“Dahomey” vence Urso de Ouro; paulista Juliana Rojas é melhor diretora em mostra paralela
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 23/02/2024
- Tempo de leitura 8 minutos
Berlim - Afinal, foi novamente para um documentário vindo da França o Urso de Ouro 2024 - Dahomey, da diretora franco-senegalesa Mati Diop, que acompanha a devolução de peças roubadas do Benin pelo colonialismo francês no século 19, mesclando um tom realista e um toque fantástico na narrativa. Em 2023, o vencedor do Urso foi No Adamant, de Nicolas Philibert.
Em seu agradecimento, como muitos outros diretores, atores e membros do júri, Mati Diop manifestou-se a favor de um cessar-fogo imediato na Palestina, além de declarações contra o esquecimento dos males do colonialismo, reafirmando o tom político da Berlinale.
Nas premiações, foi lembrada a produção dominicana Pepe, de Nelson Carlos de los Santos Arias, vencendo o Urso de Prata de melhor direção por um filme que se movimenta com toda a liberdade narrativa e formal para lembrar a história de um hipopótamo trazido à Colômbia pelo traficante Pablo Escobar e que se tornou um símbolo das contradições que marcam a região.
O cineasta sul-coreano Hong Sangsoo emplacou seu quarto Urso de Prata com o Grande Prêmio do Júri para A Traveler’s Needs, estrelado pela francesa Isabelle Huppert. Ao agradecer, expressou uma ironia dúbia quando disse ao júri: “Não sei o que vocês viram no meu filme”. E com uma certa razão, já que não se trata de uma de suas melhores obras, nem entre as mais notáveis deste festival.
Pior foi um prêmio da importância do Prêmio do Júri ser destinado à ficção científica francesa L’Empire, de Bruno Dumont, um dos títulos mais questionáveis desta edição. Já um título forte como o alemão Dying, de Matthias Glasner, teve que contentar-se com o Urso de Prata de melhor roteiro, o que foi muito pouco para um drama sólido e consistente como esse.
Atuações
A melhor atuação coadjuvante ficou para a atriz inglesa Emily Watson, que incendeia a tela com poucos minutos no drama irlandês Small Things like These, de Tim Mielants, interpretando uma madre bastante perversa num drama que recorda a exploração de mulheres pelos conventos das irmãs Madalenas, numa história ambientada em 1985 e protagonizada por Cillian Murphy.
Foi um tanto surpreendente a melhor atuação de protagonista ficar para Sebastian Stan, pelo drama fantástico norte-americano A Different Man, de Aaron Schimberg, quando muita gente esperava que ficasse para Lars Erdinger, protagonista do alemão Dying.
A lista de esnobados na premiação é enorme, começando pelo bom drama dinamarquês Vogter, de Gustav Möeller, o documentário alemão Architecton, de Victor Kossakovsky, e o drama francês Langue Étrangére, de Claire Burger. O bom drama austríaco The Devil’s Bath ficou apenas com um Urso de Prata de contribuição artística para o diretor de fotografia Martin Gschlacht. E o celebrado drama iraniano My Favourite Cake, de Maryam Goddam e Behtash Sanaeeha, por sua vez, só foi premiado pelos júris da Fipresci e o ecumênico
Brasil em Encounters
O Brasil foi lembrado na premiação da seção Encounters, com o importante prêmio de melhor direção para Juliana Rojas, que aqui apresentou o filme Cidade; Campo, reunindo duas histórias em torno de deslocamentos e afirmação de mulheres. Nesta seção, foram premiados também Direct Action, de Ben Russell e Guillaume Cailleau (França/Alemanha), vencedor como melhor filme, além da divisão do prêmio Especial do Júri para o iraniano The Great Yawn History, de Aliyar Rasti, e Some Rain Must Fall, de Qiu Yang (China/EUA/Cingapura/França).
O Urso de Ouro de melhor curta foi para o argentino Un Movimiento Estraño, do diretor Francisco Lezama. E o melhor documentário foi o palestino No Other Land, de Basel Adra, Hamdam Ballal, Rachel Szor e Yuval Abraham, um coletivo que trabalhou por cinco anos neste filme que denuncia a constante destruição de casas palestinas por colonos israelenses, apesar da condenação da ONU.
Berlim encerra sua jornada entre países e estilos diversos; brasileiros vencem prêmios paralelos
Berlim - Terminada a exibição dos 20 longas concorrentes ao Urso de Ouro, dá para imaginar que o júri internacional, presidido pela atriz quênio-mexicana Lupita Nying’o, vai ter bastante trabalho, ainda mais porque se tratou de uma seleção muita variada e que se destacou por várias interpretações femininas marcantes. As premiações principais do festival serão divulgadas na noite deste sábado (24).
De todo modo, brilhou a eficiência dramática de Vogter (foto ao lado), do dinamarquês Gustav Möeller, que retrata o drama de Eva (a ótima Sidse Babett Knudsen, de Depois do Casamento), uma guarda de prisão muito profissional mas que começa a perder o controle quando vê chegar à instituição o assassino de seu filho (Sebastian Bull). Uma história de vingança conduzida com mão segura e um clima envolvente.
Da mesma maneira, o tunisiano Who do I Belong to?, da diretora Meryam Joobeur, mostrou densidade para retratar o drama de uma família de camponeses cujos filhos mais velhos, dois gêmeos, desaparecem da aldeia para integrar o ISIS, para desespero da mãe (a excelente Salha Nasraoui). Quando um deles volta, novos dilemas se apresentam. Um bom recurso é quando o filme abandona o realismo estrito, o que soma camadas a um filme muito respeitável, sobre um tema candente.
O veterano diretor mauritano Abderramane Sissako (conhecido por Timbuktu), por sua vez, integra a Costa do Marfim e a China em Black Tea (foto ao lado), acompanhando a viagem de Aya (Nina Mélo), jovem africana que imigra para a China depois de desistir do casamento no altar. Apesar de um começo promissor e da interesse despertado por esta comunidade africana numa realidade tão diferente quanto a chinesa - e todos eles falam chinês -, o filme se perde um pouco quando parece contemplar narrativas divergentes.
Vindo do Nepal, Shambala, do diretor Min Bahadur Mam, filmado nas montanhas do Himalaia, registra um relato em torno de uma jovem, Pema (Thinley Lhama), que se casa com dois irmãos, seguindo uma tradição local, mas vê um deles desaparecer devido a uma suspeita a respeito de sua fidelidade.
Finalmente, o veterano sul-coreano Hong Sangsoo, detentor de três Ursos de Prata, tenta o ouro mais uma vez em A Traveler’s Needs, uma comédia sutil em torno de uma francesa (Isabelle Huppert) desgarrada na Coréia do Sul e vivendo de lecionar línguas estrangeiras. Este, como Black Tea, mais um filme diluído numa narrativa fragmentada, que não alcança o que parecia buscar.
Filmes brasileiros vencem premiações paralelas em Berlim
Divulgadas na noite desta sexta-feira (23) as primeiras premiações paralelas na Berlinale, produções e coproduções brasileiras receberam distinções. Foi o caso da coprodução Brasil/Alemanha/Taiwan/Argentina Dormir de Olhos Abertos, dirigido pela alemã Nele Wohlatz (foto abaixo) e filmado no Recife, que venceu como melhor filme da seção Encounters na premiação da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos), na Cinemateca Alemã.
O longa acompanha a jornada de alguns imigrantes chineses na capital pernambucana, focalizando o desenraizamento das pessoas nestes deslocamentos pelo mundo. O elenco é quase todo constituído de atores não profissionais. E o filme é produzido pela dupla Émilie Lescaux e Kléber Mendonça Filho (diretor deBacurau).
Na seção Generation 14 Plus, o curta brasileiro Lapso, de Caroline Cavalcanti, recebeu uma menção especial. Ele retrata a experiência de dois adolescentes, cumprindo medida disciplinar depois de pequenos delitos e que compartilham um novo afeto.
Fipresci
Na premiação dos críticos, venceram também o filme iraniano My Favourite Cake, na competição principal, prêmio recebido pelos atores Lily Farhadpour e Esmail Mehrabi (foto abaixo), já que os diretores, Maryam Mogaddam e Behtash Sanaeeha, foram impedidos de vir a Berlim pelo governo iraniano, que confiscou seus passaportes.
O filme foi coproduzido pela França, Suécia e Alemanha e acompanha a aventura romântica de um casal maduro num ambiente de repressão política e comportamental.
Na seção Panorama, a Fipresci premiou Faruk, de Asli Özge, uma coprodução entre Turquia, Alemanha e França. E, na seção Forum, o vencedor foi o filme espanhol The Human Hibernation, de Anna Cornudella Castro.

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