21/07/2026

Brasília abre festival com homenagens, vaias e batuque

Brasília - O festival não negou sua vocação, unindo política e cinema desde a primeira noite. Teve de tudo no Cine Brasília ontem: homenagens emocionadas a figuras relevantes da arte e da cultura, como o ator Antônio Pitanga, a cineasta e professora Dácia Ibiapina e a artista Maria Coeli; o batuque empenhado das mulheres do grupo Batalá Brasília; vaias para Fernando Borges, presidente da Associação Amigos do Futuro, parceiro do governo do DF na organização do festival, e gritos de “Fora Ibaneis” (o governador); compromisso público da secretária do Audiovisual, Joelma Gonzaga, com a proteção do arquivo do cineasta Vladimir Carvalho, a luta pela regulamentação do VOD (vídeo on demand), atualmente no Congresso, e pela defesa da cota de tela do cinema brasileiro. E claro que também teve cinema, com o filme de abertura, inédito no País, Ninguém sai vivo daqui (foto ao lado), drama de André Ristum que ficcionaliza acontecimentos no hospício de Barbacena (MG), onde se estima que teriam morrido cerca de 60.000 pessoas por maus-tratos e violência, até os anos 1980 - uma tragédia que cria uma conexão com as recentes milhares de mortes pela Covid, ocorridas também por descaso público mas que se verificaram, no entanto, em muito menos tempo.

Drama em P&B

Com um tema assim tão pesado, ainda mais baseado em fatos reais - relatado em livros como "Holocausto Brasileiro", de Daniela Arbex, em que se baseou o roteiro e objeto da série A Colônia - Ninguém sai vivo daqui talvez não fosse o filme que se espera para uma abertura festiva, na primeira edição do histórico festival desde a recriação do Ministério da Cultura, no início deste ano. Mas certamente tem o mérito de resgatar um assunto nebuloso, varrido para debaixo do tapete, sobre as mazelas e os crimes cometidos no manejo das doenças mentais no Brasil, especialmente quando envolve as camadas mais pobres da população, transformando as internações forçadas em instrumento de repressão política, social e até moral.

A rigor, o que o filme denuncia é que várias das pessoas internadas no hospital de Barbacena nem sofriam realmente de doenças mentais, uma violência consentida por médicos e autoridades. Na história, ambientada em 1971, as personagens principais são Elisa (Fernanda Marques), uma garota filha de fazendeiro, internada depois de engravidar do namorado; Wanda (Rejane Faria, de Marte Um, como sempre, excelente), mulher que vive na instituição há 30 anos e foi posta ali pelo mesmo motivo, uma gravidez sendo solteira; e uma jovem que é amante do prefeito e ali mantida por ele (Andreia Horta). Assinado por Ristum, Marco Dutra e Rita Glória Curvo, o roteiro assinala a claustrofobia de um mundo sombrio - o que é reforçado pela fotografia em preto-e-branco -, em que é fácil ter empatia com o sofrimento das vítimas, dominadas por um funcionário abusivo (Augusto Madeira), cujo comportamento caricatural ressalta o flerte com o filme de gênero, no caso, o terror.


André Ristum (diretor) do filme "Ninguém sai vivo daqui", Anna Karina de Carvalho (diretora artística do festival) e Fernanda Marques, atriz do filme Crédito: Neusa Barbosa

Nesta sua primeira noite competitiva, no domingo, o festival muda a chave, abrindo espaço para o documentário
No Céu da Pátria Neste Instante, de Sandra Kogut, que discute os dramáticos acontecimentos que abalaram a capital do País em 8 de janeiro. Nenhum lugar melhor do que neste festival para tratar disso.