22/07/2026

Mati Diop e Claire Burger salvam a esquadra francesa em Berlim

Berlim - Vistos 13 dos 20 competidores pelo Urso de Ouro, os quatro representantes franceses teriam que chamar a atenção, ainda mais trazendo entre eles nomes premiados como Olivier Assayas e Bruno Dumont, ao lado de duas jovens diretoras promissoras como Mati Diop e Claire Burger. Mas ficaram com elas os méritos nesta edição. Os dois veteranos decepcionaram bastante.
Um dos melhores filmes de toda esta seleção, o documentário Dahomey (foto ao lado), de Mati Diop, acompanha a devolução de 26 peças históricas do Benin - de um total de 7000 -, roubadas durante o processo colonialista no final do século XIX e que estavam em museus franceses. A diretora acompanha não só o processo físico deste retorno das peças, de valor artístico, histórico e também religioso ao seu local de origem, como se permite um toque fantástico - como fizer em seu filme anterior, o premiado Atlantique - ao dar uma voz interior a uma dessas estátuas, que manifesta seus sentimentos com esta volta ao lar.

Ao seguir as discussões na Universidade de Abomei em torno desta retomada, Diop também assinala os contornos de uma cultura extremamente viva, de uma juventude africana disposta a tomar seu destino com as próprias mãos - um tema em que a diretora franco-senegalesa está à vontade e com propriedade.

Adolescência feminina
Prestigiada com seu longa de estreia, Party Girl (2014), a diretora Claire Burger agradou com o longa Langue Étrangère (foto ao lado), em que posiciona as angústias de duas adolescentes, a francesa Fanny (Lilith Grasmug) e a alemã Lena (Josefa Heinsius). Após a troca de alguma correspondência, Fanny viaja a Leipzig, onde mora Lena, num intercâmbio que deve ser retornado depois, para Strasbourg, onde vive Fanny. Essas viagens permitem colocar em foco as diferenças culturais entre os dois países, inserindo também processos políticos, como protestos do passado e do presente - os primeiros, envolvendo também outra geração, como a mãe de Lena (a atriz alemã Nina Hoss). A mãe de Fanny, por sua vez, é vivida por Chiara Mastroianni.

Como em seu filme de estreia, Claire demonstra habilidade na construção de personagens consistentes, de carne e osso, energia e personalidade. As duas jovens atrizes, aliás, são um achado, particularmente Josefa Heinsius, de uma segurança e carisma impressionantes. E o festival, por falar nisso, está demonstrando faro para selecionar filmes retratando famílias com a complexidade emocional que se requer.

Decepções
Ostentando no currículo títulos como Depois de Maio, Acima das Nuvens e a série Carlos, o Chacal, Assayas compareceu com um filme bastante pessoal, Hors du Temps (foto ao lado), em que ficcionaliza sua própria experiência da pandemia, abrigado numa bela propriedade campestre pertencente à sua família, sendo seu alterego interpretado pelo ator Vincent Macaigne. O resultado, no entanto, nunca se eleva acima do óbvio, num filme profundamente auto-indulgente, em torno da rotina de dois casais no campo, que não têm maiores dificuldades financeiras, têm suas neuroses mas, portanto, sofreram muitíssimo menos do que milhões de pessoas no planeta. Ao final do filme, é de se pensar se não seria melhor ter esperado mais para dizer algo mais significativo sobre este tema.

Finalmente, em L’Empire, Bruno Dumont leva ao limite seu conhecido gosto pelo grotesco, que percorre toda a sua obra e foi particularmente bem-sucedido na minissérie O Pequeno Quinquin mas aqui explode numa sátira exagerada e sem-graça a filmes de ficção científica, como Star Wars.

Numa cidadezinha ao norte da França, a vida pacata esconde uma guerra envolvendo inimigos alienígenas inconciliáveis, que ocupam os corpos humanos, mas apenas aguardam a oportunidade de sua batalha final. De um lado, estão Jony (Brandon Vlieghe), pai de uma criança que seria o herdeiro do mal, e Belzebu (Fabrice Luchini), do outro, Jane (Anamaria Vartolomei), a serviço da Rainha (Camille Cottin). O veterano Luchini nunca na vida esteve tão patético e ridículo. Enfim, pode ter gosto para tudo, mas esta mistura de naves espaciais com visual de catedrais góticas no meio de tanta tosquice não deu certo mesmo.

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