Dois filmes com DNA brasileiro focalizam desencontros modernos na Berlinale
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 20/02/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Berlim - Parte da seção Encounters, dois filmes com DNA brasileiro passaram pela Berlinale: Cidade; Campo (foto ao lado), novo trabalho da diretora paulista Juliana Rojas, uma coprodução entre Brasil, França e Alemanha; e Dormir de Olhos Abertos, uma coprodução entre Brasil, Taiwan, Argentina e Alemanha, filmada no Recife e com uma diretora alemã, Nele Wohlatz.
Coincidentemente, os dois filmes abordam personagens em trânsito, numa busca que envolve deslocamentos, inclusive geográficos. Cidade; Campo divide-se em duas histórias. Na primeira, Joana (a magnífica Fernanda Vianna, do grupo Galpão), sobrevivente da tragédia das barragens mineiras, muda-se para São Paulo, depois de perder sua casa, reconstruindo sua vida trabalhando no Diarex - um aplicativo para faxineiras. Assim como em Trabalhar Cansa (2012), seu filme codirigido com Marco Dutra, Juliana Rojas desenvolve uma crítica precisa ao fenômeno atual do trabalho precário, maquiado sob um marketing de modernidade e auto-empreendedorismo. Neste segmento, destaca-se também a atuação de Preta Ferreira.
No outro segmento, o foco recai sobre duas mulheres, Paula (Mirella Façanha) e sua parceira Mara (Bruna Linzmeyer), que se mudam para a pequena fazenda herdada do pai da primeira. Neste novo ambiente, elas pretendem manter a produção agrícola e a criação de animais. Mas estranhos fenômenos abalam seu cotidiano, levando Mara a querer abandonar o lugar.
Como em toda a sua obra, a partir de curtas como O Lençol Branco, Juliana manifesta uma predileção por inserir um toque fantástico em suas histórias carregadas de vários aspectos realistas - uma mistura que rendeu filmes tão diferentes quanto o cômico-musical Sinfonia da Metrópole (2014) quanto o tenso A Passagem do Cometa (2017). É fato, também, que em Cidade; Campo esse fator se infiltra mais explicitamente na segunda do que na primeira história - exceto pelo fato de que Joana é perturbada pelos fantasmas de sua cidade coberta pela lama das barragens de maneira mais sutil.
Em termos formais, há uma preferência por uma fotografia mais sombria. E é possível sentir falta de um pouco mais de conexão da primeira com a segunda história - que se dá através de um único detalhe, que poderá passar despercebido por muitos.
China em trânsito
Exceto pelo cenário de Recife, que entra em foco de tempos em tempos, há pouco de Brasil propriamente dito em Dormir de Olhos Abertos (foto ao lado) - em que se ouve mais chinês e espanhol do que propriamente português. Este detalhe, que pode produzir estranhamento, na verdade faz parte de um sentimento de que o filme se apropria, o desenraizamento que une os chineses Fu Ang, Kai e Xiaoxin, todos atores não-profissionais.
Estes imigrantes chineses estão no Recife como poderiam estar em qualquer lugar do mundo, em busca de trabalho, vivendo num mundo clandestino e paralelo, num trabalho de comércio que os isola na própria comunidade - e do qual eles repentinamente partem, como se observa numa fala.
O argentino radicado na França Nahuel Pérez Biscayart (120 Batimentos por Minuto) faz uma breve participação neste ambiente, como um imigrante também em busca da própria sorte - e falando chinês quase todo o tempo.
O que está em jogo aqui é mais o sentimento de busca destes personagens, envolvidos em laços fugazes, quase invisíveis nestes lugares por onde passam e nos quais não se enraízam, são seres eternamente de passagem. O filme sintoniza num sentimento atual, de que é difícil ter identidade, pátria, em tempos tão fragmentados, em todos os sentidos.
Veja a Galeria de Fotos do Festival de Berlim 2024
Relacionadas
Dia do Brasil na Berlinale
- 18/02/2024
