O México e o antinazismo dão as caras na Berlinale
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 17/02/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Berlim - Primeiro representante da América Latina visto na competição berlinense, La Cocina (assista ao trailer), de Alonso Ruizpalacios, trouxe uma pitada de ousadia em sua fotografia em preto-e-branco e câmera fluida, que circula freneticamente pelos corredores da imensa cozinha de um restaurante turístico de Nova York, em que o pessoal é constituído basicamente de imigrantes.
Por esse motivo, ouve-se muito espanhol, mas também inglês e até árabe, refletindo a imensa Babel de uma Nova York de bastidores, integrada por destituídos de várias geografias e ali aportam, em busca de um naco de um sonho americano que parece cada vez mais fragmentado e escasso. Também fazem parte desse tipo americanos pobres, brancos e negros, que disputam um lugar ao sol que nunca parece nascer para nenhum deles.
Conhecido por seu segundo filme, Museu, que venceu um Urso de Prata em 2018 como melhor roteiro, Ruizpalacios impregna seu filme, uma adaptação da peça de Arnold Wesker, de uma energia frenética, incessante, que se desata a partir da figura de Pedro Ruiz (Raúl Briones Carmona), um cozinheiro enamorado da garçonete Julia (Rooney Mara), ambos envolvidos com uma soma de dinheiro supostamente desaparecida do caixa e do projeto de um aborto.
Num filme coral como esse, vários outros imigrantes terão voz e vez, como num musical - mas sem música. Há muitos diálogos, falas, conflitos entre panelas fumegantes, facas, bandejas e geladeiras, numa espécie de subterrâneo onde todas as tensões pessoais e sociais se cozinham, nem sempre a fogo lento.
Anônimos antinazistas
Pela quinta vez em Berlim, o veterano alemão Andreas Dresen resgata em From Hilde, with Love (veja o trailer) a figura de Hilde Coppi (Liv Lisa Fries), uma jovem militante antinazista capturada, junto com o marido, Hans (Johannes Hagemann), em 1942, junto com amigos, pelo envolvimento num processo de espionagem em favor dos soviéticos.
Não é uma história nova, mas Liv Lisa Fries impregna sua protagonista de uma enorme energia, representando uma figura miúda, anônima, que decidiu engajar-se numa luta contra os nazistas sem aspirar a ser uma heroína - o que ela termina sendo, à sua revelia. Hilde, assim como o marido e seus amigos, representam aqueles cidadãos, muitos deles jovens, que se arriscaram em atitudes para tentar deter o avanço do autoritarismo extremista que naquele momento dominava seu país, com a generosidade e a ousadia da juventude.
Dresen conduz seu relato em tom sóbrio, evitando o excesso de melodrama que poderia derramar-se numa história cuja protagonista foi presa grávida, dando à luz na prisão. Retrata-a com a dose exata de humanidade e contradições e humaniza mesmo figuras como uma guarda da prisão, a sra Khüns (Lisa Wagner), fugindo a estereótipos frequentes nesse tipo de personagem sem, no entanto, passar pano ou idealizar ninguém. Nesse equilíbrio reside a força deste relato.
Desde já, a atriz Liv Lisa Fries é uma forte candidata a premiações. Quem sabe se repete a situação de 2022, quando um outro filme de Dresen, Rabiye Gurnaz vs George W. Bush, levou o prêmio para Meltem Kaptam.
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