21/07/2026

André Novais resgata a ternura em O Dia que te Conheci

Brasília - Uma crônica do amor na periferia de Belo Horizonte emocionou nesta quarta (13) a plateia do Cine Brasília, com a passagem de O Dia que Te Conheci, do premiado diretor mineiro André Novais Oliveira - grande vencedor em Brasília com Temporada (2018), também, como aqui, uma parceria com a atriz Grace Passô, e Ela Volta na Quinta (2014), que venceu os prêmios para os dois atores coadjuvantes. Retratando de forma quase documental as atribulações de Zeca (Renato Novaes), bibliotecário de uma escola que enfrenta a depressão, o enredo contempla as atribulações de uma pessoa comum, urbana, que luta pela sobrevivência, depende de seu trabalho e está tendo dificuldades em mantê-lo. Aos poucos, abre-se espaço na história para a participação de Luísa (Grace Passô).

Também funcionária da escola, na supervisão, ela entra na vida de Zeca num dia que foi particularmente desafiador, esboçando um relacionamento possível, cheio de um colorido sutil - como toda a obra do diretor. Assim, cria-se condições para tratar de temas duros, como a dependência de remédios, sem resvalar na superficialidade, no moralismo nem na pieguice.

Uma das melhores qualidades de André Novais é como ele consegue entrelaçar os tons de tragédia e comédia, infiltrando um humor sutil nos diálogos e extraindo uma cumplicidade verdadeiramente solar entre seus intérpretes. Isto dá ao filme uma atmosfera de viagem em que qualquer espectador se sente convidado a embarcar. Ninguém quer perder aquele ônibus, deixar de comer aquele pastel, tomar aquela cerveja e beijar aquela pessoa cujo encontro um quase desastre tornou possível. É possível ver também em O Dia que Te Conheci um processo de cura de um País que se sentiu recentemente tão aviltado e maltratado, por vicissitudes políticas e econômicas de toda ordem. Zeca e Luísa são sobreviventes de todo o turbilhão recente da nação, carregando seus traumas e feridas, mas capazes de compartilhar suas dores de maneira a encontrar um sentimento comum, de paixão, humor, tudo isso capaz de construir um novo afeto. E também de encontrar alimento na Padaria Espiritual que aparece na última sequência - uma referência a Carlão Reichenbach, outro cineasta que amava as pessoas comuns acima de todas as coisas.


Grace Passô, Renato Novaes e André Novais Oliveira, atores e diretor de "O dia que te conheci" Crédito: Neusa Barbosa

Animação
Um destaque da noite foi outro filme mineiro, o curta Dona Beatriz Nsimba Vita, em que o diretor, o artista plástico Catapreta, mergulha na cultura africana, nas lendas em torno de uma personagem real congolesa do século XVII, a líder rebelde Beatriz Kimpa Vita, compondo uma história de técnica admirável sobre uma mulher que cria seu povo a partir de partes do próprio corpo - o que remete às torturas e à execução da própria Beatriz pela Inquisição.