04/06/2026

Diretora Valérie Donzelli aborda precarização do trabalho em novo filme

Valérie Donzelli (crédito: Joséphine Brueder/Ville de Paris)

Atriz experiente e diretora conhecida no Brasil porA Guerra Está Declarada (2012) e Marguerite & Julien: Um Amor Proibido (que concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2015), Valérie Donzelli visitou o Brasil pela primeira vez no final de novembro, participando do Festival de Cinema Francês do Brasil. Ela veio mostrar seu filme mais recente, Mãos à Obra, que venceu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza 2025, abordando um tema difícil: a precarização do trabalho, um universo em que mergulha Paul Marquet (Bastien Bouillon), um homem que não hesita em cair na pobreza para não desistir de ser escritor.

Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo a Neusa Barbosa, do Cineweb, a diretora francesa discorre sobre o filme, que se baseia em livro autobiográfico de Franck Courtès.

O problema da precarização do trabalho ocorre em todo mundo, e eu penso que você tocou num ponto sensível. Como decidiu fazer um filme sobre este assunto?

Quando li o livro de Franck Courtès, me identifiquei com esses dois aspectos - a dificuldade de ser artista e de ganhar sua vida não fazendo concessões em relação à radicalidade de sua obra e do sentido que ela deve ter e, ao mesmo tempo, a maneira como ele descreveu esse novo modo de trabalho, essa uberização do trabalho, me pareceu apaixonante porque é algo que observo. E, neste momento, chega um elemento novo, a inteligência artificial. E a uberização do trabalho é quase o passado. A nova revolução vai ser a da inteligência artificial.

Trata-se de um novo inimigo?

Não sei se é um novo inimigo porque traz também efeitos positivos. Em todo caso, é certo que vai criar uma mudança enorme na forma de trabalhar. No cinema e em todas as áreas, porque todo mundo se utiliza da inteligência artificial hoje.

Bastien Bouillon, protagonista de "Mãos à Obra" (Crédito: Divulgação)

Criando uma necessidade de novas regulações, por exemplo.

Sim e é curioso como as coisas caminham muito rápido. Por isso, eu me dei conta de que era agora que era preciso falar dessa nova forma de trabalho, a uberização, que ocorre em todos os lugares, é universal, e que não protege absolutamente os trabalhadores de maneira alguma.

E o escritor escreve sobre sua própria experiência autobiográfica.

Sim, mas, no caso dele, é por escolha própria. Ele passa por isso para se pagar as horas que gasta em sua escrita. Ele não passa por uma urgência vital ou por falta de documentos. Ele é pobre mas, como ele diz no livro, é um “pobre rico”, não é realmente um pobre e ele tem total consciência disso. E o que ele conta é como ele vai se desvencilhar disso. No fim, ele conta como vai criar sua própria economia, trabalhando precariamente nas plataformas da internet, criando uma pequena rede e utilizando alguns auxílios governamentais que temos na França. Como a RSA, para as pessoas sem renda, para garantir um mínimo para sobrevivência, que hoje gira em torno de 150 euros e atende moradores de rua, por exemplo. Para que tenham um pequeno telefone e um mínimo para sobreviver. O escritor tem isso, trabalha e vive de maneira muito, muito modesta.

Além disso, ele sofre de uma extrema solidão, porque sua família e seus amigos não compreendem sua opção.

Há relações sociais que se criam através do dinheiro, da renda. Quando ele não pode mais ir ao cinema, não pode mais ir ao restaurante, não pode mais convidar alguém para jantar, convidar as pessoas à sua casa. Ele vive como um estudante, na verdade.

A interpretação de Bastien Bouillon é muito comovente. Como você o escalou para o papel?

Eu o conheço há bastante tempo. É minha quarta parceria com ele. O que aprecio nele é que é como uma página branca, você pode projetar tudo sobre ele. E eu precisava de um ator que fosse enigmático, que fosse, de fato, um espelho dos outros. E Bastien tinha essa capacidade natural, essa sensibilidade de atuação, essa integridade que torna magnífico trabalhar com ele.

Como funciona para você ser atriz, roteirista e diretora ao mesmo tempo?

Em Mãos à Obra, eu interpreto apenas um pequeno papel. Quando tenho um papel mais longo, acho que o fato de ser atriz ajuda para sentir o peso da direção. De todo modo, quando faço filmes hoje me sinto mais legítima como cineasta mas penso que me vêem também como atriz. Amo contar histórias, dirigir, mas atuar também num papel num filme meu é diferente de me submeter ao olhar de outra pessoa.

Porque você continua a atuar bastante nos filmes de outros diretores.

Sim, tenho outros projetos como atriz. Adoro atuar.

Penso que, neste momento, há várias diretoras surgindo no cinema francês, como você, Audrey Diwan, Anne Cazenave Cambet, que esteve no Brasil há pouco.

Sim, há mais diretoras agora do que quando eu comecei. E eu penso que isto provenha de uma política francesa para atribuir orçamentos a mulheres, lutamos bastante por uma paridade entre homens e mulheres. Porque o próprio sistema de produção francês tem um mecanismo para redistribuir o dinheiro, um sistema muito proveitoso.

Porque no Brasil e outros lugares o que muitas vezes se reclama é que as mulheres não têm acesso aos grandes orçamentos.

Na França ocorre o mesmo. Os grandes orçamentos são destinados em grande maioria aos homens, não sei porque, se é pelo tipo de histórias que eles contam, não sei. Mas acho que isso começa a mudar, porque há mulheres que começam a ter sucesso, ganham a Palma de Ouro e tudo isso. Quando você é mulher, deve se provar duas vezes mais.