21/07/2026

Sandra Kogut interroga com ternura a divisão do País

Brasília - Como era de se esperar, não haveria melhor lugar no mundo do que o Festival de Brasília para a première do documentário No Céu da Pátria Nesse Instante, em que a cineasta carioca Sandra Kogut (foto abaixo) se arrisca a investigar acontecimentos muito recentes do País, como as eleições de 2022 e os tumultos do 8 de Janeiro, para tomar o pulso de uma realidade dividida, polarizada, contando com personagens de todos os tipos: de funcionários anônimos da Justiça Eleitoral da Ilha do Marajó (PA), que se desdobram para que as eleições ocorram a contento, a candidatos como Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro, passando por um comerciante e uma família bolsonaristas.

Enfileirando sequências da campanha dos dois lados, a angústia das apurações, a comemoração dos petistas nas ruas, a posse de Lula e também imagens assustadoramente próximas das depredações do 8 de Janeiro, a cineasta carioca capta o carrossel de emoções que varre o Brasil, colocando essa dúvida: será que conseguimos estabelecer um território comum para que todas as posições consigam conversar?

E não faltou catarse na plateia do Cine Brasília, que respondeu ao filme, respirou junto, vibrou, gritou e cantou a plenos pulmões na parte final, junto com Juliano Maderada, seu hit “Tá na Hora do Jair Já Ir Embora” - que estava sendo composto enquanto o filme se desenvolvia.

Urgências
Certamente, este é o primeiro mas não deve ser o último filme a respeito de todos estes acontecimentos tão vitais para o País, realizado ainda a sangue quente, sem a perspectiva do distanciamento temporal, mas com a vantagem da memória ainda tão viva - e essa memória é que produz o engajamento do público a No Céu da Pátria Nesse Instante.

Um mérito é a escolha de personagens que são capazes de carregar a narrativa com suas atitudes, idéias e emoções - inclusive o vendedor da avenida Paulista, que vende toalhas tanto de Bolsonaro quanto de Lula, mas é bolsonarista (“aqui eu sou loja”, diz ele aos compradores de toalhas de Lula) e, mais ainda, a família bolsonarista, em que o pai é caminhoneiro e promete que “se Lula vencer, vendo meus dois caminhões e saio do País”. Essa família, aliás, é o melhor retrato de uma classe média evangélica, que acredita em fake news como a fraude nas urnas eletrônicas - embora não consiga explicar de onde vem essa convicção num esclarecedor diálogo com a diretora -, movida por pregações de seu pastor, que mistura no mesmo discurso uma toada anticomunista que cita o TSE e o Supremo Tribunal Federal.
Tanto os bolsonaristas quanto os petistas, como a delegada do partido que fiscaliza locais de votação e a militante da campanha de Freixo e André Ceciliano, no Rio, são ouvidos com honestidade, sem caricaturização, traduzindo a clara intenção de entender como é que se estabeleceu esse muro, essas realidades paralelas que não encontram um denominador comum para se ouvir e conversar. Mas, além disso, No Céu da Pátria Nesse Instante é também um eloquente retrato de tantos anônimos que, com sua atuação miúda, cotidiana, invisível, constróem a democracia no Brasil.


A diretora Sandra Kogut | Crédito: Neusa Barbosa

Curtas
Na seção de curtas da competição, os dois representantes da noite foram dirigidos por diretoras. Filmado no interior do estado de São Paulo, Cidade by Motoboy, de Mariana Vita, embarca no cotidiano instável de um motoqueiro entregador de aplicativo (Jorge Neto), pontuando com delicadeza a aridez de seus dias, sua angústia e necessidade de afeto.
Pastrana, de Melissa Brogni e Gabriel Motta (RS), por sua vez, é um relato intimista das memórias da skatista de downhill Melissa Brogni de seu amigo Pastrana, morto numa prova, com imagens feitas por ela que reproduzem os percursos arriscados desses esportistas.