04/06/2026

Filme pernambucano "Avenida Brasília Formosa" tem première mundial em Roterdã

Um dos quatro filmes brasileiros representando o Brasil no Festival de Roterdã, Avenida Brasília Formosa, do pernambucano Gabriel Mascaro, focaliza a transformação geográfica e cultural da famosa favela Brasília Teimosa – que o presidente Lula visitou logo no início de seu primeiro mandato, em 2002.
 
O filme tem sessões nesta terça (2), quarta (3) e sexta (5), na mostra Bright Future, reservada aos diretores com no máximo dois longas. Avenida Brasília Formosa é o terceiro longa do cineasta de 26 anos, que já teve seu trabalho anterior, Um Lugar Sol (2009), recém-exibido no Festival de Tiradentes e selecionado para dez festivais internacionais - entre eles, Munique, Copenhagem, Los Angeles, Nyon, Havana e Miami. Documentário que retrata os moradores de coberturas em Recife, Um Lugar ao Sol ainda não teve ainda distribuição comercial.
 
Em Avenida Brasília Formosa, o foco está num grupo de personagens, cuja vida mudou depois que as antigas palafitas da favela deram lugar a uma nova avenida em Recife. Nesta entrevista, concedida por e-mail, o diretor esclarece as particularidades deste seu novo trabalho.
 
 
 
Cineweb - Avenida Brasília Formosa é um documentário ou mistura documentário e ficção?
 
Gabriel Mascaro – O filme é uma ficção, mas postula alguns procedimentos que herdam da tradição documentária. Para fugir destas amarras institucionais, o filme encontra uma posição mais confortável enquanto um filme de natureza híbrida, bastante livre e despreocupado em procurar seu lugar nas prateleiras de DVDs como um gênero facilmente indexado.
 
 
Cineweb - Como você criou seus personagens ?
 
Gabriel Mascaro - Trabalhamos com um roteiro de ficção, mas ao invés de convidar um elenco já conhecido, fomos procurar pessoas na própria comunidade de Brasília Teimosa que tivessem um potencial cênico a ser desenvolvido. E reunimos este elemento de representação com o próprio cotidiano dos personagens. E terminou pela formação de um elenco maravilhoso, tudo muito orgânico.
 
Cineweb – Como o filme foi viabilizado?
 
Gabriel Mascaro - O mais curioso é que o filme ganhou um edital de documentário, o DOCTV. E o edital é um dos mecanismos mais intessantes que surgiu na política pública brasileira para o audiovisual. Lá, tivemos oficinas com grandes mestres, incluindo o Jean-Claude Bernardet, Eduardo Escorel, César Migliorin. Nessa oficina trocamos experiências com jovens diretores de todo o Brasil, quebramos esses preconceitos sobre o "compromisso documentário com a verdade". Foi uma grande troca e espero que esse modelo seja aprofundado por outros editais brasileiros.  
 
 
Cineweb – Há alguma relação entre este novo filme e o anterior, Um Lugar ao Sol ?
 
Gabriel Mascaro - A questão da arquitetura está seguramente presente na minha pesquisa, seja de uma forma mais explícita em alguns trabalhos, ou de forma mais
sutil. Pensar o espaço urbano e como as pessoas se organizam nele acho
que me ajuda a entender o imaginário da sociedade que vivemos. Especialmente em Recife, onde uma arquitetura vertical vem varrendo e desenhando um novo modelo de cidade. O que me interessa nisso tudo é refletir sobre o imaginário de desejo e sonho, deste trinômio ser-ter-estar, projetado no ideário de verticalização de cidade que
foi adotado no Brasil para fins residenciais. Acho que Um Lugar ao Sol, por entrevistar moradores de prédio de luxo, e Avenida Brasília Formosa, que trata de uma avenida recém-construída numa região de baixo poder aquisitivo, dialogam neste aspecto.  
 
 
 
Cineweb – Você tem uma afinidade maior com a temática das diferenças sociais no Brasil ?  
 
Gabriel Mascaro - Mais do que as diferenças sociais, o que me interessa é algo anterior a isso, são as diferenças entre os imaginários humanos. Me interessa como realizador a ideia do sonho, do desejo, do querer ser, dos devires, de um estar passageiro. Do estado temporário de se achar, de querer se mostrar, de se "representar". E termino por achar um mundo próprio em cada pessoa. O importante é procurar e perceber a diferença entre as pessoas, e que a ideia de classe não seja a única determinante. Gosto de ser surpreendido. E gosto também de surpreender e provocar sobre isso. O sonho de cada pessoa me interessa mais do que elas "realmente" são. Prefiro descobir sobre o que elas desejam ser e ter.
 
 
Cineweb – A trilha do filme se nutre do mundo da música brega. Como você a selecionou ?
 
Gabriel Mascaro - O filme é costurado por músicas que nos deparamos nas filmagens. Hits de bandas bregas estão a tocar a todo instante, em alto volume, por toda viela que passamos. A música alta diz respeito a uma ideia de compartilhar uma certa intimidade. As pessoas sentam na rua e na avenida para escutar a música que vem de dentro de casa. Assim, o espaço urbano coletivo é impregnado de sonoridades vindas do espaço íntimo, mas compartilhadas na rua. São diversas fontes sonoras ao mesmo tempo. É uma disputa de potência entre alto-falantes. A música é uma experiência sensorial a parte no filme. Tivemos sorte de caminhar na avenida e ter na "trilha" músicas deliciosas de Kelvis Duran, Mystura do Calypso, Paulo Márcio, Conde Só Brega, Vício Louco, e muitas outras grandes bandas pernambucanas.
 
 
Cineweb – O que você espera desta passagem do filme em Roterdã?
 
Gabriel Mascaro – O filme já nasce premiado pelo simples fato de ser selecionado para este conceituado festival, com uma seleção criteriosa. É um presente para mim e para o cinema brasileiro. Vai abrir portas para muitos outros festivais, e inclusive vai nos ajudar a conseguir um bom distribuidor no Brasil para entrar nas salas de cinema. Já recebemos convite para fazer a estreia latina no Festival de Buenos Aires (BAFICI). Estamos querendo fechar um distribuidor no Brasil para começar a pensar na melhor forma de fazer o filme ser visto no nosso país. Esse é nosso maior desafio, já que o cinema brasileiro é bem pouco visto pelos brasileiros.
 
 

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