21/07/2026

Seis opções para descobrir na Mostra, de novatos a veteranos

Falando com Rios

Numa linguagem poética que incorpora clareza e contundência, o veterano cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf - que integra o júri da Mostra 2024 - constrói uma reflexão singular neste documentário sobre as complexas relações entre o Irã e o Afeganistão - que, até o século 18, formavam um único território. Criando o recurso de um diálogo, entre o próprio Mohsen e o ator Jawanmard Paez, o filme ganha um tom intimista, como de dois irmãos conversando sobre as recíprocas mágoas, em torno de momentos históricos cruciais que, basicamente, destruíram o Afeganistão - dizendo-se que Deus criou o mundo em sete dias e o Afeganistão foi destroçado em apenas seis.
Dentro desse processo de destruição, são discutidos na conversa a invasão soviética, a invasão norte-americana, a ação do Talibã e intervenções do vizinho Paquistão. Em vários momentos, cobra-se do lado iraniano a omissão diante da tragédia do Afeganistão, cujos milhares de refugiados foram sistematicamente expulsos e repatriados em cada um destes conflitos.

Makhmalbaf também recorre a trechos dos vários filmes, como A Caminho de Kandahar e O Ciclista, além de A Lista, de sua filha Hanna Makhmalbaf - que integra a Mostra 2024 - para ilustrar este percurso acidentado e sangrento entre as duas nações. O rio que delimita as duas nações, aliás, é o Helmand, que igualmente vem sendo objeto de disputa entre elas. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO AUGUSTA 2 - 20/10 - 13h30
INSTITUTO MOREIRA SALLES PAULISTA - 25/10 - 20h40
CINESYSTEM FREI CANECA 1 - 30/10 - 20h10

Familiar Touch

A norte-americana Sarah Friedland demonstra uma especial segurança e sensibilidade neste filme de estreia, que merecidamente saiu carregado de prêmios do mais recente Festival de Veneza, como melhor direção e atriz (Kathleen Chalfant) na mostra Horizontes e prêmio Luigi De Laurentiis como melhor filme de estreia do festival.
Kathleen Chalfant realmente brilha como Ruth Goldman, a protagonista desta história sobre envelhecimento e Alzheimer que transcende o lugar comum ao mergulhar nas muitas camadas tanto da personalidade desta mulher, uma octagenária que passa a viver numa instituição depois de acometida pela doença, quanto dos funcionários do local.
O filme se torna, então, bem mais complexo ao atentar para as muitas nuances da nova situação de Ruth, que foi um dia autora de livros de receitas e uma admirável cozinheira, ao deixar de morar sozinha em sua casa. Embora lembre de cor inúmeras receitas complicadas, ela eventualmente não reconhece Steve (H. Jon Benjamin), seu próprio filho único.A atriz consegue muito bem encarnar toda essa especificidade da doença, que lhe rouba as memórias, mas não a singularidade, a humanidade. É notável também como o roteiro, assinado também por Sarah Friedland - uma diretora bastante jovem - capta esses detalhes e desenvolve as relações de Ruth com as pessoas que cuidam dela na instituição, a cuidadora Vanessa (Carolyn Michelle) e o médico Brian (Andy McQueen). Ou seja, foge do maniqueísmo e de uma visão da velhice nesse contexto como apenas sofrimento e privação. (Neusa Barbosa)

CINESYSTEM FREI CANECA 2 - 20/10 - 13h30
CINEMATECA ESPAÇO PETROBRAS - 22/10 - 19h

Dying - A Última Sinfonia

No contundente novo filme do diretor Mathias Gleisner, vencedor do prêmio de melhor roteiro em Berlim 2024, a solidez do drama familiar sustenta três densas horas de duração, em torno do velho casal Lissy (Corinna Harfouch) e Gerd (Hans Uwe Bauer) e seus filhos adultos, o maestro Tom (Lars Erdinger) e sua irmã Ellen (Lilith Stangenberg). Lissy e Gerd estão mergulhando rapidamente na fragilização física e na demência, expondo mais drasticamente o distanciamento emocional de seus filhos, cada um deles envolvido em relacionamentos complicados e insatisfatórios.
O foco fica mais centrado em Tom, que, bem ou mal, ainda atende aos telefonemas da mãe e mantém algum contato com a família, enquanto a irmã Ellen, uma assistente dentária, afunda no alcoolismo e nos romances fugazes. É nas participações dela, no entanto, que o enredo extrai algum humor, num relato que, no geral, se afigura pesado, mas mantém inúmeras conexões com as complexidades afetivas dos relacionamentos nos dias atuais.

Por conta da consistência do roteiro e também das atuações, este é um filme que se acompanha com interesse. (Neusa Barbosa)

CINESYSTEM FREI CANECA 2 - 20/10 - 18h50
RESERVA CULTURAL 1 - 27/10 - 20h40
CINESESC - 29/10 - 15h
ESPAÇO AUGUSTA 1 - 30/10 - 15h

Praia Formosa

A coprodução luso-brasileira, longa de estreia na ficção da diretora Júlia de Simone, representa de maneira poética e dramaticamente muito consistente o tema da diáspora africana. O enredo desenvolve-se em torno de duas figuras femininas, Muanza e Kieza, tematizando o colonialismo, a escravização dentro de deslocamentos temporais, incorporando descobertas de vestígios de uma história apagada, como o cais do Valongo, no Rio de Janeiro. O filme foi exibido anteriormente nos festivais de Roterdã, Olhar de Cinema e Cine BH. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL 1 - 20/10 - 21h20
CINESYSTEM FREI CANECA 1 0 27/10 - 14h40

Você me Queima

Transitando entre o documental impressionista e a ficção poética, o filme argentino é uma obra delicada sobre amores e o poder da poesia que transcende o tempo e o lugar. Um pequeno trecho do livro Diálogos com Leuco, do italiano Cesare Pavese, é o estopim da narrativa fragmentada do filme, que busca também seu material na antiguidade grega, na poeta clássica Safo, cujo relacionamento com a deusa Britomártis é a base para Pavese.
A partir desse diálogo entre os dois momentos da arte, o diretor Matías Piñeiro traz para o presente os laços entre as duas obras pelo olhar de uma jovem. Quase uma espécie de instalação combinando literatura e artes visuais, o filme é uma poesia em movimento. A obra da poeta grega sobrevive em fragmentos, às vezes, meros versos de poemas cuja totalidade, possivelmente, jamais será conhecida.
Piñeiro usa essa estrutura criando pequenos segmentos que se conectam seja na declamação de poemas, seja na pesquisa sobre eles ou mesmo quando suas personagens expõem os seus próprios sentimentos.
Dessa forma, Você me Queima é um viagem a um mundo muito particular onde as fronteiras são borradas e o traço de união é a permanência de sentimentos. As narrações de Gabriela Saidon e María Villar adicionam camadas pessoais à compreensão da arte em sua completude universal.

Indo e vindo numa narrativa etérea, Piñeiro cria rimas visuais em suas repetições, que seguem padrões que podem, num primeiro momento, parecer aleatórias mas são uma construção organizada como um poema que se formata em belas imagens diante de nossos olhos. É um filme desafiador e, não poucas vezes, aparentemente impenetrável. E aí reside a sua beleza, pois, na mesma medida, o diretor nos dá as chaves de compreensão desse universo tão particular em que seu longa habita. O resultado pode ser tão duradouro e profundo como uma poesia de Safo ou a prosa de Pavese. (Alysson Oliveira)

CINESYSTEM FREI CANECA 1 - 19/10 - 19:00
RESERVA CULTURAL - SALA 2 - 20/10 - 17:40
ESPAÇO AUGUSTA SALA 1 - 23/10 - 14:00
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO – CCSP- 29/10 - 15:00

Onda Nova

Segundo longa de uma trilogia dirigida por Ícaro (Francisco) C. Martins e José Antonio Garcia, Onda Nova foi exibido pela primeira vez na Mostra de 1983. Depois, proibido pela censura da ditadura civil-militar, o longa foi lançado um ano depois, e pouco visto. Agora, chega, mais de quatro décadas depois, novamente à Mostra, numa cópia restaurada que estreou no Festival de Locarno.
Audaciosa para sua época – e, também, para um presente marcado pelo conservadorismo –, essa comédia tem como protagonistas jogadoras de um time de futebol feminino, esporte que acabara de ser permitido no Brasil. Se só agora o esporte é um pouco mais aceito, nos anos de 1980 o fictício Gayvotas Futebol Clube era uma verdadeira transgressão para as personagens e os filmes.
Com uma estrutura mais livre do que os dois outros filmes do conjunto -
Olho Mágico do Amor (1982) e A Estrela Nua (1984), todos com Carla Camuratti no papel principal –, o filme é uma ode divertida à liberdade de expressão, que também inclui a liberdade sexual, colocando o dedo num tabu de forma divertida e sagaz.

Produzido na Boca do Lixo, embora não seja uma pornochanchada, o filme levanta questionamentos pertinentes sobre a juventude de sua época, mas que, de certa forma, reverberam até hoje em sua investigação sobre o que é ser jovem. As cenas de sexo, que não chegam a ser explícitas, são um tanto gráficas, filmadas com muita leveza e graça, dando às mulheres papel proeminente em busca de seus desejos. (Alysson Oliveira)

CINEMATECA ESPAÇO PETROBRAS -19/10 - 21:00
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 20/10 - 13:00

Veja mais dicas da Mostra aqui e aqui

Principais festivais internacionais onde alguns filmes estrearam:

Cannes 2024
Berlim 2024
Veneza 2024