23/06/2026

Um dia de revisões estimulantes

Retrospectiva Mark Cousins

A História do Olhar

Neste documentário profundamente pessoal, o diretor extrai reflexões sublimes e profundas a partir da conexão que estabelece entre um problema de visão - que exige uma cirurgia que pode causar-lhe a cegueira de um olho - e toda a capacidade que está envolvida por trás desse ato dos sentidos em relação a estar no mundo e o cinema.
Este é, certamente, um dos filmes que melhor define o estilo de Mark Cousins, ocupando a tela para uma declaração em primeira pessoa que não soa egoica, justifica-se em cada fotograma dada a dramaticidade da situação. E também como, a partir dessa individualidade, ele consegue tornar palpáveis, como cinema, as ligações que estabelece ao refletir sobre o ato de olhar, como ele nos coloca na vida, no mundo, define comportamentos e é, evidentemente, essencial para alguém que abraçou a profissão de cineasta.

Por tudo isso, é um filme que resiste a uma descrição - é uma experiência. E altamente recomendável. (Neusa Barbosa)

Sessões

São Paulo

Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo - 08/04/2024 às 14h30

Sesc 24 de Maio - 13/04/2024 às 14h

Rio de Janeiro

Estação Net de Cinema Rio - Sala 2 - 10/04/2024 às 19h

Women Make Film - episódio 1

A portentosa série, dirigida curiosamente por um homem - o irlandês Mark Cousins - é um verdadeiro curso de cinema, não só por seu fôlego, abrangência e duração. Trata-se de um mergulho original e apaixonado no cinema realizado por mulheres ao longo de várias épocas, debruçando-se mais especificamente sobre os trabalhos de 183 delas, de todos os continentes.

Fruto de um enorme trabalho de pesquisa, realizado ao longo de cinco anos, a série enfileira trechos de filmes dirigidos por mulheres, organizados por temas como aberturas de filmes, tons, apresentação de personagens, credibilidade, diálogos, enquadramentos, encenações, descobertas, jornadas, montagem, economia, relações adultos/crianças, close ups, surrealismo, sonhos, sexualidade e muitos mais. Em cada um destes seus capítulos, traz reflexões instigantes sobre a criatividade destas mulheres, muitas das quais não conhecemos, ou conhecemos muito pouco, dado o sistemático apagamento destas profissionais em prol de seus colegas homens.

Desfilam pela tela nomes como o da ucraniana Larisa Shepitko, a romena Kira Muratova, a britânica Wendy Toye, a tunisiana Moufida Tlatli, a japonesa Kuniyo Tanaka, além de outras mais conhecidas, como a belga Agnès Varda, a neozelandesa Jane Campion e a norte-americana Katryn Bigelow, além da brasileira Petra Costa. De cara, é bom que se diga, ninguém se assuste com a profusão de cenas e fique com medo de perder alguma coisa neste fascinante turbilhão de imagens - todos estes títulos estão relacionados por seus temas, no site do filme. De modo que o melhor é relaxar e viajar neste road movie pela história do cinema das mulheres, esta “Academia de Vênus”, como o documentário define tão bem. (Neusa Barbosa)

Sessões

São Paulo

Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo - 08/04/2024 às 17h

Sesc 24 de Maio - 13/04/2024 às 16h30

Rio de Janeiro

Estação Net de Cinema Rio - Sala 2 - 13/04/2024 às 19h

Competição Brasileira

Inutensílios

O documentário já chama a atenção pelo seu título inusitado, uma espécie de neologismo que vai contra o pragmatismo da necessidade utilitária capitalista. Algo ser inútil é, em si, uma forma de existência, existir apenas para servir para algo.
Bruno Jorge, o diretor desse documentário, abandonou a vida em São Paulo e se mudou com a mulher e o filho pequeno para a Serra da Mantiqueira, numa vila rural.

Ao saber da segunda gravidez de sua companheira, resolveu que o filme teria um fim, mas não uma finalidade. Essa ideia de uma livre associação, de um fluxo guiado pelo acaso do presente, marca o documentário. O fazer documental se torna uma questão central, encontrar a forma ideal de algo que ele não sabe como deve ou poderia ser.

É uma proposta, ou mesmo um convite, que ele faz ao público, que deve entrar em sua cadência temporal, que se rebela contra a máxima “tempo é dinheiro”. Encontramos assim um ritmo que busca a vida nessa cidade de cerca de 4 mil habitantes. Transitando entre o coletivo e o pessoal, o filme resgata narrativas, histórias da experiência de viver nessa cidade. Ao mesmo tempo, esse pequeno universo é também um retrato do Brasil.

São histórias únicas, como a de um jogador do campeonato local, ou o primeiro homem nascido e criado no município que seria ordenado presbítero - e o filme acompanha com ele esse dia especial. São momentos assim, que trazem o colorido humano ao filme, enriquecem e nos lembram da complexidade humana diante da sociedade.

A curiosidade de Bruno Jorge é o que alimenta o filme. Um dia, indo à padaria, percebe uma movimentação na delegacia, e entra para ver o que está acontecendo. Espera que seja um crime impressionante, mas, não, é o Papai Noel que está saindo dali em uma charrete pelas ruas da cidade.

Inutensílios é um documentário poético, um ensaio sobre a condição humana numa sociedade que, embora capitalista (não há, obviamente, como fugir disso), não se curva a um dos principais eixos desse modo de produção: o tempo. Nesse sentido, é até uma investigação sobre a possibilidade da utopia, e sua fotografia em preto e branco só ajuda a mostrar como isso pode ser um anseio atemporal.
(Alysson Oliveira)

Sessões

São Paulo

Espaço Itaú de Cinema Augusta - 08/04/2024 às 20h30

Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo - 09/04/2024 às 19h30

Tesouro Natterer

Um membro dos povos originários brasileiros, da etnia munduruku, está num museu em Viena, onde no depósito do Departamento da América do Sul, ele se depara com diversos apetrechos feitos de penas, típicos do seu povo, e diz: “Deveriam mandar para nossa comunidade mesmo, para nós produzirmos novos de novo, vendo esses aqui.”
Como nos é apresentado depois, o personagem é o professor Hans Kaba Munduruku, que, como nós, fica, ao mesmo tempo, encantado e indignado pelo fato de um museu austríaco ter um acervo tão grande e variado de artefatos de seu povo. Ele encontra coisas tão antigas que nem existem mais em sua comunidade.

Dirigido por Renato Barbieri, Tesouro Natterer parte da figura do naturalista austríaco Johann Natterer, que chegou ao Brasil em 1817 como membro da Expedição Austríaca, que acompanhou a então arquiduquesa Leopoldina. O acervo tem o impressionante número de mais 50 mil objetos, conseguidos por meio de escambo. O filme acompanha Kurt Schmutzer, principal biógrafo de Natterer, refazendo sua viagem no Brasil.

Reconstituir, por meio de depoimentos, a trajetória de Natterer no Brasil é resgatar uma narrativa de artefatos históricos que não estão mais em seu país de origem. É a história de como a Europa tomou para si tesouros arqueológicos ou mesmo culturais e antropológicos, como é o caso aqui, para seus museus. Ao filme, no entanto, falta um olhar mais crítico sobre essa questão, que até existe em algumas falas do professor Hans Kaba, cuja presença, aliás, poderia ser mais aproveitada.

Na forma, é um filme bastante convencional, com um uso excessivo de música, mas que traz um episódio pouco lembrado ou mesmo conhecido, que remete à história constante de exploração e colonização (formal ou informal) que o Brasil sempre sofreu.

Há momentos de pouca sutileza para transmitir uma mensagem. Como quando mostra Hans Kaba Munduruku filmando o acervo do museu com um celular moderno, ao mesmo tempo em que Schmutzer
participa de rituais com uma tribo de povos originários. Parece que o filme quer louvar uma certa globalização que permite esse tipo de coisa. (Alysson Oliveira)

Sessões

Rio de Janeiro:

Estação Net de Cinema Botafogo - 08/04/2024 às 20h30

Estação Net de Cinema Rio - Sala 5 - 09/04/2024 às 17h30