A esposa do diretor iraniano Jafar Panahi, Tahereh Saeidi, anunciou em sua página no Instagram que seu marido, detido há seis meses na prisão Evin, começou uma greve de fome.
Um dos mais prestigiados e premiados diretores do Irã, Panahi ganhou o Leão de Ouro em Veneza em 2000 por seu drama O Círculo. Nos últimos anos, perseguido pelo governo de seu país, tem mesmo assim sido capaz de filmar dentro de muitas restrições, assinando filmes como Isto Não é um Filme, Cortinas Fechadas, Táxi Teerã e Três Faces.
Esta é a declaração divulgada pelo cineasta, de 62 anos:
“Em 20 de julho do ano passado, participei de um protesto contra a prisão de dois meus queridos colegas, Mohammad Rasulof e Mostafa Al-Ahmad, juntamente com um grupo de cineastas reunidos diante da prisão de Evin. Ficou decidido que alguns de nós e os advogados dos colegas detidos entrariam no pátio da prisão pacificamente.
Estávamos dialogando com as autoridades e um investigador quando um agente veio até mim e me conduziu ao juiz do setor 1 de cumprimento de sentenças de Evin. O jovem juiz disse-me sem rodeios: “Estávamos procurando-o nos céus e o encontramos aqui. Você está preso”.
Desta forma, fui detido e levado à prisão de Evin para o cumprimento de uma sentença que havia sido dada 11 anos atrás. De acordo com a lei segundo a qual fui preso em 1988, depois de mais de 10 anos de não-execução, a sentença caduca e não é mais aplicável. Portanto, esta prisão é mais um ato de banditismo e sequestro do que a execução de uma sentença judicial.
Mesmo que minha detenção tenha sido ilegal, os respeitados advogados conseguiram quebrar o entendimento legal de 1990, retomando os procedimentos junto à Suprema Corte, a maior autoridade nestes casos, em 15 de outubro de 2022, de modo que pudessem retornar à mesma vara para um novo julgamento. Desta maneira, de acordo com a lei, com a aceitação do pedido para novo julgamento e anulação do veredito, o caso foi referido àquela vara e eu deveria ter sido imediatamente solto sob fiança. No entanto, enquanto vimos recentemente levar menos de 30 dias entre a prisão e o enforcamento de um jovem inocente em nosso país, passaram-se mais de 100 dias para a transferência do meu caso à vara com a intervenção das forças de segurança.
A lei determina claramente que, em casos de violação da sentença na Suprema Corte, o juiz da mesma vara é obrigado a uma ordem de soltura sob fiança assim que o caso lhe for referido. Entretanto, fui mantido na prisão sob reiterados pretextos emitidos pelas agências de segurança.
O que é certo é que o comportamento extra-legal das instituições de segurança e a submissão das autoridades judiciais novamente demonstram a implementação de leis seletivas. Isto é apenas um pretexto para a repressão.
Mesmo que eu soubesse que o sistema judicial e as instituições de segurança não demonstram o desejo de implementar a lei, como alegam, por respeito aos meus advogados e amigos submeti-me aos ritos legais para obter meus direitos. Hoje, como muitas pessoas no Irã, não tenho escolha a não ser protestar contra essas atitudes desumanas com aquilo que tenho de mais caro, minha vida.
Portanto, firmemente declaro que, em protesto contra o comportamento extra-legal e desumano do aparato judicial e de segurança e seu peculiar método de tomada de reféns, comecei uma greve de fome e recusarei comer ou beber qualquer alimento ou tomar qualquer medicamento até minha libertação. Assim permanecerei até que, talvez, meu corpo sem vida seja liberado da prisão.
Com amor pelo Irã e pelo povo de minha terra,
Jafar Panahi”.
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