21/07/2026

Entre o realismo e a fantasia, nos quatro cantos do mundo

A Queda do Céu

O líder Yanomami Davi Kopenawa prestigiou pessoalmente em Cannes, em maio, a apresentação de A Queda do Céu, o filme de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha que se inspira na obra homônima de Kopenawa e do antropólogo franco-marroquino Bruce Albert, também presente à sessão. O filme foi apresentado na seção Quinzena dos Realizadores.

Foi o próprio líder yanomami quem convidou os diretores a filmarem em sua comunidade Watoriki, retratando uma cerimônia em homenagem ao sogro falecido de Kopenawa, cuja preparação e ritos são um mergulho no modo de vida dos indígenas - constantemente ameaçado por invasões de garimpeiros, trazendo desmatamento, doenças e toda sorte de violências.
Falando numa conversa depois da sessão, Eryk Rocha destacou que seu filme, que começou a ser planejado em 2017, na verdade, é uma “inadaptação” do livro de Kopenawa e Albert, que enfatiza os riscos da destruição da natureza sob o prisma da cosmologia indígena.
“É mais uma inspiração, um diálogo com aspectos do livro, que pode ter muitas outras leituras”, afirmou. Segundo o cineasta, sua preocupação foi fixar-se em três aspectos: “Diagnóstico, alerta e convite para mergulhar nesse outro mundo, dos xapiri (espíritos, na cultura yanomami), não meramente ficar na mera constatação do fim do mundo e expor a potência desse pensamento deles, que é geopolítico”.

Muito aplaudido, Davi Kopenawa, que via o filme pela primeira vez, elogiou a obra - que foi realizada em sintonia com a comunidade tradicional - e afirmou: “Não fizemos essa mensagem para assustar vocês. (O fim do mundo) não vai acontecer amanhã. O filme foi feito para vocês gostarem, olharem e pensarem. Até eu, que sou xamã, me assusto com a destruição da floresta amazônica, com os invasores. Isso não pode continuar. A luta dos povos indígenas vai continuar”. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO AUGUSTA 1 - 28/10 - 21h20
CINEMATECA SALA GRANDE OTELO - 29/10 - 15h45

O Planeta Silencioso

Ficção científica existencialista, O Planeta Silencioso se passa num planeta onde pessoas são mandadas para cumprir pena. Theodore (Elias Koteas) vive nesse lugar, consumido por lembranças da Terra, até a chegada de uma nova prisioneira, Niyya (Briana Middleton).

Escrito e dirigido por Jeffrey St. Jules, o filme parte da interação entre os dois personagens para discutir a culpa e a redenção, como explica o cineasta, que está em São Paulo para acompanhar seu filme na Mostra. “É possível deixar o passado para trás, mesmo se estivermos vivendo em outro mundo? Essa era uma questão central que eu queria discutir.”
St Jules afirma que a ficção científica é um gênero que sempre o fascinou, desde criança, pois permite extrapolar a realidade num mundo que não é exatamente o nosso. “Quando um filme se passa na Terra, as pessoas já chegam com ideias preconcebidas, com julgamentos morais. Mas, quando a trama se passa em outro planeta, elas podem estar abertas a novos conceitos e ideias sem pré-julgamentos.”

O confronto entre os dois personagens retrata exatamente isso. Talvez Theodore e Niyya tenham tido uma ligação do passado, ou pode ser apenas uma fantasia. Órfã, ela foi adotada por uma família de alienígenas, que acabaram assassinados por um humano, que pode ou não ser o colega de prisão.

O diretor explica que suas inspirações vieram do passado, do cinema de ficção científica em especial dos anos de 1970. Ele menciona que não queria usar muita computação, primeiro pelo fato de ser um filme independente e de baixo orçamento, mas também para celebrar um tipo de cinema do passado que não dependia de efeitos sofisticados.

“Eu queria filmar em locação, não em estúdio, num deserto que pudesse trazer textura ao filme, ao invés de usar telas no fundo e depois substituir pelo planeta. Minha ideia era de que as coisas não parecessem artificiais demais”. (Alysson Oliveira)

CINESYSTEM FREI CANECA 6 - 28/10/24 - 17:30

Dormir de Olhos Abertos

Exceto pelo cenário de Recife, que entra em foco de tempos em tempos, há pouco de Brasil propriamente dito em Dormir de Olhos Abertos, dirigido pela alemã Nele Wohlatz - em que se ouve mais chinês e espanhol do que propriamente português. Este detalhe, que pode produzir estranhamento, na verdade faz parte de um sentimento de que o filme se apropria, o desenraizamento que une os chineses Fu Ang, Kai e Xiaoxin, todos atores não-profissionais.

Estes imigrantes chineses estão no Recife como poderiam estar em qualquer lugar do mundo, em busca de trabalho, vivendo num mundo clandestino e paralelo, num trabalho de comércio que os isola na própria comunidade - e do qual eles repentinamente partem, como se observa numa fala.
O argentino radicado na França Nahuel Pérez Biscayart (120 Batimentos por Minuto) faz uma breve participação neste ambiente, como um imigrante também em busca da própria sorte - e falando chinês quase todo o tempo.

O que está em jogo aqui é mais o sentimento de busca destes personagens, envolvidos em laços fugazes, quase invisíveis nestes lugares por onde passam e nos quais não se enraízam, são seres eternamente de passagem. O filme sintoniza num sentimento atual, de que é difícil ter identidade, pátria, em tempos tão fragmentados, em todos os sentidos.

O filme venceu o prêmio da Fipresci (Federação dos Críticos) da seção Encontros do mais recente Festival de Berlim. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL 2 - 28/10 - 21h46
INSTITUTO MOREIRA SALLES PAULISTA - 29/10 - 15h50

De Hilde, com Amor

O veterano cineasta alemão Andreas Dresen resgata aqui a figura de Hilde Coppi (Liv Lisa Fries), uma jovem militante antinazista capturada, junto com o marido, Hans (Johannes Hagemann), em 1942, junto com amigos, pelo envolvimento num processo de espionagem em favor dos soviéticos.

Não é uma história nova, mas Liv Lisa Fries impregna sua protagonista de uma enorme energia, representando uma figura miúda, anônima, que decidiu engajar-se numa luta contra os nazistas sem aspirar a ser uma heroína - o que ela termina sendo, à sua revelia. Hilde, assim como o marido e seus amigos, representam aqueles cidadãos, muitos deles jovens, que se arriscaram para tentar deter o avanço do autoritarismo extremista que naquele momento dominava seu país, com a generosidade e a ousadia da juventude.

Dresen conduz seu relato em tom sóbrio, evitando o excesso de melodrama que poderia derramar-se numa história cuja protagonista foi presa grávida, dando à luz na prisão. Retrata-a com a dose exata de humanidade e contradições e humaniza mesmo figuras como uma guarda da prisão, a sra Khüns (Lisa Wagner), fugindo a estereótipos frequentes nesse tipo de personagem sem, no entanto, passar pano ou idealizar ninguém. Nesse equilíbrio reside a força deste relato. (Neusa Barbosa)

CINESYSTEM FREI CANECA 2 - 28/10 - 17h30 (ÚLTIMA SESSÃO)

A Lista

Dirigido por Hana Makhmalbaf, este é o tipo do documentário de urgência. Foi feito no calor dos acontecimentos de 2021, quando a iminência da partida das tropas ocidentais do Afeganistão, devolvendo o país ao domínio dos fundamentalistas Talibãs, provoca uma corrida ao aeroporto de Cabul. Desesperados pelo retorno iminente ao poder dos fanáticos, que perseguem artistas e inapelavelmente se voltariam contra todos aqueles que serviram aos invasores norte-americanos, milhares de pessoas se amontoaram dentro e fora do aeroporto, até em seu canal de esgoto, lutando para entrar e serem incluídas entre os passageiros dos aviões que partiam.

Radicada em Londres, a família Makhmalbaf recorre aos seus contatos no Afeganistão e em outros lugares para fazer uma lista de artistas do país, a fim de incluí-los entre os passageiros prioritários, ou seja, em risco de vida, que militares ocidentais, como os franceses e os norte-americanos, pudessem retirar do país antes da data-limite de sua própria retirada, 31 de agosto de 2021.

Dessa lista fazem parte 800 nomes, entre cineastas, escritores, músicos, dançarinos e suas famílias, vários deles tendo suas fotos espalhadas nas ruas de Cabul, já sendo caçados.

Além do cotidiano febril da casa dos Makhmalbaf, que ficam por horas no celular e diante de seus computadores, checando quem conseguiu chegar ou não ao aeroporto, o filme inclui imagens colhidas por outras pessoas, dando conta da repressão já iniciada nas ruas da capital. Numa dessas cenas, um músico é espancado pelos Talibãs e perde seu olho. Outros enviam imagens da própria superlotação do aeroporto e suas imediações, nas condições mais precárias e desumanas para homens, mulheres e crianças.

O filme dá bem conta da imensidão desta tarefa, seguindo cada passo do sucesso ou fracasso dos esforços. E também informa sobre a incompletude da missão. Apenas cerca de metade das 800 pessoas foi efetivamente salva, fugindo do Afeganistão. Os demais lá continuam, alguns na prisão, outros escondidos, outros quem sabe, mortos. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO AUGUSTA 4 - 28/10 - 15h20
CINESYSTEM FREI CANECA 5 - 30/10 - 20h20

Ágora

Dono de um cinema de estranhamentos, o tunisiano Ala Eddine Slim não muda sua estratégia em Ágora, seu terceiro longa que, novamente, combina cinema de gênero com fábula. A trama se passa numa comunidade isolada cuja vida é transformada radicalmente com o retorno de um trio de pessoas desaparecidas: as retornadas, que não estão nem vivas, nem mortas.

A radicalidade do cinema de Slim, que também assina o roteiro, é tomar os elementos estranhos como realistas, e naturalizá-los em seus filmes, como Tlamess, exibido na Mostra em 2019. Premiado em Veneza, em 2016 com o Luigi De Laurentiis, concedido a um diretor estreante, o tunisiano tem se firmado como um dos autores mais interessantes da sua geração, que começa a se destacar em competições de grandes festivais.

Seguindo no campo dos elementos peculiares, aqui há um corvo e um cachorro azul que conversam sobre a decadência da humanidade. Memória e perda também são elementos recorrentes na obra do cineasta, cujos filmes são apocalipses marcados pelo embate entre a vida rural e a urbana, a simplicidade da natureza versus a destruição do artificialismo.

Um policial, Fathi (Neji Kanaweti), e um médico, Amine (Bilel Slatnia), tentam compreender os eventos que estão acontecendo naquele vilarejo. A chegada de Omar (Majd Mastoura), que conduzirá a investigação, marca a transição entre o procedimento policial e um tom mais filosófico que o filme adquire, tornando-se mais poético e etéreo.

Há algo de Apichatpong Weerasethakul aqui, mas Slim é dono de um cinema muito particularmente seu para ser classificado como quem reproduz outros cineastas. Sua marca é trazer à tona a realidade por meio da fantasia, da fábula. A fotografia de Youssef Rouissi evidencia contrastes, marcando a transformação de registro do filme que, conforme se torna mais poético, é mais incisivo em sua crítica social. (Alysson Oliveira)

KINOPLEX ITAIM SALA 1 - 28/10/24 - 18:15