23/09/2026

Filme argentino "Glaxo" tem DNA brasileiro

San Sebastián - Glaxo, representante da Argentina na competição oficial da 74ª edição do Festival de San Sebastián, tem um bocado de Brasil na produção para valer a torcida aos prêmios principais. Está na disputa com um único concorrente genuinamente brasileiro, Vicentina Pede Desculpas. O filme do diretor mineiro Gabriel Martins (Marte Um) terá sua primeira exibição na quinta (24). É um drama, ao que tudo indica, com carga emocional e social. Muito diferente da proposta do argentino Benjamín Naishtat, conhecido pelo sucesso Puan, e similar a este no registro de novela leve, algum humor, embora com pano de fundo político levado em dois tempos. Trata-se de uma coprodução da RT Features, de Rodrigo Teixeira, com equipe técnica em parte brasileira, como o fotógrafo Pedro Sotero, a montadora Livia Serpa e segunda-assistente de direção Mariana Frantz.

Pode-se abordar o filme como uma história de iniciação. No caso, do imberbe Miguelito (Joaquín Bonadeo), que ainda com espinhas na cara se envolve com um sargento aposentado (Marcelo Subiotto) e sua fogosa e jovem mulher (Lali Espósito) em cidadezinha nos arredores de Buenos Aires. Estamos em 1956, logo após a queda de Péron por um golpe cívico-militar, e o mandatário local o coopta inicialmente para domar cavalos na estância do casal. Quer tirá-lo de empregos mal pagos, como na fábrica que dá título ao filme, e tem mais planos para ele. Mas o rapazote, como os demais amigos de uma turma, se encanta pela pouco dedicada companheira do patrão e logo cai seduzido em seus braços.

O nó da trama, a virada, tem a ver com essas relações de amizade, os ciúmes, a infidelidade e tem seu prenúncio no início do filme. É o ano de 1984, ás vésperas dos processos judiciais que mandaram os militares para a cadeia. Dois dos amigos daquele grupo inseparável conversam sobre um Miguel já muito doente e que pede para revê-los. Um deles se nega. Foi traído, vítima de uma armação e passou anos na cadeia. Claro, naquele período não era só cumprir a pena, e as marcas permanecem.

Baseada em romance de Hermán Ronsino, a história se alonga na parte inicial, para correr com o desfecho, e isso exige certo contorcionismo do espectador para fechar as arestas. Mais clara é a intenção do diretor em apontar que naquele passado de ainda certa ingenuidade, se forjou um porvir muito mais sombrio e de brutal perseguição, numa das ditaduras mais sangrentas da América Latina.

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