tribunal Federal.

Nenhuma violência foi usada contra os portadores da faixa, que só deixaram o palco quando os dois locutores do festival já se encontravam também ali, tentando dar início à noite inaugural do festival. E o evento começou com 40 minutos de atraso, com a apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Cláudio Santoro, com os primeiros acordes de Asa Branca, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, ainda misturados aos gritos dos defensores de Battisti.

Barretos vaiados- Na entrada do teatro, o principal problema era a superlotação. Apenas dois seguranças na porta não conseguiam impedir aglomeração e empurra-empurras no ingresso à sala – contrariando a rotina das noites de abertura deste festival, o mais antigo do Brasil, que costumam acontecer com convidados fazendo filas.

Os lugares demarcados para a imprensa e convidados, numa área protegida por uma faixa, rapidamente se esgotaram. Quando chegaram os atores do filme, como Glória Pires (que interpreta dona Lindu, mãe de Lula) e Juliana Baroni (que interpreta dona Marisa), não havia poltronas para eles. Isso provocou reação agressiva do diretor do filme, Fábio Barreto, que, quando se dirigiu ao palco para dar início à apresentação, serviu-se do microfone para reclamar: “A organização do festival não guardou lugar para os meus atores, eles não têm onde sentar”. Em seguida, pediu que “pelo menos uma fileira” se levantasse entre os espectadores, para ceder lugar ao elenco – uma sugestão que provocou vaias de uma parte dos presentes. As mesmas vaias, aliás, que seu pai, o veterano produtor Luiz Carlos Barreto, recebera pouco antes, por outra reclamação pública, esta de segurança.

Preocupado com o excesso de pessoas nos corredores e galerias da sala, vários deles em pé, o produtor havia pedido a parte delas que saíssem, prometendo-lhes uma “sessão extra” em seguida. Diante da recusa e dos apupos, ‘Barretão’, como é conhecido, ameaçou: “Isto aqui está um perigo de vida. Se acontecer alguma coisa, a responsabilidade não será nossa”.

Felizmente, fora o atropelo inicial na entrada, nenhum incidente mais grave aconteceu. Os atores foram acomodados numa fileira, cedida por convidados e funcionários da secretaria da Cultura do DF – o próprio secretário Gorgulho, aliás, guiou pessoalmente o elenco até o local. A sessão transcorreu normalmente, com risadas e muitos aplausos no final.

Foco familiar - Baseado em livro de Denise Paraná, que co-assina o roteiro com Fernando Bonassi e Daniel Tendler, o filme percorre a trajetória de Lula desde a infância, saindo de Caetés em pau-de-arara em 1952, com a mãe e irmãos, rumo a Santos (SP). Lá, reencontram-se com o pai, Aristides (Milhem Cortaz, de Tropa de Elite), alcoólatra e violento, que anos depois é abandonado por dona Lindu. Logo depois, ela e os filhos rumam para São Paulo, depois São Bernardo do Campo, onde Lula (na fase adulta, interpretado pelo estreante em cinema Rui Ricardo Dias) tornou-se operário e sindicalista, antes de entrar para a política.

É visível que o foco da história está no indivíduo Lula, procurando-se uma abordagem emotiva, que coloca em primeiro plano suas relações familiares com três mulheres – além da figura forte da mãe, sua primeira mulher, Lourdes (Cléo Pires), que morreu grávida de oito meses, e a segunda, Marisa Letícia (Juliana Baroni).

Quando retrata o sindicalismo, a opção é colocar Lula como um líder hesitante – que a princípio não quer saber de política – mas em formação, que emerge de um ambiente dominado por alguns ‘pelegos’, como Feitosa (Marcos Cesana). Em nenhum momento, o filme cita a formação do Partido dos Trabalhadores, que evoluiu das greves de metalúrgicos lideradas por Lula no ABC paulista, no final dos anos 70.

Ao retratar essas greves, eventualmente se recorre a imagens documentais – sempre tendo o cuidado de evitar mostrar o rosto do Lula real. Uma atitude que só é abandonada no final, quando se menciona a eleição presidencial de 2002, a primeira vencida por ele, e Lula é mostrado ao lado de dona Marisa no seu primeiro desfile, em carro aberto, por Brasília.

Com orçamento estimado em R$ 17 milhões, que, segundo os produtores, foram bancados por diversos patrocinadores privados – sem recurso a leis de incentivo, como o filme ostenta em seus letreiros iniciais, antes de exibir um a um os nomes e logotipos de todos os seus apoiadores -, o filme tem visivelmente uma produção técnica de primeira linha. Entre seus profissionais, estão nomes consagrados como o compositor Antonio Pinto (autor da trilha de Central do Brasil, de Walter Salles) e Clóvis Bueno (de Terra Vermelha, Os Desafinados) na direção de arte.

Quatro outras pré-estreias do filme estão previstas nas próximas semanas. A primeira será amanhã (19), em Recife. As próximas são em São Bernardo (27-11), Paraíba (7-12) e Rio de Janeiro (8-12). A estreia comercial só ocorrerá em janeiro de 2010.

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