Cardoso subiu ao palco vestindo uma camisa social preta coberta com desenho de crânios laranja – igual àquela que usa no filme. “Viver no Brasil é uma dificuldade, fazer cinema, então, é ume loucura”, declarou. Sempre de bom humor, o cineasta parecia se divertir mais do que a platéia ao apresentar o seu filme.
A Marcar do Terrir mostra diversos trechos de longas, curtas e trailers produzidos por Cardoso nos anos 70 no formato Super 8. Cenas de nudez, masculina e feminina, sexo, e muito, muito, molho de tomate fazem a alegria dos fãs do cineasta carioca. A platéia gargalhava com cenas mostrando o poeta Torquato Neto no papel de Nosferatu no Brasil.
Não por acaso, esta foi a noite com menor evasão de público entre os curtas e os longas. E o público presente se manifestava em vários momentos – principalmente numa cena em que dois garotos se masturbam para a câmera numa praia. Cenas que mostram uma época em que não imperava o politicamente correto – não que isso vá passar pela cabeça do cineasta, mas atualmente talvez ele enfrentasse problemas com a justiça.
Cardoso contou, no debate na manhã seguinte, que aquela era uma época complicada: “Era o mundo do sexo, drogas e rock‘n roll, a revolução sexual, mudança de costumes. Havia o lado bom e o ruim”. Na verdade, o cineasta nunca colocou esses filmes em cartaz. Mostrava-os apenas para amigos, em cineclubes e faculdades. Esse status de cult veio, claro, com o tempo. Mesmo assim, não existe nenhum projeto para lançar sua obra em DVD. “Uma empresa me procurou e queria pagar R$ 6.000,00 por filme”, disse, fazendo mentalmente as contas de quanto receberia. “Que azar! Deveria ter aceitado”, ironizou.
Globo, Assis e curtas
Parece que está se tornando uma constante as polêmicas nos debates no XV Cine Ceará. Desta vez, o assunto foi a intervenção da Globo no cinema nacional. O curta-metragista Marcos Schiavon, de O Xadrez das Cores, comentava o papel da Globo quando o diretor Cláudio Assis, de Amarelo Manga, interveio da platéia e disse tudo o que pensava sobre a rede de TV. Cláudio recebeu apoio de Cardoso. O diretor pensa que a Globo Filmes é um investimento para ‘comprar a classe cinematográfica. É como eles quererem que só passem carros produzidos por eles na estrada deles”, disse, referindo-se à programação de filmes nacionais do canal.
Cardoso também criticou Sérgio Bianchi, que apresentou seu Quanto Vale ou é Por Quilo? na noite do domingo. “Ele era genial quando não sabia fazer cinema. Agora se ‘profissionalizou’ e dá nisso. O filme do Bianchi deveria ser patrocinado pelos Correios. São quase duas horas só de mensagem”, arrematou, trazendo a platéia do debate abaixo nas gargalhadas.
O cineasta Assis continuava irredutível, dizendo que a Rede Globo “vicia” o olhar das pessoas. “A gente tem que combater e não se aliar a eles”, conclamou. O maestro Julio Medaglia, responsável pela trilha de A Marca do Terrir, opinou que a Globo tem feito o mesmo com a MPB: “Não há um programa de música brasileira na TV brasileira. São 15 anos de tortura com música caipira, axé. Todos juntos não valem uma pausa na música do Cartola”, criticou o maestro.
Os curta-metragistas presentes na mesa também acabaram tomando partido. Eric Laurence (Entre Paredes) disse que pretende ingressar na esfera dos longas, mas que para isso pretende não deixar ser dominado pela idéia de rentabilidade dos filmes. “É importante pensar no mercado, mas não quero deixar de lado os aspectos artísticos de fazer cinema”, explica. O curta de Laurence é um dos melhores exibidos no festival até o momento. Com trilha sonora composta por Naná Vasconcellos, o trabalhonão conta com um diálogo sequer, retratando uma complicada relação entre um homem e uma mulher. Adolfo Lachtermacher, do excelente Cavalhada de Pirenópolis, disse que não se importa de fazer curtas ou longas, o que ele quer é fazer cinema.
A atriz Gisele Werneck, do divertidíssimo Curta metragem metalingüístico de Baixo Orçamento ou Aceita Mais Café?, contou que as famílias dos envolvidos ajudaram bastante na sua realização. Enquanto isso, Cardoso dizia que sua família “não podia nem ver os seus filmes” e fazia tudo escondido. Mas ele também revelou que, graças à sua mãe, conseguiu guardar os filmes que fez em Super 8. “Deixei tudo guardado na casa dela, bem conservado”.
Cardoso aproveitou para fazer propaganda de seu livro de fotos, De Godard a Zé do Caixão, e tentar convencer alguém presente na platéia a distribuir seu filme nos cinemas. Esse, aliás, não será o problema de sua próxima produção, Um Lobisomem na Amazônia, um filme inteirinho rodado na Barra da Tijuca que tem no elenco o ator espanhol Paul Naschy, a atriz global Danielle Winitts e é produzido por Diller Trindade, o produtor dos filmes de Xuxa que certamente terá seus meios para lançar o filme.
