Festivais como o do Rio, Recife, Fortaleza, Goiânia, Belém e Manaus e outros vieram para ficar, alguns com um potencial de atração internacional que Gramado até não tem. Em compensação, Gramado internacionalizou-se bem antes, nos anos 90, quando abriu as portas de sua competição a produções latinas – o que até hoje é uma marca exclusiva – resistindo, assim, à séria ameaça de desaparecimento não só do festival, como do cinema brasileiro em bloco, diante da extinção intempestiva da Embrafilme, no governo Fernando Collor de Mello. Ponto para Gramado, que não só sobreviveu à crise como ajudou a romper um certo isolamento do Brasil em relação ao resto de um continente que quase todo fala espanhol, bem como em relação a Portugal, que todo ano tem um representante na seleção.
Mas, se a seção latina se manteve até hoje, este ano ela dá sinais de que perde prestígio em relação aos documentários nacionais, que nos últimos anos vêm demonstrando ser uma trincheira instigante de criatividade com poucos recursos e sintonia direta com as grandes questões e personagens do Brasil. Assim, os quatro documentários da competição serão exibidos na sessão nobre da noite, antes dos longas de ficção, tradicionalmente a prata da casa do festival. A seção latina foi destronada para o horário da tarde, onde até o ano passado estavam os documentários.
Os documentários concorrentes são Do Luto à Luta, mergulho no universo da síndrome de Down do cineasta fluminense radicado em São Paulo Evaldo Mocarzel; Soy Cuba – O Mamute Siberiano, do carioca Vicente Ferraz, sobre o lendário filme feito em Cuba nos anos 60 pelo cineasta russo Mikhail Kalatosov; Doutores da Alegria, da paulista Mara Mourão, relatando o trabalho desses palhaços profissionais em hospitais infantis; e Em Trânsito, de Henri Arraes Gervaiseau, sobre um dos problemas mais desafiadores da metrópole paulistana.
São seis longas de ficção, alguns comportando grandes expectativas, como é o caso de Gaijin – Ama-me como Sou, da gaúcha de origem japonesa Tizuka Yamasaki, que revisita 25 anos depois seu épico de 1980 do alto de um orçamento de R$ 12 milhões, com filmagens entre o Brasil e o Japão e um elenco internacional, encabeçado pela nipo-americana Tamlyn Tomita e o cubano Jorge Perugorría – cujas vozes são dubladas em português. Outro veterano é Domingos de Oliveira (já premiado aqui com Amores e Separações), agora com outra comédia dramática urbana, Carreiras. Um estreante de luxo na direção é o ator Paulo Betti, que assina com Clóvis Garcia o esperado Cafundó - um projeto que Betti sonha realizar há anos e centraliza-se em torno da figura de um lendário líder negro, saído das senzalas do século XIX.
Se no ano passado, faltaram os tradicionais épicos gaúchos, este ano há pelo menos um filme concorrente que cabe no figurino: trata-se de Diário de um Novo Mundo, de Paulo Nascimento, um dos quatro gaúchos entre os concorrentes de ficção. Fora ele, também são do Rio Grande do Sul a própria Tizuka, Carlos Gerbase, que comparece com sua fantasia romântico-cinematográfica Sal de Prata, com elenco estelar encabeçado por Maria Fernanda Cândido e Camila Pitanga, e também Beto Souza, o co-diretor de Netto Perde sua Alma, trazendo agora o estiloso Cerro do Jarau, uma história moderna, estrelada por Tarcísio Meira Filho, mas encharcada em lendas gaúchas. Tanto Cerro do Jarau como o documentário Do Luto à Luta já foram exibidos e premiados no Festival de Recife, em abril (o documentário também foi premiado no Festival de Belém, em julho).
A seção latina contempla sete longas: dois argentinos, Buenos Aires 100 km, de Pablo Jose Meza, e Por un Mundo Menos Peor, de Alejandro Agresti; um chileno, Mala Leche, de Leon Errazuris; um cubano, Roble de Olor, de Rigoberto Lopez (com Jorge Perugorría no elenco), um português, Kiss Me, de António da Cunha Teles; um mexicano, Un Dia sin Mexicanos, de Sergio Arau, e um raro exemplar da cinematografia venezuelana, Punto y Raya, de Elia Schneider.
Correndo por fora da competição, procurando tornar-se o filme-evento da temporada, aparece Nossa Senhora de Caravaggio – O Filme, do diretor Fábio Barreto. Aparentemente entusiasmado pela temática religiosa que já abordou em A Paixão de Jacobina, Barreto agora dirige uma história centrada na devoção a Nossa Senhora, nascida de uma visão dela em Caravaggio (Itália), em 1432 e que tem efeito na vida de duas pessoas no Brasil hoje (Cristiana Oliveira e Luciano Szafir). A promoção do filme prevê uma procissão de 1 km, saindo da frente do Palácio dos Festivais na terça (16), com direito à presença de uma imagem da santa trazida do santuário com seu nome em Farroupilha (RS), que tem 120 anos e ficará em exposição na entrada de um dos hotéis da cidade.
Os homenageados desta edição serão o cineasta Hector Babenco e os atores Glória Menezes e Tarcísio Meira.
Outra novidade esta numa mostra de animação, com 36 curtas-metragens, dentro de um evento paralelo, o Gramado Cine Vídeo.
