Helena Ignez, nos bastidores da peça Fim de Partida (Crédito Jéssica Mangaba/Divulgação)
A partir da próxima quarta (22), às 19h30, o Itaú Cultural (SP) inaugura a mostra da série Ocupação dedicada à atriz, roteirista e cineasta Helena Ignez, que fica em cartaz até 18 de outubro. Primeira cineasta mulher a receber esta homenagem, a exposição privilegia a voz de Helena, sua liberdade criativa e sua potência em cena, sempre em intensa atividade artística.
O percurso pela Ocupação começa com uma experiência imersiva, com áudio da própria Helena conduzindo o público e uma projeção central de trechos marcantes de suas atuações, evidenciando o corpo como linguagem e a ação como gesto político.
A mostra dedica um eixo especial à perspectiva da antimusa, com um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos. A mulher de todos (1969) ocupa lugar central na exposição, com a exibição de frames e trechos do filme em cópia restaurada, o seu cartaz histórico e registros da personagem que ela encarnou: a irreverente Ângela Carne e Osso, ninfomaníaca que faz os homens de gato-e-sapato, considerada uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro por subverter papéis de gênero em plena ditadura.
O espaço dedicado à produtora Belair reúne filmes, frames, vídeos, materiais de bastidores, trilhas sonoras e textos da época, incluindo um documento em que Helena se posiciona contra a censura. São registros que retratam o período de intensa criação vivido por Helena Ignez ao lado de Rogério Sganzerla (1946-2004) e Júlio Bressane, em 1970. Para se ter uma ideia, o grupo realizou seis longas-metragens em poucos meses daquele ano. A produção foi logo interrompida pela repressão e eles tiveram de partir para o exílio. Integram esse conjunto materiais dos filmes Carnaval na lama, Copacabana mon amour e Sem essa aranha, de Rogério Sganzerla, e Cuidado madame, Barão Olavo, o horrível e A família do barulho, de Júlio Bressane.
Este núcleo também incorpora iniciativas de preservação associadas ao projeto, como o apoio da Cinemateca Brasileira que contribuiu para a captura fotográfica digital das películas desses títulos, além de O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Sganzerla, O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, O grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, e A grande feira (1961), de Roberto Pires.
A parceria com a Cinemateca Brasileira realizou outras ações relacionadas à preservação de filmes brasileiros, como a produção de uma nova cópia digital de O grito da Terra, drama sertanejo de 1964 dirigido pelo baiano Olney São Paulo, com Helena em um dos papéis principais. Uma raridade do período pré-Cinema Novo que volta a ser apresentada para o público.
Para a Ocupação, o Itaú Cultural também apoiou a finalização do longa-metragem carioca América do sol (2000-2026), de Léo Duarte, produção inédita com Helena retomando o papel de Sônia Silk, interpretada por ela em Copacabana, mon amour, em 1970. Ambos estarão disponíveis na plataforma de streaming gratuita de cinema brasileiro Itaú Cultural Play.
Um mural com fotos mostra imagens de parcerias de trabalho longevas, como Sganzerla, Antônio Pitanga, Paulo Villaça (1939-1991), Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet (1936-2024); e outros icônicos, como Jô Soares (1938-2022), Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023) e Ney Matogrosso.
Com produção da Itaú Cultural Play e direção de Helena Ignez e André Guerreiro Lopes, está sendo finalizado o curta-metragem inédito Des-criação, que assume um formato híbrido em diálogo com a videoarte e o cinema de invenção. A obra mergulha no universo interior de Helena, seus estados mentais e criativos, suas reflexões sobre arte, tempo, vida e morte. O filme está previsto para circular em festivais e na plataforma de streaming do IC, ainda sem data de estreia.
Retrospectiva de filmes e peça
No período em que estiver em cartaz, o público poderá acompanhar uma retrospectiva com 22 filmes na Itaú Cultural Play, de obras dirigidas e estreladas por Helena. O acesso é gratuito, disponível em itauculturalplay.com.br e em aplicativos para smart TVs, dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast.
A programação paralela também terá exibições presenciais de curtas e longas-metragens nos meses de setembro, no Cine Glauber Rocha, em Salvador, e de outubro, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo.
A mostra vai de marcos do Cinema Novo e do Cinema Marginal a realizações mais recentes da artista, revelando a permanência de uma obra movida pela experimentação e pela invenção. Entre os clássicos estão A grande feira (SP, 1961), de Roberto Pires, O padre e a moça (MG, 1966), de Joaquim Pedro de Andrade, O Bandido da Luz Vermelha (SP, 1968), A mulher de todos (SP, 1969) e Copacabana mon amour (RJ, 1970), de Rogério Sganzerla. A seleção da IC Play também reúne produções dirigidas por Júlio Bressane, Olney São Paulo, Roberto Farias, Roberto Pires, Karen Black, Cristiano Burlan e pela própria Helena Ignez, como Luz nas trevas: A volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) e A moça do calendário (2017).
Ainda, o teatro do IC apresentará em outubro uma remontagem da peça Savannah Bay, dirigida por André Guerreiro Lopes e com Helena no elenco. A peça, montada sobre o texto homônimo de Marguerite Duras (1914-1996), foi realizada originalmente em 1999 e em 2001, com direção de Sganzerla, Helena no papel de Madeleine – uma atriz que perdeu a filha afogada na baía de Savannah e enfrenta problemas de memória – e Djin Sganzerla como sua neta.
Serviço:
Ocupação Helena Ignez - Itau Cultural: Avenida Paulista, 149 (SP)
Mostra Online: https://www.itauculturalplay.com.br/
