Diretor exibe na Mostra filme sobre massacre de estudantes no México
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 22/10/2024
- Tempo de leitura 8 minutos
Não nos Moverão
Feridas pessoais e históricas se encontram no drama mexicano Não nos Moverão, do estreante em longas Pierre Saint-Martin, que traz como pano de fundo o Massacre de Tlatelolco, que aconteceu na Cidade do México em 2 de outubro de 1968, durante protestos contra a realização dos Jogos Olímpicos e pelas liberdades civis. A mando do então presidente Gustavo Diaz Ordaz Bolaños, o exército abriu fogo, matando centenas de estudantes.
A protagonista do longa é Socorro (Luisa Huertas), uma veterana advogada que usa métodos pouco ortodoxos e sempre está ao lado dos mais fracos. Porém, há anos ela guarda uma esperança: vingar-se do homem que matou seu irmão nos protestos de 68. Quando uma pista, finalmente, chega até ela, a mulher moverá sua rede de contatos para encontrar o assassino e vingar a morte do seu irmão.
Saint-Martin (foto abaixo), que veio à Mostra de S. Paulo apresentar seu longa, conta em entrevista ao Cineweb que uma de suas motivações para fazer o filme é o fato de o massacre ser pouco comentado em seu próprio país. “Existe muito pouco material sobre esse episódio. Até 2018, quando se completaram 50 anos do massacre, havia uns três documentários, alguns poucos romances e pesquisas universitárias. Por muito tempo, ninguém tocava nesse assunto.”
Ele explica que ainda existe uma certa resistência a se abordar o tema traumático, e aponta como paradigmático o drama Amanhecer Vermelho, de Jorge Fons, de 1989, que, por muito tempo, foi o único material sobre o episódio, e difícil de ser encontrado. Circulava apenas numa cópia em VHS de baixa qualidade. A convite de produtores, Saint-Martin fez uma série sobre o assunto, para streaming, e diante da pesquisa realizada, incluindo sobreviventes, familiares e até um militar.
“Esta pesquisa me instigou, havia material e um assunto que precisava ser discutido. Daí nasceu Não nos Moverão, que é meu segundo roteiro, mas o primeiro filme que consegui realizar”, conta.
O título do longa vem de uma canção de protesto da época, gravada por Los Lobos e também por Joan Baez. O diretor relata que o material que encontrou sobre o massacre era composto de muitas fotos em preto e branco, e isso o influenciou a fazer seu filme da mesma forma.
Ele também destaca o trabalho da atriz Luisa Huertas, fazendo sua primeira protagonista no cinema, apesar da carreira de mais de 50 anos. “Ela é um monstro sagrado do nosso teatro, mas fez poucos filmes. Eu não conseguia imaginar outra pessoa fazendo essa personagem. Ela se colocou toda na personagem, e me ajudou muito na construção de Socorro e mesmo do filme.” (Alysson Oliveira)
CINESYSTEM FREI CANECA 3 - 23/10/24 - 17:45
ESPAÇO AUGUSTA ANEXO 4 - 25/10/24 - 13:30
Sob o Vulcão
Apesar de representar a Polônia no Oscar, Sob o Vulcão (que não tem qualquer relação com o clássico de 1984, baseado em Malcolm Lowry) é protagonizado por uma família de ucranianos na Espanha. No longa dirigido por Damian Kocur, uma família de classe média ucraniana está de férias nas Ilhas Canárias no começo de 2022, quando a guerra explode em seu país, sem que eles saibam.
Roman (Roman Lutskyi) e Nastia (Anastasia Karpenko) viajam com a adolescente Sofia (Sofiia Berezovska), filha dele do primeiro casamento, e o pequeno Fedir (Fedir Pugachov), filho do casal. Tudo é muito tranquilo, mesmo com uma certa tensão entre Sofia e Nastia. Eles vão à praia, aproveitam o hotel, fazem coisas de turistas, até que notícias esparsas começam a chegar na internet do telefone e por mensagens de parentes.
Estando tão longe de casa, eles não se dão conta, ao menos, não imediatamente, da gravidade do que está acontecendo. A Rússia invadiu o país. Quando eles tentam voltar para casa, descobrem que não poderão. O hotel lhes oferece estadia e comida de graça – mesmo com a insistência do pai da família em pagar sua conta – por tempo indeterminado. O que afinal constitui uma espécie de ironia sobre a condição de refugiados – afinal, são brancos e europeus, outros refugiados nos países da Europa não recebem o mesmo tratamento, como bem se sabe.
O roteiro de Kocur e Marta Konarzewska acompanha uma espécie de paralisia que recai sobre esses ucranianos. Aos poucos, Sofia toma a dianteira e a história se torna sobre seu amadurecimento, sobre as descobertas sobre si mesma e o mundo que a cerca.
Apesar de ter como pano de fundo uma guerra que dura quase 3 anos, Sob o Vulcão é bem discreto em seu comentário político – é quase tão apolítico como seus protagonistas. O que se torna um desperdício da chance de fazer algum comentário relevante sobre o estado das coisas e sobre como os civis são as grandes vítimas desse conflito. De qualquer forma, pelo seu tema e sua suposta neutralidade, é um longa que tem tudo para chamar a atenção do Oscar. (Alysson Oliveira)
CINESYSTEM FREI CANECA 3 - 23/10 - 21:30
ESPAÇO AUGUSTA ANEXO 4 - 25/10 - 17:00
Malu
Exibido no Festival de Sundance, o longa de estreia do diretor Pedro Freire investe num eficiente trio de atrizes para compor os perfis de uma família marcadamente feminina. Malu (Yara de Novaes) é a protagonista, a força-motriz e também o fator de eterna instabilidade neste clã, integrado também por sua mãe, Lili (Juliana Carneiro da Cunha), e sua filha única, Joana (Carol Duarte).
Integrante de uma geração que rompeu barreiras sexuais e políticas, Malu foi atriz, militou, enfrentou a ditadura e viveu todas as experiências que sua liberdade buscou, para horror de sua mãe, católica conservadora. Na maturidade, encara a decepção, o desmoronar de seus sonhos, vivendo de favor numa casa de praia, de propriedade do ex-marido, de quem depende economicamente, alimentando sempre projetos mirabolantes de construir um teatro alternativo ali. O resultado é uma existência em bipolaridade, marcada por ferozes confrontos com a mãe idosa, que vive com ela e não desiste de tentar contê-la com iniciativas desastrosas, como chamar um padre (Márcio Vito) para conversar com a filha.
Joana, por sua vez, vive longe, tentando tocar uma carreira de atriz em São Paulo. Suas visitas desencadeiam momentos de afeto e também choques, pela impossibilidade de acertar tantas arestas acumuladas ao longo de uma vida. Outra presença na casa é de Tibira (Átila Bee), uma travesti desinibida que mantém uma amizade fraterna com Malu, mas é malvista por dona Lili.
Num filme dedicado à sua mãe, a atriz Malu Rocha (1947-2013), é visível que há traços autobiográficos nestas histórias, que Pedro Freire conduz com sensibilidade, especialmente a de deixar fluir o talento destas suas atrizes em cenas não raro de alta voltagem emocional, mas não menor verdade humana. Filtram-se, por aí, também as diferenças geracionais, expostas nas discussões, em que Malu cobra da filha a falta de utopia que sobrou na sua geração, talvez, no caso dela mesma, consumida inclusive por ela. (Neusa Barbosa)
ÚLTIMA SESSÃO: CINESYSTEM FREI CANECA 2 - 23/10 - 15h15
Israel Palestina na TV Sueca
Debruçando-se sobre os arquivos da TV Sueca entre 1958 e 1989, o cineasta Göran Hugo Olsson extrai momentos preciosos que dão conta de vários episódios na complexa situação do Oriente Médio, hoje traduzida numa interminável e sangrenta guerra na faixa de Gaza e agora no Líbano.
Assim, localizam-se vários antecedentes de um conflito até hoje insolúvel, traduzido na ocupação israelense de territórios palestinos desde a criação do estado de Israel, em 1948, ao lado da incessante luta da resistência palestina. Há entrevistas com personagens incontornáveis desta história, dos primeiros-ministros israelenses Abba Eban, Golda Meir e Menachm Begin, do presidente egípcio Anuar Sadat, do secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger e do presidente da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat, em vários momentos - tanto em situações de crise quanto em outras em que a paz pareceu estar próxima, como nos Acordos de Camp David de 1978. Há também sequências contundentes de momentos traumáticos, como o massacre de Sabra e Chatila, em 1982.
De maneira consistente e sólida, Olsson compõe, recorrendo apenas a imagens de arquivo, muitas não vistas desde sua primeira exibição na TV Sueca, um painel que oferece inúmeros elementos para reflexão sobre a conflituosa convivência entre Israel e a Palestina - tal como fizera com seu documentário The Black Power Mixtape 1967-1975, premiado no Festival de Sundance 2011.
Uma curiosidade: a narração é feita pela atriz sueca Pernilla August, conhecida pelos filmes As Melhores Intenções e Fanny e Alexander (Neusa Barbosa)
RESERVA CULTURAL 1 - 23/10 - 15h05
ESPAÇO AUGUSTA 4 - 29/10 - 19h45
CINESYSTEM FREI CANECA 4 - 30/10 - 18h10
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