04/06/2026

Brasília fecha apostas, que devem consagrar Gloria Pires e “É Proibido Fumar”

post-img
Exibido o último longa concorrente, o documentário A Falta que me Faz, de Marília Rocha (MG), o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro fechou ontem sua seção competitiva. Os troféus serão entregues hoje à noite, no Cine Brasília.

As maiores apostas de premiação, de elenco e outras mais, parecem ir no rumo da comédia de humor negro É Proibido Fumar, da diretora Anna Muylaert (de Durval Discos). Uma das duas únicas ficções entre os seis concorrentes (a outra é O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes), o concorrente paulista é o favorito nas categorias filme, direção, roteiro e atriz (Gloria Pires). Sem contar o troféu do júri popular, cuja votação também dá prêmios em dinheiro. No total, as premiações deste festival somam R$ 470.000,00.

Musa do ano
Atriz que começou sua carreira ainda criança, extremamente conhecida por seu trabalho na televisão e, no cinema, por estrelar filmes de grandes bilheterias, como as duas edições de Se Eu Fosse Você e A Partilha, Gloria Pires tornou-se a musa deste ano. Primeiro, por desembarcar em Brasília a bordo da discutida cinebiografia do presidente da República, Lula – O Filho do Brasil, de Fábio Barreto, no papel de sua mãe, dona Lindu. Um filme que teve sua première mundial aqui, fora de competição, no dia 17, e, por toda a expectativa e polêmica que o cercam, devolveu a este festival uma repercussão política que nos últimos anos ele parecia ter perdido. Criado em 1965, o Festival de Brasília é o mais antigo do Brasil.

Num registro muito diferente de Lula – O Filho do Brasil, Gloria mostrou sua versatilidade como a solitária e instável Baby, a protagonista de É Tudo Fumar, que num determinado momento da história comete um erro de consequências trágicas. Um papel que pode dar um prêmio inédito à atriz – que nunca antes concorreu aqui em Brasília.

Toda essa inegável vantagem de Gloria não deve obscurecer o fato de que a atriz Simone Iliescu, estreante em cinema em O Homem Mau Dorme Bem, está muito bem no papel de Rita, dona de um posto de gasolina confrontada com as tensões de seu passado e presente.

Não é difícil imaginar o prêmio de melhor atuação masculina para Paulo Miklos, na pele de um músico que toca pagode num restaurante para sobreviver, em É Proibido Fumar. O roqueiro Titã, que deu início à sua carreira de ator aqui em Brasília, poderia repetir a façanha de 2001 neste festival, quando arrebatou um até então inédito prêmio de Ator Revelação por sua visceral interpretação do bandido infiltrado numa empresa e numa família em O Invasor, de Beto Brant. Depois disso, ele atuou também em Estômago e Boleiros 2.

Por outro lado, a lógica dos festivais também indica que o outro concorrente ficcional, o drama O Homem Mau Dorme Bem, não sairá de mãos vazias, ainda mais tendo em vista que seu diretor, Geraldo Moraes (No Coração dos Deuses), é veterano cineasta de Brasília (embora gaúcho de nascimento). Um troféu para o experiente ator Luiz Carlos Vasconcelos (Carandiru, Eu Tu Eles), que faz neste filme o mesmo personagem em dois momentos, não seria surpresa.

Domínio dos documentários
Predominando na seleção principal pelo segundo ano consecutivo, os quatro documentários concorrentes na categoria 35 mm devem capturar prêmios como Especial do Júri (que poderia ser entregue aos mais empenhados numa proposta de experimentação estética, caso do concorrente mineiro A Falta que me Faz, de Marília Rocha, que focaliza a vida de jovens mulheres de Curralinho (MG), e do paulista Quebradeiras, de Evaldo Mocarzel, sobre as quebradeiras de coco babaçu do Maranhão e Tocantins); trilha sonora (categoria em que parece difícil bater o baiano Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas, que revisita a história do grupo Novos Baianos), montagem, fotografia e som (três pontos fortes em Quebradeiras).

Também não é difícil supor que algum prêmio será destinado ao documentário brasiliense Perdão, Mr. Fiel, do jornalista Jorge Oliveira. Apesar do tema contundente - a morte do operário Manoel Fiel Filho nos porões do DOI-CODI paulista em 1976 -, tratou-se do filme mais fraco da boa seleção principal deste ano. O problema está no seu formato televisivo antiquado em termos da condução de suas entrevistas e numa precária encenação dramática dos últimos momentos de Fiel Filho.

Curtas de peso
A seleção de curtas 35 mm foi uma das melhores dos últimos anos. Entre os 12 concorrentes, há pelo menos quatro com méritos de sobra para dividir as principais premiações: o paulista Bailão, de Marcelo Caetano, que traça a memória do movimento gay em São Paulo pós-AIDS com sensível tom humanista; o pernambucano Recife Frio, misto de ficção científica e sátira político-social em que o realizador Kleber Mendonça Filho confirma e ultrapassa um talento revelado em curtas como Eletrodoméstica e Vinil Verde; “Azul”, de Eric Laurence (do premiado Entre Paredes), outro talento de Pernambuco que se reafirma, com um belo trabalho sensorial; e o sensível Carreto (BA), de Marília Hughes e Claudio Marques, representante de um cinema minimalista no retrato do encontro de duas crianças de vidas muito diferentes.

Antes da entrega dos prêmios, serão exibidos dois filmes que evocam a memória da construção da capital, às vésperas de seu 50º aniversário: o curta Brasília, Capital do Século (1959), de Gerson Tavares, e o longa Brasília, a Última Utopia (1989), trabalho coletivo de Pedro Anísio, Geraldo Moraes, Vladimir Carvalho, Pedro Jorge de Castro, Moacir de Oliveira e Roberto Pires, que detalha, em seis segmentos, aspectos geográficos, humanos e sociais da cidade.

Notícias relacionadas