04/06/2026

“Pacto da Viola” aborda o sertão que tenta resistir à precarização do trabalho

Wellington Abreu em cena de Pacto da Viola (Crédito: Divulgação)

Ganhador do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Brasília 2024 para Wellington Abreu, Pacto da Viola é um filme que negocia as tensões entre a tradição e a modernidade. Dirigido por Guilherme Bacalhao, com roteiro dele e de Roberto Robalinho e Aurélio Aragão, o longa chega aos cinemas amanhã (07/08). Nessa entrevista, o cineasta fala sobre seu processo criativo, como o filme reflete o Brasil de hoje e a importância da parceria com Abreu, entre outros assuntos. 

Como começou o projeto do filme?

O primeiro insight do filme foi despertado pelo artigo de um antropólogo que pesquisou histórias de violeiros que fizeram pacto com o diabo na região de Urucuia, no noroeste mineiro. Inicialmente ficamos interessados em descobrir até que ponto essas narrativas permaneciam vivas e presentes.

Que tipo de pesquisa você fez para realizar o longa?

Além da pesquisa teórica sobre a folia, histórias de pacto e sobre os impactos do avanço do agronegócio na cultura do interior do Brasil, a equipe realizou diversas viagens de pesquisa para a região do livro Grande Sertão Veredas para conhecer e conversar com violeiros, capitães de folia e contadores de história. Nossa pesquisa contou com dois importantes violeiros e pesquisadores musicais: Roberto Corrêa e Cacai Nunes. 

A primeira viagem de pesquisa que fizemos para o noroeste mineiro foi com o Cacai Nunes. Ele nos apresentou alguns dos mestres e violeiros que havia entrevistado anteriormente para seu projeto Um Brasil de Viola. Depois, retornamos outras vezes para a região para aprofundar laços, escolher locações, ouvir relatos, conhecer e conversar com violeiros, capitães de folia e contadores de história. Roberto Corrêa, além de ter composto a trilha musical do filme, é um grande estudioso da cultura da viola. Ele também nos auxiliou compartilhando histórias que vivenciou e fazendo diversas sugestões ao roteiro.

O filme toca em questões urgentes do presente: como a agricultura industrializada destruindo o meio ambiente e ameaçando os pequenos agricultores. Como foi trabalhar esses temas no filme?

Nesta região, de um lado temos grandes fazendas de soja e do outro temos uma forte tradição cultural, musical e religiosa, que continua a existir em pequenos arraiais que muitas vezes são formados por parentes da mesma família. Neste sentido, o filme também traz um viés político de resistência ao abordar um sertão em rápida transformação em que o dito progresso e o agronegócio ameaçam a vegetação do sertão e a agricultura familiar e coloca em risco o universo narrativo onde habitam esses violeiros e suas fabulações. Esta realidade permeia o filme de forma não panfletária: trabalho precarizado, migração dos jovens para a cidade, cercas e porteiras que atrapalham o caminho da folia... 

O que você acha que o filme tem a dizer sobre e para o Brasil de hoje?

O filme mergulha em um universo de cultura e de crenças que, apesar de todas as transformações e ameaças, permanece vivo e forte. O Brasil é um país continental que possui diversas culturas regionais muito arraigadas, principalmente no interior do País. Conhecer e valorizar essa diversidade, é entender que somos um país de uma identidade cultural rica e múltipla, formada pela junção das diversidades regionais.

Você tem experiência também em documentários. Como o lado documentarista entra quando você faz um filme de ficção? 

Inicialmente, nossa ideia era fazer um documentário com alguns dispositivos ficcionais. Ao longo da pesquisa e do desenvolvimento do roteiro, fomos percebendo que valorizar os recursos ficcionais nos possibilitaria dar a concretude audiovisual que desejávamos às narrativas orais intrinsecamente mágicas. O que fizemos foi transformar relatos tradicionais perpetuados pela história oral em cenas, personagens e diálogos. Da experiência do documentário, trago uma preocupação ética em ser respeitoso ao universo de crenças que retratamos, mas entendo que o filme é uma fabulação que reflete a perspectiva do realizador. Do documentário tradicional, o filme também traz contadores de história, violeiros e moradores de Urucuia que participam do filme interpretando a si mesmos ou a outros moradores.

E como foi a parceria com o Wellington Abreu na construção do personagem, ele que inclusive foi premiado pelo trabalho? 

O Wellington Abreu é um grande ator do cinema brasileiro. Tenho grande admiração por ele não apenas pela sua atuação, mas por sua generosidade em cena. Quem divide a cena com Wellington tem um parceiro que ajuda todos a construírem e interpretarem seus personagens. Alguns personagens do filme eram moradores de Urucuia sem experiência prévia em atuação e ter o Wellington com ator foi fundamental para que eles pudessem ficar à vontade e atuar de forma leve e natural. 

Por questões contratuais, nós tivemos que filmar antes do fim da pandemia. Para a realização dos ensaios, o elenco principal ficou isolado em uma fazenda junto comigo e com a Vanise Carneiro, preparadora de elenco que foi fundamental para chegarmos ao resultado obtido. Esse período de isolamento foi super-importante para o elenco construir seus personagens e amadurecer as relações entre eles.

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