A Transformação de Canuto dilui um mito entre documentário e ficção
- Por Neusa Barbosa
- 16/12/2023
- Tempo de leitura 3 minutos
Brasília - O festival fechou com chave de ouro sua mostra competitiva com a passagem da docuficção A Transformação de Canuto, em que os diretores Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho investigam uma figura mítica numa comunidade Mbyá-Guarani, na fronteira entre Brasil e Argentina. Canuto, o personagem, teria sido um habitante local que, há cerca de 50 anos, teria progressivamente se tornado mais selvagem e arredio e finalmente se transformado em onça. O filme se apropria das várias versões orais que circulam entre os indígenas sobre ele e que alimentam o imaginário de adultos e crianças. Membros da aldeia, inclusive o próprio diretor Ariel, interpretam Canuto nas diversas fases de sua vida. Ao mesmo tempo, o filme volta sua câmera para seus bastidores, numa auto-interrogação sobre a própria narrativa, linguagem, enfim, sobre o próprio cinema. Essa originalidade motivou que A Transformação de Canuto tivesse uma dupla vitória no mais recente Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, em que, na mostra Envision, venceu como melhor filme e melhor contribuição artística.
Ambos os diretores têm sua história ligada ao projeto Vídeo nas Aldeias, cujo idealizador, Vincent Carelli, diretor de Martírio e Corumbiara, aqui atua como produtor.
Originalidade
O que torna o filme tão instigante quanto desafiador é essa proposta de sobrepor suas próprias camadas, ao mesmo tempo documentando todo o processo de escuta das diferentes versões sobre Canuto quanto a recriação dos episódios conhecidos sobre ele - assumindo a incerteza sobre quem ele realmente foi e as razões por trás de sua inusitada trajetória, à qual não faltam aspectos sombrios.
Voltando sua câmera para os realizadores e membros da comunidade - entre eles, o avô de Ariel, Dionísio, que guarda uma das memórias mais completas de sua cultura -, o filme incorpora também de que maneira os indígenas fabulam os acontecimentos de suas vidas, com um modo todo próprio de modular o tempo e as múltiplas visões da, digamos, verdade. Esta, talvez, seja a maior contribuição do filme, fornecer elementos para olhar mais de perto a complexidade das culturas indígenas e compartilhar parte de sua poderosa ancestralidade.
Ernesto de Carvalho e Ariel Kuaray Ortega, diretores do filme "A Transformação de Canuto" | Crédito: Neusa Barbosa
Premiação
Nesta noite de sábado (16), serão anunciadas as premiações do festival, que contou como pontos altos, além de A Transformação de Canuto, longas como o documentário No Céu da Pátria neste Instante, em que Sandra Kogut capta com energia e eventualmente ternura parte do turbilhão entre as eleições presidenciais de 2022 e o dia seguinte ao 8 de Janeiro, e a delicadeza do romance O Dia que Te Conheci, de André Novais Oliveira, um filme que fala do tão necessário amor sem deixar de ressaltar, organicamente e sem discurso, o quanto é dura a vida dos trabalhadores negros no Brasil. Na mesma linha, Mais Um Dia, Zona Norte, de Allan Ribeiro, um híbrido entre documentário e ficção, fixou na tela personagens populares de uma região não muito conhecida do Rio.
Cartório das Almas, de Léo Bello, registrou a coragem de realizar um filme de ficção científica de maneira independente, numa produção cuidada que pode aspirar a várias premiações técnicas. E o musical Nós somos o amanhã, de Lufe Steffen, talvez deveria contentar-se com ter sido o objeto não-identificado da seleção deste ano.
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