O comprometimento do exército brasileiro, que tomara o governo de assalto em 1964, com a eliminação, inclusive física, dos opositores do regime, é o foco principal do filme, que usa como fio condutor a morte do operário Manoel Fiel Filho em janeiro de 1976 – uma morte sob tortura, ocorrida poucos meses após outro assassinato em circunstâncias semelhantes, do jornalista Vladimir Herzog. Ambos episódios que escancararam as entranhas do setor mais duro entre os militares, liderado pelo general Sílvio Frota, e que levariam o então presidente Ernesto Geisel a dar início a um lento e gradual processo de abertura política - menos por convicções democráticas do que por um apego irrestrito à disciplina e hierarquia militares, que tinham sido desafiadas por Frota.
O documentário de Oliveira, experiente e premiado jornalista de Brasília, reitera não só estes fatos muito conhecidos – embora, sem dúvida, bastante esquecidos na mesma medida -, adotando um tom bastante didático, num formato televisivo, aspectos que muitas vezes pesam contra o filme. Entram nessa categoria as entrevistas quase todas num formato “cabeças falantes”, com enquadramentos fechados nos rostos de entrevistados contra um fundo preto. Como o conteúdo de várias entrevistas é inquestionavelmente valioso, o aspecto mais frágil do filme é mesmo a reencenação da prisão e tortura de Fiel Filho, feita num tom novelesco, emotivamente carregado, com uso estridente de música.
Ex-agente
Se não é a primeira vez que se menciona num filme o uso cotidiano da tortura e de execuções de prisioneiros políticos na ditadura, é certamente raro ouvir relatos destas operações da boca de um ex-agente do DOI-CODI,o temido órgão encarregado da repressão da época. É o que faz o ex-agente Marival Chaves, num longo depoimento que pontua o filme.
Com precisão e calma impressionantes, Chaves detalha sua participação no órgão como analista – uma espécie de pesquisador das organizações de esquerda que militavam contra o regime, inclusive na luta armada. Também descreve operações de captura, tortura e morte das quais tomou conhecimento – já que ele mesmo não operaria nessa área – e algumas que testemunhou. Entre elas, o “tiro ao alvo” praticado por colegas seus na execução da militante Sônia Angel e seu companheiro, Bicalho Lana. Ele também levanta a possibilidade de que o deputado Rubens Paiva, um dos desaparecidos da ditadura, poderia ter sido esquartejado por seus captores.
Chaves revela – segundo ele, pela primeira vez aqui - que o atual secretário de Comunicação Social da presidência da República, Franklin Martins, que era então militante do MR-8, teria escapado de morrer por injeção de veneno, que acabou destinada a outros dois militantes. Martins, segundo o ex-agente, estava sendo seguido,mas teria percebido a tempo, escapando do cerco. Chaves afirma que essas operações de captura sem qualquer rito jurídico seriam lideradas pelo tenente-coronel Freddie Perdigão Pereira e pelo coronel Ênio Pimentel da Silveira (que era conhecido pelo codinome de “dr. Ney”). Silveira teria se suicidado em 1986. Chaves, por sua vez, deixou voluntariamente o serviço em 1985, quando José Sarney assumiu a presidência.
Por seu conteúdo, Perdão, Mr. Fiel remete a Condor, de Roberto Mader, uma vez que explicita a atuação de autoridades norte-americanas, como o então embaixador dos EUA Lincoln Gordon, no deflagramento de golpes militares na América Latina e posterior treinamento de militares locais que se tornariam torturadores da oposição esquerdista – já que os EUA, na época, se dedicavam a extirpar o “perigo comunista”. O primeiro país a ter militares treinados nesta linha teria sido o Brasil, de onde partiriam “professores”de tortura para nações vizinhas, como o Uruguai – como se vê numa cena de Estado de Sítio, de Costa-Gavras, mostrada neste documentário. Neste sentido, são entrevistados dois brasilianistas, James Green e Jordan Yang.
Ouvindo entrevistados como o ex-ministro da educação Jarbas Passarinho, o atual presidente do Senado José Sarney e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – os três merecedores de vaias durante a sessão na noite de quinta (19) -, além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador chileno Juan Pablo Letelier (filho de Orlando Letelier, o chanceler do governo Salvador Allende morto num atentado, em 1976), os ex-presos políticos Álvaro Caldas e Umberto Trigueiros, além da viúva e das filhas de Fiel Filho, o filme inegavelmente tem seu valor histórico e pedagógico. Nunca será demais, talvez, falar sobre esse capítulo sombrio da história brasileira. É de se lamentar, apenas, que nem sempre Jorge Oliveira tenha optado por caminhos mais sóbrios, acreditando na verdade mesma dos fatos que revela. Por si sós, estarrecedores.
