17/06/2026

Festival Lume - desbravando territórios, mas sem perder a ternura

No meio de tantos festivais de cinema – consta que no Brasil sejam mais de duzentos – o Festival Lume, que está se realizando em S. Luís do Maranhão, está conseguindo uma façanha: ter uma identidade logo em sua primeira edição, que é de uma ousadia admirável.
 
Nascido independente à força, diante da má vontade de patrocinadores e autoridades locais, o festival se realiza com garra e simpatia, essa mistura que é a própria cara de Frederico Machado, o idealizador do festival e que há anos lidera a Lume, uma das distribuidoras de DVDs mais seletas do mercado, com títulos raros, de arte, empenhados, diferenciados,que têm enriquecido como poucos o mercado nacional. Agora, felizmente, também estendendo-se à distribuição de cinema.
 
Com apenas R$ 250.000,00 – valor de um solitário prêmio de melhor filme, em festivais como Paulínia e Brasília -, e alguns benvindos apoios, Machado, sua mulher, Cláudia, e um pequeno grupo de amigos conseguiram armar a estrutura mínima para realização de um festival internacional, exibindo diariamente desde o dia 14 um programa de longas e curtas nacionais estrangeiros de dar inveja a muitas capitais.
 
Com as deficiências que seria de se esperar – como alguns problemas na projeção nos primeiros dias -, o festival parece estar cumprindo sua tarefa desbravadora, marcando um novo território cultural. A conversa do diretor filipino Brillante Mendoza com público e jornalistas no sábado foi concorrida e teve o nível de uma Leçon de Cinéma do Festival de Cannes, já que o cineasta falou de seus métodos e preferências com uma admirável disponibilidade e abertura.
 
Só dá para torcer que o festival crie raízes e continue – ainda mais porque simpatia igual à destes organizadores é raríssima de encontrar.

De repente, filas para filmes brasileiros em Paulínia

Acabou o 4º Festival de Paulínia, com a merecida consagração de A Febre do Rato, de Cláudio Assis, sobrando não menos merecidos prêmios a O Palhaço, segundo filme de Selton Mello.
 
Se há uma palavra adequada para definir esta edição do novíssimo festival é maturidade. Em apenas quatro anos, o festival, que começou sendo esnobado por alguns, visto com desconfiança por outros, consolidou-se. Exibiu uma considerável fatia do que de melhor vem sendo produzido pelo cinema nacional – que mostrou aqui uma face diversificada e rica, merecendo ser vista. Em tempo: falo dos longas de ficção. Os curtas deste ano deixaram muito a desejar, bem como os documentários, com as honrosas exceções de sempre, que vou comentar a seguir.
 
Maturidade também é o que pode ser dito de Cláudio Assis, que dá um salto de qualidade em sua dramaturgia e alcança uma poesia concreta e libertária, oswaldiana mesmo, neste seu A Febre do Rato – onde brilha o talento do roteirista Hilton Lacerda, autor dos poemas ditos no filme, e de um formidável elenco, destacando os atores Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Maria Gladys, Juliano Cazarré. A incrível fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho é a pele ideal desse filme absolutamente visceral.
O Palhaço marca, da mesma maneira, a maturidade de Selton Mello, como diretor e ator. Abordando um tema tão batido quanto a vida no circo, Selton consegue ir além, aproveitando a imprescindível parceria de Paulo José – que, mais que um ator, é quase uma entidade do cinema e do teatro brasileiros. Um filme absolutamente delicioso, onde se pode rir e sentir uma melancolia doce.
 
Trabalhar Cansa introduz no mundo dos longas a jovem dupla de curta-metragistas premiados, Marco Dutra e Juliana Rojas, já com uma aguda reflexão sobre as relações do poder e do trabalho. Benvindos, diretores!
 
Entre os documentários, é preciso assinalar o poderoso Uma Longa Viagem , em que Lúcia Murat desnuda sua intimidade familiar com uma emocionante elegia à irmandade, com uma oportuna inserção no contexto político da ditadura dos anos 60-80 no Brasil. O mesmo se diga de Rock Brasília, em que o veteraníssimo Vladimir Carvalho revela seu faro certeiro para um fenômeno cultural igualmente calcado na realidade política.
 
Os demais documentários, no entanto, deixaram a desejar, vendo-se alguns filmes com um marcado viés institucional ou partindo de conceitos surrados, sem nada novo a dizer. Piores ainda foram a maioria dos curtas-metragens, em que se salvou olimpicamente a originalidade solitária de A Tela, de Carlos Nader. A curadoria dos dois formatos precisa ser aperfeiçoada nas próximas edições.

Só pra não deixar de falar do público em Paulínia, ele deu o ar de sua graça em peso, provocando, pela primeira vez, filas enormes e obrigando a realização de duas sessões diárias dos longas de ficção em várias noites. Prova de que o público finalmente descobriu e entendeu a importância do pólo cinematográfico de Paulínia – que dá uma identidade única a este festival entre os muitos que existem no País

Depois de Cannes, nas férias, três filmes magníficos

Depois do ótimo Festival de Cannes este ano (magnífica seleção!), tirei férias. Conheci Berlim, uma cidade linda, cenário de um dos filmes da minha vida – Asas do Desejo, de Wim Wenders. Mas a Berlim unificada, moderna, ensolarada e cheia de obras de melhoria é muito diferente daquela do filme de 1987. Mas ambos são lindos, cada um a seu modo.

Passei por Paris, também, e, para não perder o costume, fui ao cinema três vezes. Vi o novo e belíssimo filme de Wim Wenders, Pina (foto), em que, delicada mas incisivamente, ele reverte vários conceitos estabelecidos sobre documentário e demonstra que o 3D serve também para iluminar filmes como este.
 
Há muitas coisas não-ditas em Pina, um documentário sobre a ausência de Pina Bausch, que morreu há exatamente dois anos, e sua presença continuada, nas coreografias incríveis que criou – como Café Müller e Água – e que seus bailarinos seguem encenando pelos teatros e ruas do mundo, como se vê no filme.
 
Pina tematiza a orfandade destes bailarinos, alguns dos quais preferem permanecer em silêncio, olhando a câmera, a falar de sua mestra – um silêncio que é tão eloquente quanto as palavras de todos os outros e os magníficos movimentos de dança que executam com um misto de emoção e perfeição técnica.
 
Assisti também a uma comédia romântica argentina, Medianeras, de Gustavo Taretto – que descobri que, felizmente, tem distribuidor garantido no Brasil, tanto quanto Pina. Taretto consegue inovar neste gênero tão batido e maltratado pelos clichês, tematizando a solidão das grandes cidades, como Buenos Aires, em que a arquitetura do amontoamento sufoca sistematicamente as pessoas em espaços cada vez menores. Uma situação com que qualquer paulistano pode identificar-se prontamente.
 
A boa notícia é que Medianeras transforma este contexto arquitetônico em personagem, mas não esquece de acrescentar outros – dois ternos fóbicos, o webdesigner Martin (Javier Drolas) e a vitrinista Mariana (Pilar López de Ayala, de Lope). Tematizando também a tecnologia virtual que tanto aproxima quanto distancia as pessoas neste ambiente urbano, o filme constrói com ironia, inteligência e delicadeza esta deliciosa possibilidade de romance.
 
Também em cartaz em Paris estava a comédia Gianni e Le Donne (Gianni e as Mulheres), em que o impagável Gianni Di Gregorio (ator, roteirista e diretor do premiado Almoço em Agosto) volta a atuar ao lado de sua incrível mãe (Valeria Di Franciscis).
 
A mãe sem noção, viciada em jogo e gastando mais do que tem, é uma dessas mulheres que percorrem a vida de Gianni, um aposentado cujo tempo e energia são disputados também pela mulher, a filha, a jovem e bela vizinha. Aprisionado numa espécie de bondade serviçal, o homem madurão está em conflito com seus desejos, que também envolvem mulheres, outras mulheres, sua própria falta de coragem e empenho.
 
Dando uma de Woody Allen latino, o diretor encontra um jeito de também comentar a Itália contemporânea, a insípida e vulgar era Berlusconi, através dos dilemas de seu protagonista, aposentado contra a sua vontade, e do namorado de sua filha, um jovem estudante para quem também não há emprego. Que país é este? Que mundo é este?
 
Tomara que Gianni e Le Donne encontre rapidinho também um distribuidor no Brasil. É um desses filmes que começam devagarinho a falar sobre pequenas coisas e acabam falando sobre quase tudo.

A pequena transgressão de Jafar Panahi em Cannes

Cannes – Exatamente há um ano atrás, o cineasta iraniano Jafar Panahi era notícia aqui em Cannes. Infelizmente, não por seus filmes, mas porque estava preso e em greve de fome, o que provocou protestos de vários de seus colegas - como o compatriota Abbas Kiarostami e a atriz francesa Juliette Binoche, que por ele verteu uma lágrima na coletiva de imprensa de Cópia Fiel.
 
Passou um ano e a situação de Jafar continua péssima. Ele saiu da cadeia mas está em prisão domiciliar, cumprindo sentença de seis anos, além de proibição de filmar por 20. Apesar disso, ele conseguiu romper o círculo de silêncio que se tenta impor a ele com a chegada por aqui de um novo filme dele, In Film Nist ou, em francês, Ceci N’Est Pas Um Film, parodiando a famosa obra de Magritte (Ceci N’Est Pas Une Pipe). Um filme de guerrilha, autodocumentário, feito com a cumplicidade indispensável de um colega e compatriota, o codiretor Mojtaba Mirtahmasb que, a partir de agora, passa a correr riscos também.
 
Saindo clandestino do Irã, o filme, simples até a medula, retrata o cotidiano solitário e claustrofóbico do diretor de O Balão Branco, O Círculo (Leão de Ouro em Veneza), Ouro Carmim, Fora de Jogo. Sem poder sair de seu belo apartamento e desfrutando da companhia insólita do iguana de sua filha, Igi, Jafar conversa com o colega, que o filma, com amigos e com a advogada, pelo telefone – procurando saber suas perspectivas no apelo que fez ao tribunal para suspender sua sentença – e com um rapaz que veio buscar o lixo, estudante de arte fazendo um bico e com quem o cineasta dá uma pequena saída no elevador, até o pátio de entrada de seu prédio. Uma pequena e documentada transgressão ao seu absurdo cárcere privado.
 
Mas o segmento mais comovente do filme é mesmo quando Jafar tenta encenar algumas partes de um roteiro que não pode filmar. Quando ele constrói com uma fita o cenário do quarto da protagonista e descreve a situação de opressão da personagem (é uma menina que entrou na faculdade de arte mas é trancada pelos pais para não se matricular), impossível não pensar na situação do próprio diretor. Aí dá um nó no peito de quem vê. Como aceitar essa estupidez, esse crime inominável que é privar um artista de sua voz?

Em Cannes, no ateliê do humanismo dos Dardenne

Outra dessas tardes ótimas de Cannes: passei a de ontem entrevistando Karim Ainouz e Alessandra Negrini, que exibiram na Quinzena dos Realizadores O Abismo Prateado e, logo depois, Cécile de France (foto) e os irmãos Dardenne, diretores do concorrente à Palma de Ouro Le Gamin au Vélo.
 
Já coloquei na cobertura diária do Cineweb ontem as colocações veementes de Karim, um dos melhores diretores brasileiros da nova geração, a favor da maior visibilidade cinematográfica do Brasil – que endosso inteiramente. Alessandra Negrini, por sua vez, é uma atriz muito ousada em suas escolhas em cinema. Famosa pelas novelas globais, ela não precisaria arriscar-se, como se arrisca, estrelando filmes autorais como os de Julio Bressane – ela esteve à frente de dois deles, Cleópatra e A Erva do Rato – e mesmo este O Abismo Prateado, em que ela se submete a uma exposição quadro a quadro de seu rosto e seu corpo para encarnar vividamente uma mulher abandonada.
 
Alessandra, é bom que se diga, é uma atriz sutil e sofisticada no trabalho que realiza no cinema e no teatro – onde, recentemente, eu a vi no elenco de A Senhora de Dubuque, um texto de Edward Albee, ao lado de Karin Rodrigues. Não quero dizer que seu trabalho na TV não seja igualmente bom, simplesmente não posso comentar, porque não acompanho novelas. Mas admiro esse empenho de Alessandra de trilhar caminhos que, a princípio, ela não precisaria trilhar, não tivesse uma ambição maior como artista que só se pode elogiar.
 
A belga Cécile de France, estrela do mais recente Clint Eastwood, Depois da Vida, é a intérprete também de Le Gamin au Vélo, de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Sentei-me bem ao lado dela na entrevista, no terraço de um destes grandes hotéis de luxo aqui. Constatei de perto o quanto ela é realmente linda – uma pele e um sorriso do outro mundo – e também dona de um carisma simples, de pessoa de carne e osso, ao mesmo tempo que iluminada por uma certa aura difícil de descrever, mas fundamental numa atriz.
 
Ao vê-la assim, ao vivo, entendo na hora porque os irmãos Dardenne a escolheram – é a primeira vez que recorrem a uma atriz famosa – para encarnar uma espécie de fada da vida real, a cabeleireira Samantha, cuja maternidade voluntária em relação a um menino abandonado de 12 anos (Thomas Doret) é decisiva na vida dele. Melhor ainda, ela é tudo isso e ainda tem uma naturalidade, uma falta de afetação, daquela pose de “eu sou a estrela”, que estraga tantas colegas. Parabéns, Cécile, continue assim!
 
Os irmãos Dardenne são a cara de seus filmes: pessoas ternas, delicadas, que ouvem pacientemente todas as perguntas e respondem com respeito a todas elas, mesmo as que com certeza já ouviram milhões de vezes (por exemplo, sobre como é trabalharem juntos e quem faz o quê no set). E conseguem sempre fazer colocações interessantes, como quando Jean-Pierre defende o final feliz desta nova produção, dizendo que o desespero e o ódio vencerem sempre já virou uma espécie de clichê. É mais uma dupla a cuja lucidez e persistência em fazerem filmes, nesse ateliê minimalista do humanismo, ao lado de Robert Guédiguian e Ken Loach, eu só posso agradecer.

Uma tarde com Piccoli, Guédiguian e Ariane

Cannes - Num mesmo dia, falei com Michel Piccoli, Robert Guédiguian e Ariane Ascaride. Todos pessoas adoráveis, daqueles raros em que a persona individual e artística não se contradizem. Por isso, a gente gosta tanto de vir a este festival.
 
Já conhecia Guédiguian e Ariane, que entrevistei em São Paulo há alguns anos, quando um amigo, Jorge Roldan, organizou uma benvinda retrospectiva desse cineasta marselhês de origem armênia que, cada vez mais, conjuga política com humanismo. Ariane é sua mulher e uma atriz de alto quilate, sempre merecidamente presente em seu elenco.
 
Na verdade, meu encontro com o casal Guédiguian-Ariane deveu-se à entrevista que fiz ontem à tarde com Piccoli, no Hotel Gray Albion, aqui em Cannes. Passei, aliás, uma hora adorável com o magnífico intérprete de 85 anos (que não aparenta nem um pouco!), ator inesquecível de mais de 100 filmes como A Comilança (de cujo admirável quarteto principal é o único sobrevivente), Themroc e Vou para Casa.
 
Em Habemus Papam, de Nanni Moretti, Piccoli interpreta o Papa em crise que foge do Vaticano para resolver sua crise pessoal. Para obter este papel, candidatíssimo ao prêmio de melhor ator, Piccoli submeteu-se a um teste, a pedido de Moretti. Uma circunstância que não incomoda nem um pouco este verdadeiro monstro sagrado do cinema e do teatro. Ele acha normal que os diretores queiram conferir se os atores, sejam quem sejam, encarnam aquilo que ele tem em mente.
 
O poder dos atores, para ele, é uma lenda. “No set, quem tem o verdadeiro poder é o diretor”, sustenta, sem afetação. Percebe-se sinceridade em cada fala deste homem loquaz, que fala olhando nos olhos seus interlocutores, nós, os felizes cinco jornalistas daquela rodada de conversas – eu, a única brasileira.
 
Para Piccoli, atuar “é uma paixão, mais que uma pretensão”. Assim, ele encara papeis e diretores um atrás do outro. Trabalhou com alguns dos melhores da Europa – Marco Ferreri, Marco Bellocchio, Louis Malle, Raoul Ruiz, Alain Resnais, Manoel de Oliveira. Aliás, no final da conversa revela que filmará em dezembro um novo projeto com o centenário mestre português. “O roteiro está pronto e o dinheiro, entrando aos poucos”, conta, sem dar mais detalhes do novo filme. Que, desde já, esperamos ansiosos.
 
Saindo em estado de graça desta conversa privilegiada, encontro no elevador Ariane, a primeira que reconheço, com sua longa cabeleira avermelhada, e Guédiguian. Cumprimento-os, lembrando a conversa em São Paulo e prometo ver seu novo filme, Les Neiges du Kilimandjaro, logo mais. Consigo cumprir a promessa, felizmente. Porque o que mais angustia, neste excesso de atrações em Cannes, é a falta de tempo para assistir tudo. Angústia “boa”, mas angústia, mesmo assim...

Cannes 2011 - A festa promete

Cannes 2011 está parecendo uma festa aonde a gente não vê a hora de chegar. Os filmes confirmados na competição e na seção Certain Regard, em boa parte, dão água na boca! Embora esteja faltando Brasil e América Latina nessa festa, mais uma vez...
 
O Brasil está bem representado no U.C.R. com o filme de estréia da dupla paulistana Juliana Rojas e Marco Dutra, Trabalhar Cansa. Os dois já mostraram em Cannes seus curtas Um Ramo (prêmio Découverte na Semana da Crítica 2007) e Um Lençol Branco (que concorreu no Cinéfondation 2005). Tomara que confirmem as expectativas, que são muitas, porque os dois até aqui mostraram estilo e personalidade. E, nesta importante seção do festival, eles têm pela frente nomes respeitabilíssimos, como o francês Robert Guédiguian, o coreano Kim Ki-duk e o francês Bruno Dumont.
 
Que a sorte acompanhe o curta carioca de Alice Furtado, Duelo Antes da Noite, que concorre no Cinéfondation, espaço reservado aos filmes de conclusão de curso de cinema. Que esse sangue novo do Brasil faça bonito e comprove que do lado de cá se anda fazendo cinema de qualidade, que deveria estar mais representado em Cannes, Veneza e outros festivais internacionais.
 
Passado o desabafo patriótico (e legítimo), a boa notícia é que Cannes este ano, se vem com a sua habitual esquadra eurocentrista, parece ter colhido os melhores de muitos países do continente, alguns com carteirinha muitas vezes carimbada na Croisettte:
 
Da Bélgica, os irmãos Dardenne (Le Gamin au Vélo), bicampeões de Palma de Ouro, tentando a terceira com mais um drama com foco nos conflitos da paternidade;
 
Da Espanha, Pedro Almodóvar, com La Piel que Habito, em que Antonio Banderas tenta (e deve conseguir) voltar ao seu melhor num drama tenso, que gira em torno da vingança de um cirurgião plástico, inspirado num livro do francês Thierry Jonquet. Pela primeira vez, Don Almodóvar dará a Cannes a honra de uma première mundial (seus filmes anteriores que concorreram por lá sempre tinham estreado há pouco na Espanha);
 
Da Itália, vem uma dupla talvez dos seus dois melhores diretores: Nanni Moretti, que já venceu a Palma em 2001 com O Quarto do Filho e agora vem de Habemus Papam – em que ele mesmo contracena com Michel Piccoli, o Papa, interpretando seu terapeuta; e Paolo Sorrentino (o diretor do excelente Il Divo, que ficou sem distribuidor no Brasil), agora atacando com um filme americano, This Must Be the Place (foto), em que Sean Penn é um astro de rock decadente e que aparece de cabelão e batom;
 
Da França, o trio é o mais divergente possível: o veteraníssimo do circuito de arte, Alain Cavalier – que foi homenageado ano passado com uma retrospectiva no É Tudo Verdade – com Pater, outra produção mega-intimista em que ele contracena com Vincent Lindon (conhecido por Bem-Vindo); o alternativo Bertrand Bonello (Tirésia), com o drama ambientado numo bordel, no início do século XX, L’Apollonide – Souvenirs de La Maison Close; e Maiwenn,uma das três mulheres competindo pela Palma 2011, com a sátira social Polisse, em que ela (irmã da atriz Isilde Besco) também atua;
 
Da Dinamarca,outros dois com retrospectos distintos: o homem-show Lars Von Trier, que já venceu Palma com Dançando no Escuro (2000), sacudiu Cannes estes anos todos com Dogville, Manderlay, ano passado com Anticristo (que levou prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourgh), e agora tematiza o fim do mundo em Melancolia, com Kirsten Dunst e Charlotte, de novo. Emoção garantida, gostando ou não; com perfil mais discreto, seu compatriota Nicolas Winding Refn apresenta uma produção americana, Drive, baseada em livro de James Sallis, acompanhando a vida perigosa de um motorista/dublê que faz bicos para assaltantes;
 
Ainda na ala nórdica, da Finlândia volta Aki Kaurismaki (duplamente premiado em Cannes por seu Homem sem Passado em 2002), agora mostrando Le Havre, onde o tema da imigração bate forte;
 
Da Turquia, outro habituê premiado de Cannes, Nuri Bilge Ceylan (Uzak/Distante, Three Monkeys, Climas), mais uma vez concorrendo com Once Upon a Time in Anatolia;
 
Da Escócia, vem a segunda mulher da competição, a muita apreciada Lynne Ramsay, que concorreu em Cannes em 1999 com Ratcatcher e retorna com um drama, baseado em livro de Lionel Shriver, We Need to Talk about Kevin – que trata de um tema candente agora no Brasil, um massacre numa escola. No elenco, Tilda Swinton e John C. Reilly;
 
Da Áustria, um estreante, Markus Schleizer (diretor de elenco de vários filmes de Michael Haneke, incluindo A Fita Branca), traz o drama Michael;
 
Da Romênia, chega o Radu Mihaileanu que se tornou conhecido e premiado, merecidamente, com seu Trem da Vida (98), mas que depois disso teve trajetória bem irregular, incluído aí seu recente O Concerto; em Cannes, ele mostra uma comédia, La Source des Femmes.
 
Finda esta longa seleção européia, que parece muito promissora (a safra parece de alto nível, ao contrário do mediano 2010 em Cannes), os outros continentes contribuem com outros concorrentes que dão muita vontade de conferir:
 
Dos EUA, o longamente esperado A Árvore da Vida (com estréia brasileira marcada para junho), de Terrence Malick, que tematiza o sentido da vida e a paternidade, juntando pela primeira vez os talentosos Sean Penn e Brad Pitt;
 
Do Japão, uma dupla de estilos opostos: a suave e intimista Naomi Kawase (terceira mulher da competição do ano), que já foi vencedora de um prêmio do júri em Cannes pelo belo A Floresta dos Lamentos (2007), agora embalando um misterioso filme de época, ambientado no ano 500, Hanezu no Tsuki; e o adrenalínico Takashi Miike, com mais um filme no universo dos samurais, Ichimei – que será o primeiro filme em 3D a competir em Cannes.
 
Da Austrália, a segunda estreante da competição, Julia Leigh e seu certamente inquietante Sleeping Beauty, onde ela adapta o próprio livro e acompanha a jornada de uma jovem universitária (Emily Browning, de Sucker Punch) coagida à prostituição;
 
De Israel, vem outra drama explorando conflitos da paternidade, Footnote, de Joseph Cedars, uma sequência de Beaufort, seu filme de guerra indicado ao Oscar 2007.
 
Enfim, o filé parece estar por aí – se bem que seleções alternativas, como a Semana da Crítica e a Quinzena dos Realizadores sempre abram espaço para boas descobertas (as listas devem ser divulgadas nos próximos dias).
 
Fora da competição, todo mundo (eu também) gostaria de conferir o Piratas do Caribe 4 – mas vai ser daquelas sessões em que sua integridade física literalmente corre risco. Com mais de 4.000 jornalistas credenciados a cada ano, alguns deles particularmente afoitos e brutões, melhor não arriscar... Anos atrás, um amigo meu perdeu a unha do dedão (literalmente) com o pisão de um “colega” na fila de uma sessão dessas, acho que de Indiana Jones – A Caveira de Cristal...

Um dia com Marina Goldovskaya

“Que lindo brinco! Que pedra é esta?”
 
Quando alguém que repara no seu brinco é Marina Goldovskaya, a sensação é de total surpresa. Porque, por aquele olhar atento da documentarista mais famosa da Rússia – que descubro que é também uma mulher vaidosa - passaram acontecimentos cruciais da antiga URSS ditatorial e burocrática, depois, os ventos da liberdade da era Gorbachev e, finalmente, a decepção e desesperança do novo autoritarismo dos anos Putin/Medvedev. Um olhar que não perde um detalhe e confere novo sentido a tudo.
 
Tive o privilégio de passar um dia com ela, o domingo (10-4), quando mediei um encontro da cineasta com o público no Instituto Moreira Salles, que encerrou o Festival É Tudo Verdade no Rio. Marina, que foi homenageada com uma retrospectiva de 9 filmes, lançando em première mundial aqui O Gosto Amargo da Liberdade, foi a convidada de honra do festival.
 
Enérgica e doce ao mesmo tempo, ela é a combinação ideal de um ser humano. Mais uma vez, no IMS-RJ, ela exerceu sua inteligência clara e persistente, sua cultura sem artifícios, adquirida ao longo de décadas de prática de seu ofício.
 
Mulher pioneira, ela tornou-se uma das primeiras câmeras e diretoras na URSS dos anos 60, driblando o machismo nada velado de seu tempo (vigente não só em seu país). Sem choro nem vela, mostrou ao que veio e calou os preconceituosos. Hoje é uma documentarista não só premiada, mas que tem a seu crédito uma obra que tomou o pulso de sua época e de sua pátria, além de transformar sua própria vida pessoal em matéria-prima de seus filmes – que, por isso, aderem à memória com a cola da autenticidade.
 
Marina repetiu no IMS uma colocação que consta de sua inestimável autobiografia (Woman with a Movie Camera, lançada pela Universidade do Texas e não disponível em português): “Através de meus filmes, consegui não mentir”.
 
E não mentiu também sobre suas próprias fragilidades como profissional no início da carreira, que foram se desvanecendo ao longo de seu incansável processo de aprendizado e amadurecimento.
 
Marina deu uma amostra de seu certeiro humor quando comentou seu abandono do Cinema Direto – que ela experimentou intuitivamente no começo da carreira, numa URSS praticamente isolada de influências externas, nos anos 60 -, deixando para trás a tentativa de invisibilidade do estilo que se identifica como “fly on the wall” (mosca na parede) em favor de uma colocação cada vez mais pessoal, em O Espelho Estilhaçado, A Sorte de Nascer na Rússia e O Gosto Amargo da Liberdade. Jocosamente, ela descreveu suas razões: “Foi simples. Não sou uma mosca, estou aqui com as pessoas”.
 
E as pessoas, os seus personagens, ela ama acima de tudo.
 
E em ninguém mais ela amou o humano do que no retrato da lutadora jornalista Anna Politikovskaya, assassinada em 2006, que emerge do díptico Um Gosto de Liberdade e O Gosto Amargo da Liberdade.
 
Se hoje Marina não nega que os russos vivam melhor do que nos tempos da URSS, ela também não se esquiva de lamentar o assustador resultado de uma pesquisa, apontando Josef Stálin como a figura política mais popular da nação. Por conta disso, filmes dela, como Anatoly Rybakov – A História Russa – escritor que fez uma severa crítica do stalinismo que o perseguiu, como a tantos outros -, não encontram espaço para exibição na Rússia, mesmo na TV.
 
Com a morte de Anna Politkovskaya, Marina tornou-se, à sua revelia até, mais do que nunca uma voz essencial de denúncia dessa nova Idade das Trevas política da pátria de Dostoiévsky, Tolstoi, Stravinsky, Rachmaninov, Tchecov...
 
Longa vida e muita saúde, doce Marina, de quem sempre me lembrarei na tarde ensolarada do Rio em que compartilhamos uma sobremesa e uma paisagem idílica, no forte de Copacabana. Marina passou o dia lamentando não ter trazido sua câmera para gravar esse momento, assim como os rostos tão múltiplos, de cariocas e turistas, que passavam por nós. Eu também lamento que o Brasil não tenha entrado ainda para as imagens especiais de Marina...
 
Volte logo, Marina! E traga seus colares vermelhos e seu perfume (que eu não conto qual é), para a gente comentar de novo também...

As estrelas que amamos: Liz Taylor e outras

Nunca houve uma estrela como Liz Taylor, que perdemos nesta semana. Beleza, garra, um gênio forte e uma grande coragem fizeram dela uma personagem única e inesquecível.
 
Estrelas, em sua época, como hoje, sempre existiram muitas. E Liz tinha semelhanças com algumas – o fato de ter sido atriz infantil e uma coleção de problemas de saúde, como Judy Garland; e uma sexualidade marcante, como a loira Marilyn Monroe.
 
Mas a morena Liz nunca foi triste como nenhuma das duas, embora tragédias não lhe tenham faltado na vida – ou escândalos. A mídia de celebridades deliciou-se com seus diversos casamentos - várias vezes rompendo matrimônios, seus e dos futuros parceiros -, com suas bebedeiras, problemas com drogas e particularmente com a tempestuosa relação com o duas vezes marido Richard Burton. Não raro com reconciliações emolduradas por diamantes, os melhores amigos de Liz.
 
Liz nunca foi santa nem pretendeu ser – ponto pra ela. Não deu bola para a mídia – que ela manobrou muito bem -, nem pro Vaticano (por que é que eles têm que se meter com essas coisas?), nem pra ninguém. Virou dona de seu próprio nariz muito cedo, aos 18 anos, casando-se com o herdeiro da cadeia de hoteis Hilton, para livrar-se da mãe dominadora e dos executivos do estúdio Metro. Quando o marido começou a bater nela, livrou-se dele também, com apenas seis meses de união.
 
A menininha frágil, sempre encantadoramente linda, pele impecável, rosto simétrico, nariz empinado e um arco de sobrancelhas que delimitava o horizonte irresistível de seus olhos violeta, tornou-se uma mulher dona de sua vida – capaz de impor o primeiro cachê de US$ 1 milhão pago a uma atriz, ainda com direito à escolha de diretor de sua confiança (Joseph L. Mankiewicz) para o filme Cleópatra (1963) – que ela nem queria fazer, não foi bem de bilheteria, mas serviu para mostrar com quem é que os estúdios estavam falando. De quebra, foi aí que ela conheceu Burton...
 
De nada serviria esse topete se não houvesse por trás dele também uma atriz incrível – e é por isso que ela merece ser lembrada, como uma das grandes. Seus filmes como Um lugar ao sol (1951), Assim caminha a humanidade (1956), Gata em teto de zinco quente (1958), De repente, no último verão (1959), Quem tem medo de Virginia Woolf ? (1958, que lhe deu seu segundo Oscar), O pecado de todos nós (1967), sem querer esgotar o assunto, bastam para comprovar, com sobras.
 
Hoje, estrelas, como Angelina Jolie, adotam crianças de países pobres, aderem a causas ecológicas. Liz, por sua vez, liderou a campanha para o combate à AIDs, não tendo medo de ligar seu nome a uma doença na época maldita, combatendo não só o preconceito contra o mal, como contra o homossexualismo – que amigos seus, queridos, como Rock Hudson e Montgomery Clift não puderam assumir, na Hollywood travada de sua época.
Liz não temia a companhia dos malditos como, num certo momento, a mídia transformou Michael Jackson – que ela nunca abandonou diante de qualquer acusação. Os dois, provavelmente, tinham muito em comum, a partir da infância sacrificada pela carreira do show business. Mas Liz sabia que podia ser a leoa sempre, a quem ninguém podia domar. E usou sempre isso muito bem.
 
Hoje continuamos tendo estrelas dignas desse nome, sim – como Juliette Binoche que, além da beleza única (que amadurece tão bem junto com seu talento) também exerce, delicadamente, mas com firmeza, suas posições quando é preciso. Como quando ela derramou uma lágrima pela prisão do cineasta iraniano Jafar Panahi, no ano passado, em Cannes, ou quando usou um chador num filme de Abbas Kiarostami, inédito no Brasil, Shirin (2008) – o que lhe valeu uma polêmica considerável na França, onde o uso desse tipo de adereço religioso (para qualquer religião) foi banido das escolas.
 
É de estrelas assim que a gente precisa.