San Sebastián - “Ando devagar porque já tive pressa”. O refrão inicial da canção Tocando em Frente expressa o sentido geral de Vicentina Pede Desculpas, novo longa do mineiro Gabriel Martins que estreou na competição do 74º Festival de San Sebastián. A música de Almir Sater e Renato Teixeira abre o filme ainda nos créditos e prepara para a tragédia que vai se abater sobre a protagonista e as famílias nela envolvidas nos primeiros minutos da trama. O filho de Vicentina (em mais um desempenho forte de Rejane Farias), motorista de ônibus municipal, conduz o veículo quando perde a direção e tomba de um viaduto na via abaixo. Ele e vários passageiros morrem na hora. Uma ou duas vítimas ainda chegam vivas ao hospital.
Com esse princípio impactante, já se imagina que o desenrolar do drama irá se articular no luto da mãe, dos familiares das vítimas e de como passam a lidar com a vida ao perder seus entes de forma trágica. A ideia logo se confirma no registro mais focado em Vicentina, que morava com o filho agora morto, e pode contar de imediato apenas com o apoio de uma amiga bem próxima. Ao menos até a chegada do outro filho para o enterro, vindo de Manaus, onde mora. Sua estada, no entanto, é breve e sem que consiga convencer a mãe a viajar com ele.
Mais inesperado é o modo como as demais famílias em luto passam a entrar nesse quadro constituído de uma certa classe social baixa, se tanto média baixa, brasileira, aspecto também explorado no filme. A mãe, inconformada com o acidente sem explicações, decide buscar cada um dos clãs e pedir desculpas. Toma para si a responsabilidade do fato, tendo seu filho culpa ou não, dilema que a acompanhará no périplo. Um desafio ainda mais árduo porque Vicentina, aposentada sem recursos financeiros, ainda sofre com uma lesão no joelho que a obriga a andar de muletas. Quando pode, pega um ônibus, quando não, segue a pé.
Lançado o fio dramático principal, o filme de Martins não se contenta com o que já poderia ser um fato dramático e tanto. Aos poucos, com o vagar justificado pela limitação física da personagem mas também para explorar cada situação, o diretor dilata o tempo e faz de cada encontro de Vicentina uma representação dos “sofreres” diversos dos envolvidos. Sejam eles de uma grande família reunida em torno de uma matriarca nonagenária vitimada, uma viúva inconformada do marido ter pegado aquele ônibus ou um casal com visões diferentes sobre a desculpa quanto à morte da filha, caloura de várias faculdades. É um “cadinho” de Brasil que Martins traz aqui, inclusive quando demonstra os modos de encarar a morte nesse estrato social.
Há ecos na história de acontecimentos reais e de filmes que os retrataram no cinema brasileiro, como lembrou Martins na coletiva de imprensa. O mais óbvio é o documentário Ônibus 174. Mas são mais as memórias pessoais que levaram o diretor a elaborar o drama, como a figura de sua avó de nome Vicentina, e de como ela lidava com o tema da morte. “Também queria abordar a natureza das relações nos tempos atuais, como ficamos presos às redes sociais, respondemos mensagens e mal falando com as pessoas, em especial as mais próximas, de quem gostamos”, diz. “Por isso levei ao filme a dificuldade de uma mãe em dizer que ama o filho, parece que precisa de uma tragédia para isso acontecer”. É um filme com interessantes abordagens sobre afeto, dor, sofrimento, mas numa medida que talvez o torne um tanto redundante, pesado mesmo. De todo modo, a intenção parece ser nos desafiar ante a definições e soluções rápidas, com vagar e sem pressa.
